Talisker 10: antigo x novo

Se você produzisse uma única coisa, no caso whisky, por quase 200 anos e tivesse apenas uma pequena área no seu produto para anunciar todas as qualidades, características e particularidades que o distinguem dos outros concorrentes do mercado, o que você gritaria para o mundo?

A Talisker escolheu exibir orgulhosamente no rótulo das suas garrafas os dizeres “The Only Distillery on The Isle of Skye” e “Made by The Sea”.

Não sei quanto a vocês, mas eu acharia essa informação ótima se fosse um corretor de imóveis. Mas vamos tentar ser bonzinhos aqui – ou, pelo menos, imparciais.

A primeira afirmação da marca morreu em 2017 com a inauguração da destilaria Torabhaig. Ela foi substituída por “The Oldest Distillery on The Isle of Skye”, não dá pra dizer que não são criativos. A segunda afirmação e, talvez, a mais sutilmente estranha, “Made by The Sea” continua lá, agora em um tom vibrante de laranja. Mas até onde isso é totalmente verdadeiro?

A única destilaria de Skye? Não mais.

Como em todas as destilarias da Diageo, os whiskies da Talisker são ligeiramente “misteriosos”, utilizando uma palavra de certa maneira gentil. A embalagem do whisky nos fala muito sobre a paisagem da Ilha de Skye, com o seu litoral áspero e tempestades selvagens, mas absolutamente nada sobre o líquido dentro da garrafa.

A mais antiga destilaria de Skye.

Mas nada que algumas horas de pesquisa não possam nos ajudar a esclarecer, pelo menos um pouco.

A destilaria foi fundada no ano de 1830 e está nas mãos da Diageo (na época DCL) desde 1916. Sempre foi, e ainda é, parte fundamental na composição dos blends da marca Johnnie Walker e é, atualmente, a segunda marca mais vendida de single malt da Diageo, atrás apenas da Singleton. A capacidade de produção anual da Talisker é algo em torno de 3.3 milhões de litros e atualmente opera com 100% da capacidade.

O malte utilizado na produção vem da Glen Ord Maltings, em Inverness, e a destilaria usa uma mistura de 25% de malte sem turfa e 75% de malte turfado com 20-25ppm de fenóis para a produção dos seus whiskies. A turfa utilizada para secagem desse malte vem da região de Pitsligo, ao norte de Aberdeen, uma área costeira da região de Speyside. Seu tempo de fermentação é relativamente longo, de 60-65 horas e acontece em 8 tanques de madeira.

Até ai, nada de novo. Mas é na destilação que a Talisker começa e chamar a atenção com um processo ligeiramente incomum. Além de uma proporção inusitada de 2 wash stills pra 3 spirit stills – o que faz sentido já que a destilaria utilizava tripla destilação até 1928 – os wash stills têm purificadores, que são dispositivos que geram uma redestilação de compostos mais pesados, resultando em maior refluxo.

Além disso, todos os alambiques têm Worm Tubs (ou condensadores de serpentina), que são um tipo mais tradicional de sistema de condensação (prometemos falar mais sobre isso em algum momento). São basicamente canos de cobre que ficam em um tanque, geralmente do lado de fora da destilaria, e que fazem o resfriamento dos vapores alcoólicos, trazendo-os novamente para o estado líquido. No caso da Talisker, a água usada para resfriamento das serpentinas é, desde 2018, a água do mar.

Wormtubs da Talisker – foto do @maltesetilicos

Os spirit stills da Talisker têm capacidade de aproximadamente 11.000  litros, são baixos, em formato de pêra e sem nenhuma constrição. Os Lyne Arms são perfeitamente horizontais e o corte do coração do destilado começa em 76% e vai até 65% (relativamente alto para whiskies turfados). O resultado disso é um destilado com níveis médios de fenóis de turfa, bastante complexo e sulfuroso.

Porém, é aqui que o slogan “Made by The Sea” fica um pouco confuso.

Um whisky é o resultado de alguns processos básicos. A cevada é maltada, moída e fermentada. Então o caldo é destilado repetidas vezes e tudo é colocado para maturar dentro de um barril. A parte da maturação é tão importante, que se o destilado não passar ao menos 3 anos dentro de um barril, ele sequer pode ser chamado de whisky. Então a fabricação, ou o “making” do whisky em tese deveria envolver todas essas etapas.

Mas a Talisker parou de encher os barris na destilaria no ano de 1997. O new make spirit é enviado em tanques de aço para instalações da Diageo perto de Glasgow – a pelo menos 48 quilômetros de distância da praia mais próxima – onde os tais tanques são esvaziados e os barris então são preenchidos e armazenados.

A destilaria ainda possui pequenos armazéns de maturação em Skye, com capacidade para pouco mais de 6.000 barris, onde são armazenados whiskies mais antigos ou os usados em edições especiais. Mas aqueles destinados às versões comuns de Talisker, no entanto, são maturados inteiramente na Escócia continental a mais de 330 quilômetros dos alambiques onde foi destilado.

Revamp do Talisker 10

Em 2021 a Diageo anunciou uma mudança na embalagem do tradicional Talisker 10.

Pense que o que a Highland Park tem de viking, a Talisker tem de ativismo ecológico, especialmente em relação aos oceanos.

Por causa dessa preocupação com o meio ambiente, segundo a empresa, houve uma redução no peso da garrafa, diminuição na quantidade de plástico utilizado e agora praticamente toda a embalagem pode ser reciclada.

A parte de trás da imponente caixa de papelão inclusive fala sobre o compromisso de proteger os oceanos para as próximas gerações. Não seria mais fácil e ecológico, simplesmente abolir a caixa completamente como tantas outras marcas estão fazendo? Enfim… “não adianta salvar o mundo se não nos promovermos no processo”.

A embalagem nova é bastante chamativa, o rótulo recortado em alusão ao litoral de Skye é um toque bem interessante, só achei que as cores um tanto chamativas deixaram o rótulo menos “classudo”.

Mas e o conteúdo da garrafa, será que continua igual? A marca não menciona nenhuma mudança na composição do Talisker 10, mas alguns relatos me motivaram a fazer essa comparação.

Talisker 10 anos

Categoria: single malt
País: Escócia
Região: Highlands (Ilha de Skye)
Idade: 10
Barris: Carvalho Americano (provavelmente de reuso)
ABV: 45.8%
Filtragem à frio: sim
Corante: sim

Versão antiga

Talisker 10 antigo

Nariz:

Um aroma bem fresco, herbal, algo que remete a alecrim e hortelã. Frutado cítrico (casca de limão), turfa discreta, seco, salgado que lembra algas.

Paladar:

A primeira coisa que vem é a pimenta, junto com uma grande salivação e ressecamente de boca. A textura não é exatamente oleosa, mas é aqui que o whisky deixa um pouco a desejar. Não entrega tudo que o aroma promete.

Finalização:

Curta/média com leve amargor, bastante apimentada, discreta fumaça e um quê salgado.

Nota: 82
Quem é um bom menino? Ahh o Talisker é um bom menino!
Quer detalhes sobre as notas? Clique aqui.

Versão Nova

Talisker 10 novo

Nariz:

Aroma bem amadeirado, baunilha, caramelo, bem adocicado . A turfa está presente, porém mais discreta. O herbal fica quase imperceptível, assim como as notas marítimas. É um whisky mais comportado.

Paladar:

Bem mais adocicado em boca, com presença de frutas tropicais, como abacaxi, e um apimentado bem menos pronunciado. A turfa fica um pouco escondido atrás das notas amadeiradas, mas a textura e persistência dessa versão são mais interessantes.

Finalização:

Um pouco mais longa, mais adocicada e com cítrico de limão. Fumaça bem discreta no final.

Nota: 82
Quem é um bom menino? Ahh o Talisker é um bom menino!
Quer detalhes sobre as notas? Clique aqui.

Resumo da Ópera

O 10 anos antigo tem um aroma bem mais interessante, que realmente nos remete à costa acidentada da Ilha de Skye. O destilado fica aparente, com as suas notas herbais e salgadas, além da fumaça pela qual os whiskies da destilaria são famosos. Na boca, apesar de não ter a sensação de um whisky aguado, a textura não é das mais interessantes e esse apimentado excessivo, combinado com uma certa falta de dulçor de boca, não me agrada tanto.

O 10 anos novo, apesar de não perder a assinatura da destilaria, tem um aroma um pouco mais arredondado e de certa maneira genérico. Parece um Talisker que se arrumou para sair. Desconfio que foram usados barris de Carvalho Americano ligeiramente mais ativos, deixando as notas do destilado um pouco mais escondidas atrás das notas da madeira. O nariz menos interessante acaba sendo compensado por uma sensação em boca mais agradável, sem perder a sensação salgada e apimentada.

Um pouco mais de corante na versão nova?

Se você é fã de whiskies um pouco mais ariscos e, de certa maneira, mais divertidos, talvez ir atrás de uma garrafa antiga de Talisker seja uma boa idéia. A versão nova, na minha opinião, não está nem melhor nem pior, somente diferente. Continua sendo um whisky obrigatório para aqueles que procuram conhecer os sabores menos delicados de um legítimo single malt escocês, especialmente pelo preço e facilidade de acesso que temos aqui no Brasil.

7 comentários sobre “Talisker 10: antigo x novo

  1. Achei q era mudança de paladar meu, mas realmente diminuiu o sabor da turfa e do sal. Assim como no aroma. Uma pena, pois era um turfado, sem o medicinal e iodo do Laphroaig.

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    1. Eu ainda não experimentei os 2 lado a lado Kasio, mas é interessante que essa percepção de mudança vem de praticamente todo mundo com quem eu conversei,,,,

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