Se tem algo que aprendi em degustações de whisky é que juntar um grupo de pessoas -geralmente cansadas depois de um dia de trabalho – e beber com elas quantidades generosas de álcool em um período relativamente curto de tempo é como colocar cargas explosivas em um prédio prestes a ser demolido.
Estimule o assunto certo – no caso whisky – e você tem um prédio caindo em meio a um show pirotécnico de fogos de artifício. Faça piadas com política ou futebol e a explosão faz o prédio cair em cima do hospital que fica do lado, em uma bola de fogo assustadora. Graças aos Espíritos Destilados, ninguém desses encontros teve a ideia de fazer comentários sobre religião ainda.
Outra coisa que as degustações me ensinaram, até mais importante do que técnicas de demolição, é que você só consegue perceber, entender e desvendar um whisky através da comparação.
Seja uma degustação horizontal – whiskies de diferentes destilarias, por exemplo – ou vertical – diferentes whiskies de uma mesma destilaria – ao se provar mais de um whisky ao mesmo tempo, você pega nuances, diferenças e consegue ver com clareza o que torna cada bebida única.
Mesmo que não tenha um grupo – ou uma pessoa – para te acompanhar, recomendo que faça sozinho ou sozinha e o truque é simples: escolha 2 ou mais whiskies, pegue uma taça para cada um, sirva e comece primeiro cheirando e provando um e depois o outro, então volte para o primeiro e repita quantas vezes quiser tomando notas.
Uma das vantagens disso é perceber como um mesmo destilado se comporta conforme vai envelhecendo e maturando no barril ou como diferentes barris o afetam. Faça comparações o suficiente e você começar a descobrir a personalidade de uma destilaria, o que é que torna seu whisky único, não importa a idade, a maturação ou quaisquer finalizações que sofra.
Como exemplo prático vamos apresentar, obviamente, a Highland Park – você pode ler mais sobre a destilaria clicando aqui.
A Highland Park, assim como qualquer destilaria, possui algumas peculiaridades interessantes.
Vamos começar pela turfa: 20% do malte utilizado para produzir seu whisky é turfado pela própria destilaria utilizando a turfa local da ilha de Orkney.
O malte é turfado aproximadamente a 20 PPM – partes por milhão – mas depois de ser misturado com o malte não turfado esse número cai para algo entre 4 e 6 PPM.
Isso é interessante porque turfas de diferentes lugares tem composições diferentes e, logo, sabores distintos. Se você conhece a turfa de Islay – Ardbeg, Lagavulin, Laphroaig, Kilchoman, Caol Ila, por exemplo – deve ter percebido que ela é bastante iodada e marítima, a de Orkey tem um aroma, e sabor, floral – mais especificamente de heather.
A heather, ou Urze, ou ainda Queiró (Calluna vulgaris) é a única espécie vegetal do género Calluna, pertencente à família Ericaceae. Ela é um arbusto anão que surge em todas as ilhas dos Açores, na ilha da Madeira e na maior parte da Europa continental, inclusive a Escócia, onde habita praticamente sozinha. E ai temos um probleminha, aqui no Brasil ela é quase desconhecida, então como identificar seu aroma no whisky?
Nos resta a engenharia reversa: como não sabemos o que é o perfume de heather podemos dizer que o perfume defumado doce e floral deriva dela.
Eles tem uma fermentação de pouco menos de 3 dias, em média 65 horas.
Outro ponto importante são seus alambiques: baixos e bem bojudos. Isso de cara sugere um destilado mais pesado e congenérico, mas seus braços – lyne arms – são horizontais e eles utilizam condensadores shell and tube que podem trazer um pouco de leveza ao new make – ou, ao menos, o deixar menos pesado do que poderia ser.

Os barris utilizados são um capítulo à parte. A Highland Park faz parte do Edrington Group, assim como a afetada consagrada Macallan, talvez por isso tenha herdado dela as manias e TOCS em relação a barris.
Grande parte de seus whiskies passam a vida em barris ex-sherry feitos de madeira proveniente de carvalho americano – mais abundantes e baratos – e carvalho europeu – bem mais caros. A proporção exata de que tipo de barril é usado para se criar cada rótulo é um mistério.
Existem ainda algumas expressões que passam por maturações diferentes, como a Full Volume e a The Light, que usam exclusivamente barris ex-bourbon – e é lindo ver o que esse tipo exclusivo de barril faz com o destilado deles.
E não nos. esqueçamos de sutis notas salinas. Esse “sal” no whisky é um mistério, algumas pessoas o associam com o fato de ter sua água e sua destilação perto do mar. Outras que elas surgem durante a maturação. Parece não haver um consenso. John Campbell, ex master distiller da Laphroaig e atual Lochlea, dizia que era possível apontar com precisão quando o sal surgia no Laphroaig: a partir do 6º ano de maturação, para então desaparecer quando o whisky completava 13 anos no barril.
De onde vem essa salinidade? Não sabemos, mas temos como acompanhá-la conforme o whisky se desenvolve nos armazéns da destilaria.
Então, resumindo essa teoria toda, o DNA da Highland Park seria um whisky doce, levemente defumado com turfa floral e notas de frutas secas e panetone.
Mas e na prática, como fica isso tudo? Aqui você pode ler nosso review detalhado sobre o Highland Park 12, ele vai servir de base.
HIGHLAND PARK CORE RANGE
HIGHLAND PARK 10 – Viking Scars

Categoria: Single Malt
País: Escócia
Destilaria: Highland Park
Região: Highlands (Ilhas)
Idade: 10 anos
Barris: Carvalho americano e europeu, ambos ex-Sherry
ABV: 40%
Filtragem a frio: SIM
Corante: ???*
Aromas:
Doces e florais, levemente defumado. É possível perceber toque sulfurosos nele, levemente salgados, mas o cítrico do limão e o doce de mel e frutas tropicais logo o apagam. Ao fundo, bem sutilmente, é possível notar especiarias, caramelo, café e couro.
Sabor:
Começa doce e logo se torna mais amargo. Uvas passas, maçãs e toques amadeirados do barril. É possível perceber as frutas tropicais do olfato, a turfa lhes dá características defumadas e levemente salgadas. É um whisky cremoso que em pouco tempo fica picante.
Finalização:
Média. Madeira defumada, pense em fogueira apagada, malte e especiarias.

Nota: 78
Passável, vale mais como experiência do que como uma aquisição legítima.
Quer detalhes sobre as notas? Clique aqui.
HIGHLAND PARK 12 – Viking Honour

Categoria: Single Malt
País: Escócia
Destilaria: Highland Park
Região: Highlands (Ilhas)
Idade: 12 anos
Barris: Carvalho americano e europeu, ambos ex-Sherry
ABV: 40%
Filtragem a frio: SIM
Corante: ???*
Aromas:
Doces e florais continuam, puxando para o mel e caramelo, seu defumado é mais doce e mais discreto. Seu sulfuroso parece subir pouca coisa, levemente salgados, ainda levemente cítrico e notas de frutas tropicais presentes. Suas notas de fundo – café e couro – apenas uma lembrança.
Sabor:
Chega doce na boca e vai se tornando mais amargo, mas um amargo que dá vontade de outro gole. Passas cobertas de chocolate ao leite, frutas e toques amadeirados do barril. A correspondência entre nariz e boca é boa, mas parece um pouco mais apagado.
Finalização:
Curta para média. Madeira defumada, malte e especiarias.

Nota: 81
Um bom whisky, acima da média.
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HIGHLAND PARK 15 – viking Heart

Categoria: Single Malt
País: Escócia
Destilaria: Highland Park
Região: Highlands (Ilhas)
Idade: 15 anos
Barris: Carvalho americano e europeu, ambos ex-Sherry
ABV: 44%
Filtragem a frio: SIM
Corante: ???*
Aromas:
Aqui o couro está mais presente, couro velho e empoeirado. Frutas – maçã e laranja – maduras e doces, a madeira do barril aparece junto com especiarias e um leve aroma de mel. Uma nota metálica sulfurosa mais forte que lembra ferrugem – ou sangue – se destaca junto com o aroma de destilado, tabaco e alcatrão de fundo.
Sabor:
Com o primeiro gole a turfa aparece e continua na respiração, caramelo e mel. Pimenta preta que vai se tornando amarga com notas de madeira.
Finalização:
Média, frutada e seca. Pimenta e carvalho com notas de tabaco que vão desaparecendo lentamente.

Nota: 83
A destilaria fez a lição de casa direitinho.
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HIGHLAND PARK 18 – Viking Pride

Categoria: Single Malt
País: Escócia
Destilaria: Highland Park
Região: Highlands (Ilhas)
Idade: 18 anos
Barris: Carvalho americano e europeu, ambos ex-Sherry
ABV: 43%
Filtragem a frio: SIM
Corante: ???*
Aromas:
Frutas vermelhas doces, como geléia de cereja ou morango. Um. Caramelo mais intenso. Mel defumado e barris velhos. As maçãs que estavam aparecendo ano 15 foram assadas aqui e o sulfuroso se torna saponáceo e levemente lácteo – misture isso com as cerejas e você tem um lindo cheese cake.
Sabor:
Maçãs fermentadas, amêndoas e noz moscada. Ervas verdes como alecrim e tomilho se misturam com gengibre e pimenta. Mel e chocolate branco com um leve defumado.
Finalização:
Média para longa. Frutas escuras que vão ficando amadeiradas, secas e amargas.

Nota: 88
Se não fosse pelo preço ganhava mais um ponto.
Quer detalhes sobre as notas? Clique aqui.
Conclusão:
Antes de mais nada vamos falar da coloração. Colocamos interrogações aqui como uma forma de rebeldia e protesto! Sim! Se você leu nosso artigo sobre corante caramelo, sabe como nos sentimos a respeito do assunto.
A Highland Park afirma em todos os lugares possíveis que seus whiskies tem coloração natural – emails, posts de Instagram, entrevistas – menos no rótulo do whisky. Assim sendo, mesmo sabendo que provavelmente nenhum deles tem caramelo colocamos ??? para deixar claro nosso posicionamento. Pois é, Highland Park, tenta dormir depois dessa.
Agora vamos aos whiskies e o que podemos aprender em uma degustação comparativa como esta.
Como já disse um fã da destilaria Highland Park: sozinho o HP sempre se sai bem, o problema é beber ele com outros whiskies. Neste caso os outros também foram Highland Parks.
O 10 anos foi o primeiro prejudicado. Sozinho, e dá pra dizer isso já que foi o primeiro a ser tomado, parecia um whisky fresco, jovem, “divertido”. Mas depois de provar os outros e voltar para ele, se mostrou um whisky “incompleto”, parece um bolo que foi tirado do forno antes da hora – ou tirado do barril antes da hora.
Aroma e gosto de new make ainda desequilibrado, fraco com os 40%, totalmente passável.
O 12 anos, cartão de visita oficial da destilaria, parece meio aguado quando comparado com as versões mais velhas, de novo o abv baixo o prejudica – mesmo havendo uma versão 43% – se o jogassem para 46% ou mais sem cobrar um rim pela garrafa ele brilharia. Um bom whisky mas, a não ser que você goste muito da destilaria, não é inesquecível.
O 15 anos, por sua vez, parece o 12 anos com esteróides. Tudo o que você encontra no 12 anos está aqui mais pronunciado, mais intenso, mais complexo. Se você leu nosso artigo sobre o Highland Park antigo versus o Novo – pode clicar aqui para ler – essa versão 15 anos é a que mais se aproxima de como o antigo 12 anos era. Este sim seria um whisky que poderia ficar na memória.
O 18 anos é uma aula de como a destilaria funciona. Redondo, elegante, intenso.
Mas o aprendizado não para por aí, veja que interessante: parece que quanto mais velho, ou nobre, o whisky maior é a proporção de barris europeus em sua mistura e isso acontece com as versões NAS com nomes vikings que eles lançam. Quanto mais cara a garrafa, mais. carvalho europeu você vai encontrar – o que, economicamente até faz sentido, já que os barris europeus são mais. caros. O 10 anos tem aromas de baunilha bem evidentes, essa baunilha vai desaparecendo nas versões mais velhas. As frutas tropicais das versões mais novas vão virando frutas escuras em compota.
A turfa, como era de se esperar, vai ficando menos evidente nas versões mais velhas e aromas como café e couro ficam mais evidentes. Além. disso ela não está ai para defumar o whisky e sim como um “tempero” para acrescentar camadas de complexidade.
Os congêneres também mudam, o que mostra uma interação legal entre os formatos dos alambiques, a fermentação e o tipo de barril. O metálico/cítrico/mentolado/vegetal nos whiskies mais novos vai ser tornando mais pesado, enferrujado, químico – lembram um pouco o Macallan, destilaria com quem muito provavelmente compartilham barris.
Mais tempo em contato com a madeira também dão um melhor acabamento ao peso do whisky.
O mel, o leve toque da turfa, o peso estão em todos – em intensidades diferentes.
Mas a Highland Park é boa para outra conversa também: o tal custo benefício.
Obviamente pelas notas o 18 anos leva o troféu, mas ele vale a pena?
Vamos pegar a calculadora:
10 anos 40% abv = £38.00
12 anos 40% abv = £46.00 (21% mais caro que o 10)
15 anos 44% abv = £88.00 (91% mais caro que o 12)
18 anos 43% abv = £130.00 (47% mais caro que o 15 e 180% mais caro que o 12)
Todos esses preços foram tirados do site da Highland Park apenas para compararmos. Eles valem a pena?
Não há como dizer se um whisky vale ou não o que custa, especialmente porque não temos as planilhas de custos e gastos da empresa. De repente tudo está tão caro em Orkney que não poderiam fazer diferente. Mas uma maneira de entender o tal custo benefício é ver o que o whisky oferece comparado com outros.
O 12 tem seu valor, mas compare com um Glen Garioch 12, 48% abv, que custa £47.45 ou um Deanston 12, 46.3% abv, que custa £41.95 – todos os 3 vem em garrafas de 700 ml. Além dos abv’s claramente maiores são whiskies muito mais complexos e interessantes.
O 15 anos dói no bolso e é muito mais caro do que um Lagavulin 16, 43% abv, que custa £66.75 e está em outro patamar de entrega, sabor e aromas. Outra opção é o Glen Scotia 15, com 46% abv, que custa £68.00 e bate tão feio no HP que chegaria a ser covardia.
E falando em Glen Scotia, o 18 anos, 46% abv, custa £120.00 e, de novo, chega a ser mais interessante do que o HP 18.
Por isso, se você quiser mesmo mergulhar no mundo da Highland Park vai gastar mais por isso, eles se posicionam como um whisky mais caro. Se você for filho do Elon Musk encorajo a só beber do 18 anos para cima, não vai fazer cócegas na sua carteira e é um excelente whisky.
Mas se você não for um herdeiro profissional, eu quebraria as regras e daria a sugestão de comprar o 16 anos, Wings of the Eagle – que não apareceu nesta degustação. Ele tem o abv de 44.5% e custa na faixa das £99,90 – 12% mais caro do que o 15 anos mas MUITO mais whisky. Esse pequeno investimento vai te oferecer um whisky muito mais intenso e redondo, uma experiência muito maior e interessante.

“sozinho o HP sempre se sai bem, o problema é beber ele com outros whiskies.” a verdade dói mas precisa ser dita. tem o dragon legend também que é descente e barato, mas volta naquilo.
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Belo texto!
Degustei apenas o HP 12!
Pela fama dele, tinha grande expectativa, mas confesso que fiquei decepcionado!
Achei um whisky bem básico…quase zero de turfa!
Pelo valor dele (como dito no texto) podemos comprar outros rótulos mais interessantes!
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Olha, adoro frases de impacto e essa dele se sair bem sozinho foi boa… Mas foi num dia de degustação de mais de 30 Whiskies, que um HP ( “do saquinho de Alfafa” ) rompeu todos os paradigmas pra mim… Assim sendo, Eu complemento: Ele se sai bem sozinho e comparado aos outros Whiskies também, nas versões de alto teor alcoólico!
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Experiência muito agradável para mim foi degustar o HP 12 de ABV 43%.
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