A ilha de Islay (a pronúncia correta é Aila, diferente do que se imagina na fonética normal do inglês) é, provavelmente, o maior centro de peregrinação etílica do mundo. Pense em Meca ou Jerusalém só que cercado de algumas das melhores bebidas do mundo e da hospitalidade escocesa.
Lá existe uma das maiores concentrações de destilarias por habitante que se pode imaginar e, quando levamos em consideração que as 9 existentes hoje tem capacidade de produzir 23 milhões de litros de destilado por ano, com uma população de 3200 pessoas, chegamos ao absurdo número de quase 30 barris de whisky por habitante por ano. Um volume impressionante mas que, em breve, crescerá muito mais.
A reabertura da Port Ellen Distillery está programada para 2024. A Portintruan Distillery será construída entre a Port Ellen e a Laphroaig e está programando abrir suas portas em 2023 ou 2024. A Islay Boys, proprietária da Islay Ales, está mudando sua cervejaria para Glenegedale e planeja construir uma destilaria de whisky e rum em sua atual localização, com o nome de Laggan Bay Distillery. Indo para o oeste, logo atrás da Port Charlotte, fica o local de outra destilaria futura: a Gearach (que ainda está batalhando para conseguir as permissões de planejamento).
Em alguns anos é capaz que número de destilarias em operação pule para 13.
Existe uma espécie de divisão implícita em Islay sobre as categorias das destilarias. A trinca do Sul é formada pelas produtoras de maior reconhecimento: Lagavulin, Laphroaig e Ardbeg. A primeira é conhecida como “Prince of Islay” ou descrita modestamente pelos donos como “o whisky definitivo de Islay”. A segunda é a destilaria preferida do atual Rei Charles III e a terceira é famosa pelas extravagancias típicas de um herdeiro bilionário louco pela atenção do mundo.
Um pouco mais ao noroeste estão outras três destilarias: Bowmore, que só gosta de andar de carrão, Bruichladdich, a queridinha dos entusiastas, e Kilchoman, a destilaria fazenda ou fazenda destilaria, que é a novata correndo por fora nesse rali de titãs.
Ao norte da ilha há 2 destilarias (nesse caso estou desconsiderando a Ardnahoe que já produz, mas ainda não vende seus single malts). Na baía de Bunnahabhain está a destilaria de mesmo nome, famosa por seus whiskies não turfados, que se destacam por suas características marítimas e pela falta da “fumaça de Islay” em seus rótulos. Logo ao sul dessa baía está o Porto Askaig, a principal conexão da ilha com o continente escocês e lar do maior paradoxo de Islay: Caol Ila.
Com capacidade de produção de 6,5 milhões de litros de álcool por ano ela responde por praticamente ¼ do potencial produtivo de toda a ilha. Fundada em 1846, foi a primeira construção em concreto de Islay. Seu nome faz referência ao estreito entre as ilhas de Islay e Jura e escolhi essa destilaria como meu primeiro tópico na Academia como forma de dar destaque à maior, mais ignorada e subestimada destilaria dessa ilha.
Diferente de suas conterrâneas, que são festejadas por onde passam, a Caol Ila é aquele colega de trabalho que sempre faz tudo certinho, entrega tudo que se espera dele no prazo, com excelência, mas que se dedica tanto ao trabalho que esquece de fazer seu marketing pessoal.
A Caol Ila não é um monstro à toa… é de lá que saem as bases esfumaçadas para os Blended Whiskies da DIAGEO – em outras palavras, se já bebeu um Johnie Walker e gostou dele, a Caol Ila tem parte da culpa no cartório. Mas, apesar de todo o tamanho e toda a história, a destilaria só criou sua linha regular de single malts em 2002. Na década de 1990, ela era representada por uma versão maturada por 15 anos na lendária linha Flora e Fauna e algumas outras da Rare Malts, mas foi só no início do século XXI que nasceram as versões 12, 18 e 10 Cask Strength. A versão oficial do 25 anos, que costumava ser engarrafado com abv cask strength nos “Special Realeases” da Diageo, entrou para o core range (a linha regular da destilaria) em 2010 com abv de 43%.
Hoje, a linha regular é composta pelas seguintes expressões: Moch (sem idade declarada), 12, 18 e 25 anos, além de uma edição anual conhecida como Distiller’s Edition finalizada em barris de vinho Moscatel. Outra versão recorrente é a comemorativa do Festival Fèis Ìle que acontece sempre na última semana de maio.
Nesse review vou me ater ao cartão de visitas do core range. O Caol Ila Moch eu considero desprezível (no sentido mais literal da palavra) e as versões 18 e 25 anos são, na minha opinião, boas mas caras demais para o que oferecem, o que nos deixa com a versão 12 anos dentro da taça.
Vamos à degustação.
Caol Ila 12

Categoria: single malt
País: Escócia
Região: Islay
Idade: 12 anos
Barris: Não declarado
ABV: 43%
Filtragem à frio: sim
Corante: sim
Aroma:
Como é de se esperar de um clássico turfado de Islay, tudo começa com fumaça, que lembra lenha queimada acompanhado de um aroma medicinal iodado leve. Esse é o aroma que persiste nos primeiros minutos e é seguido de camadas de caramelo. A fumaça e o caramelo se fundem com as notas frutadas e trazem aromas que remetem a abacaxi e limão na brasa. Algumas nuances de especiarias como baunilha e noz moscada aparecem de forma discreta.
Sabor:
Uma boa promessa no aroma é levemente frustrada no paladar. A fumaça e as frutas carameladas ainda estão lá, agora acompanhadas de uma leve e agradável picância. As especiarias continuam ali com uma leve nota de coco seco. Infelizmente a textura deixa um pouco a desejar.
Finalização:
De média duração e complexidade um pouco menor que as percepções do aroma e paladar, ela é dominada pela fumaça e picância, aparece um leve toque de maçã vermelha.

Nota: 79/100
Queria muito ser um bom whisky, e quase conseguiu.
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Mas e aí?
O Caol Ila 12 anos é uma etapa imprescindível na jornada de qualquer entusiasta de uísque. Um campeão que não usa um exército de marketing nem embalagens chamativas, mas que é um representante clássico de ilha de Islay. Infelizmente sofre um pouco pela decisão do seu produtor de engarrafar em um teor alcóolico baixo (43%) e de submeter o destilado ao famigerado processo de filtragem a frio.

Mandando muito bem como sempre! Pedro, sumidade em conhecimento vivido e estudado sobre Whiskies… Um dos pontos que gosto muito no Caol Ila é além da turfa existe uma visibilidade do malte, as notas maltosas que vem em equilíbrio com as carameladas… Obrigado pelo belíssimo texto!
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Caol Ila, pra mim são os rótulos não turfados e os de engarrafadoras independentes! A destilaria tem um potencial muito legal, mas no carro chefe mesmo ela parece que não quer aparecer, não quer tirar destaque dos Johnny Walker… Valeu Pedrão, baita texto!!
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