SMWS: A Sociedade 

Engarrafamentos independentes são assunto comum para muitos dos leitores da Academia e, para aqueles que não conhecem, vai aqui uma breve explicação: os engarrafadores independentes são aquelas empresas que, apesar de vender whisky (e outras bebidas) com marcas próprias, não produzem esses produtos. Mais ou menos como aquela batata frita da prateleira de baixo do supermercado, com aquela marca que você não tem a menor ideia de onde saiu. 

Os engarrafadores, ou “Independent Bottlers” (IBs no linguajar do geek), são um fenômeno tão antigo quanto a indústria do whisky e, pode-se dizer, estão intimamente interligadas com o sucesso dessa categoria que é, nos dias de hoje, a segunda maior fonte de exportações da Escócia (perdendo somente para Petróleo e Gás). 

Grandes marcas atuais começaram como engarrafadores independentes: John Walker, John Dewar e os irmãos Chivas iniciaram seus legados nessa função. Esses negócios foram, no entanto, muito mais direcionados à mistura de destilados de malte e/ou grãos. Outros grandes e ainda importantes blenders independentes também estão no mercado hoje, como Cadenhead’s e Gordon & Macphail.   

A grande virada nesse ramo só aconteceu no final da década de 1970 e início da década de 1980, como é comum, por um completo e total acaso. Após uma viagem para as Highlands, Philip “Pip” Hills provou um whisky direto do barril enquanto visitava uma fazenda no condado de Aberdeen, uma experiencia que mudou sua percepção sobre o que era e o que poderia ser whisky. Depois dessa epifania, Pip fez contato com John Grant, gerente da Glenfarclas naquela época, e fez a proposta de compra de um barril.  

E esse é uma daqueles momentos em que uma coincidência muda o destino das coisas. As destilarias não costumavam fazer esse tipo de venda com muita facilidade, mas um dos clientes que tinha acordo de compra anual de um barril havia morrido recentemente sem deixar um “herdeiro” para seu direito de compra e assim, por 2.500 libras esterlinas, Pip comprou seu primeiro barril. Esse barril foi dividido com amigos e a notícia daquele “straight from the cask” rapidamente se espalhou. 

Num mercado que era ainda mais dominado pelos blends que hoje, a experiência de se provar uma bebida totalmente inalterada surpreendeu a todos que a. beberam e, rapidamente, trouxe mais interessados. Numa entrevista para o Podcast da SMWS, Pip relembra quando voltou à Glenfarclas para comprar mais um barril e lhe disseram que só teriam mais um no ano seguinte…, mas Hills acabou convencendo Grants a vender mais dois barris para ele. 

Algumas divisões de barris dentro do que eles chamavam de Sindicato aconteceram, até que em 1983 a The Scotch Malt Whisky Society foi fundada formalmente. Com a chegada do veterano Russell Sharp, antigo cervejeiro e químico da Chivas Brohers, nasce o sistema de numeração dos engarrafamentos da SMWS, em que o primeiro número faz menção à destilaria e o segundo ao número do engarrafamento.  

A fundação da Sociedade se dá num dos anos mais sombrios da história do Whisky na Escócia. Em 1983 uma dezena de destilarias foi fechada no país, entre elas lendas como Brora, Rosebank e Port Ellen. Num momento em que a procura por destilado envelhecido estava em baixa, a busca por liquidez financeira fez com que os grandes grupos econômicos tentassem transformar imóveis e estoques em dinheiro, o que foi interessante para quem entrava no mercado. A transformação provocada pela expansão da sociedade foi tão importante que, em 1995, a gigante DCL (atual Diageo) traz sua famosa linha de Rare Malts para o mercado, para poder atender a demanda por whiskies sem diluição. 

Em 1995 Pip Hill se aposenta e deixa a posição de liderança na SMWS, mantendo seu papel como sócio, mas sem se envolver nas questões cotidianas da empresa, até que a Glenmorangie compra a empresa em 2003 e esse é um período muito importante na Sociedade. De um lado entra em ação um olhar mais comercial para suas operações que, ao mesmo tempo, ajuda na sua expansão e espanta alguns dos membros mais antigos, além de trazer um grande acesso ao conhecimento e acesso a recursos pela empresa. Entre 2003 e 2015 (ano em que a SMWS foi novamente vendida) a empresa passou a ter sua própria estação de envase, aumentou sua capacidade de armazenamento e iniciou um dos mais completos e inovadores programas de maturação da indústria, um legado do Dr. Bill Lumsden, considerado um dos grandes pioneiros na gestão de barris na indústria de Whiskies. 

Em 2015 a empresa é vendida novamente para um grupo de investidores que depois renomeiam a companhia para “Artisanal Spirits Co.”, atualmente listada na bolsa de Londres. Com cerca de 40 mil membros a sociedade envasa cerca de 500 barris por ano e hoje tem sua atuação estendida para outros destilados como, Cognac, Armagnac, Rum, Bourbon, Rye Whisky, whiskies de grãos e Gin.  

A história da Sociedade não é a história de um inovador, que trouxe para o mercado um produto antes inexistente, mas a de um entusiasta que, após beber um whisky que mudou sua percepção, não entendia por que mais gente não deveria ter acesso àquela maravilha, algo que qualquer um de nós entusiastas entende quando toma um exemplar sem corante, não filtrado a frio e sem diluição. A SMWS mudou o mercado ao expandir o acesso a essa maravilha que, se você ainda não provou, recomendo que faça assim que puder! 

Links: 

Pip Hills: Founder of The Scotch Malt Whisky Society and His Whisky Epiphany
(se o video não funcionar, clique aqui)

2 comentários sobre “SMWS: A Sociedade 

Deixe um comentário