No final do século IV a.C. e início do século III a.C., Epicuro ficou famoso por dizer que a busca da felicidade individual deveria ser o objetivo fundamental da vida.
Nos séculos XVIII e XIX, pensadores como Jeremy Bentham e John Stuart Mill propuseram que as ações deveriam ser julgadas com base na maximização da felicidade ou do bem-estar geral, que uma ação é moralmente correta quando produz o maior benefício para a sociedade.
Chega o final do século XIX e início do século XX e a economia resolve participar dessa brincadeira e surge uma medida subjetiva do valor que as pessoas podem atribuir aos bens e serviços para ter uma ideia da satisfação ou felicidade que eles trazem.
Essa é uma breve linha do tempo da evolução do que chamamos hoje de “valor de utilidade” que, em miúdos, é o grau de rentabilidade ou satisfação que obtemos do uso das coisas, uma medida de satisfação relativa a um agente da economia – o quão feliz algo pode te fazer ao você consumi-lo.
Se analisarmos a variação dessa utilidade, a maneira como as pessoas fazem suas escolhas para ficarem mais felizes, poderemos decifrar por que elas fazem o que fazem.
Na prática o valor de utilidade explica porque, hipoteticamente, mesmo que eu tenha 7 garrafas de Laphroaig guardadas em um armário, vira e mexe eu acordo com a necessidade de comprar mais uma – mesmo tendo outras 6 ou 7 garrafas diferentes encabeçando minha “wish list” etílica.
Outro exemplo prático disso é que sempre que aparece um whisky eleito o “melhor do mundo” em alguma lista de WhatsApp – geralmente vindo de alguma matéria da Forbes – você pode se preparar para dias ou semanas de discussão sobre esse rótulo.
- É bom?
- Onde vende?
- E o custo benefício?
O valor de utilidade dele começa a disparar dentro da cabeça das pessoas – mesmo aquelas que nunca se interessaram pela destilaria que o produz.
Há algum tempo o Mortlach 16 começou a pipocar nas listas. Eleito pela Ultimate Spirit Challenge, juntamente com o Highland Park 21, o melhor scotch do mundo, do ano, da via láctea, etc…
A matéria da Forbes – não falei? – dizia: “dois single malts da Escócia empataram na pontuação máxima da categoria de whisky: impressionantes 98 pontos dos 100 totais, dados por uma equipe de juízes que inclui alguns dos paladares mais respeitados do setor”.
Batendo o olho no texto os dois parecem mesmo ser whiskies excepcionais, mas isso parece dizer mais a respeito dos concursos que dão as tais notas do que dos whiskies em si. O Mortlach 16 é bom mesmo? Ele ganhou uma nota impressionante, mas o que ela siginfica?
Para responder a isso fui visitar o site do concurso e descobri que o Highland Park e o Mortlach empataram com um 3º destilado: um bourbon – W.L. Weller Full Proof – e que outros destilados conseguiram notas ainda mais altas, na verdade um drink engarrafado, o coquetel de vodka com blood orange, cranberry e limão com abv. De 16.5% – imagina uma Smirnoff ice – atingiu os 99 pontos.

Se fôssemos acreditar nesse concurso, um Highland Park 21 anos – 46% Abv que custa US$375 – empata com um Mortlach 16 anos – 43.4% abv de US$114 – e empata com um Weller Full Proof, de 57% abv a $50 dólares. E os três perdem de um drink engarrafado com 16.5% abv que custa $26.
Na verdade esse. Boyd & Blair só empatou com um armagnac francês Bhakta 1973 – 50.3% abv custando $399.
Vamos respirar fundo. Vamos deixar preços e abv’s de lado. Respirar fundo…
Como disse lá em cima, essas notas parecem dizer mais a respeito dos concursos do que das bebidas julgadas – nem vamos entrar ano mérito dos vencedores terem acessos a adesivos, displays promocionais, rótulos e etiquetas com a marca da Ultimate Spirit Challenge – com uma taxa cobrada à parte – para irem bonitos para os pontos de venda ao redor do globo anunciando seu status de melhor bebida do mundo.
Eventualmente vamos fazer um abaixo assinado para o Maltes Etílicos escrever um artigo leve e bem humorado sobre o universo dos concursos de bebidas e sua relevância para identificar se uma bebida é boa ou não.
Por enquanto vamos dizer que cada novo concurso desses, sem mencionar as matérias da Forbes, serve apenas para brincar com valor de utilidade de determinada garrafa – já que uma semana depois que o nome do whisky invade as listas de WhatsApp, as fotos dele nos bares de casa começam a inundar as contas de Instragram.
Mortlach 16, vale 98 pontos?
A destilaria, batizada como a Besta de Dufftown, faz uso de uma destilação tão bizarra que este texto ficaria 3 vezes maior se fosse descrevê-la – por isso vamos deixar esses detalhes para o review do Mortlach 12 que logo logo sai do forno. Mas seus whiskies não são destilados 2 vezes, nem chegam a ser 3 vezes, eles param em 2.81 vezes, o que daria um belo texto sobre fractais… ou não.
Ele é maturado inteiramente em barris first-fill e refill de sherry e recebe o nome de Distiller’s Dram.
Vamos ouvir o que a Besta tem a dizer.
Mortlach 16 anos

Destilaria: Mortlach
Categoria: single malt
País: Escócia
Região: Speyside
Idade: 16 anos
Barris: barris ex sherry first-fill e refill
ABV: 43,4%
Filtragem à frio: sim
Corante: sim
Aromas:
Ele é quase um soco no nariz, mas só assusta. Curiosamente é mais forte do que o 12 anos. A primeira nota é de algo “pinicante”, mas não é álcool, parece que você está enfiando o nariz em um copo de refrigerante doce com muito gás – refrigerante de sherry?. Ele fica terroso e então surgem mais notas doces que puxam para o azedo e o ácido.
Com paciência surgem ameixas, passas, laranjas assadas e até um melão e tâmaras. Ele também tem algo sulfuroso – não é por isso que o compramos? – que lembram pano sujo molhado, papelão úmido, couro e bananas verdes. Então voltam a aparecer as notas do sherry: cerejas assadas com açúcar, uvas passas e cravos.
Sabor:
Na boca ele amplifica tudo o que você cheirou. O doce lembra açúcar mascavo, ele é saboroso – aquele “saboroso” de carne mesmo – bem tânico (pense em chá preto). Tem um herbal quase cítrico que começa a lembrar temperos como sálvia, tomilho, alecrim e então esse verde vai para o lado mentolado do hortelã. É impressionante o quanto ele entrega mesmo com o abv baixo.
Ele é mineral, seco e os sabores surgem e logo evaporam para serem substituídos por outros. Mais sulfuroso e melão e maçãs assadas.
É curioso que tanto no aroma quanto no sabor ele tem algo salgado puxando, mas não é marítimo, é bem mineral. O sulfuroso dele lembra fumaça, mas não é turfa, talvez nem seja fumaça, apenas algo queimando de leve.
Finalização:
Este é um whisky encorpado, denso – diria até untuoso – e isso aparece bem na finalização loooonga sulfurosa – aquele picante de algo muito carbonatado – que vai se tornando doce.

Nota: 87
Uma bela nota, mas poderia ser tão melhor…
Quer detalhes sobre as notas? Clique aqui.
Raio X do filho da Besta

A Mortlach, hoje, faz parte do portfólio de destilarias da Diageo. Leia isso de novo.
Isso significa que, além de fazer parte de um monte de Johnnie Walkers, esse whisky é uma sombra do que ele podia ser. Ele passa por 6 alambiques de tamanhos e formas diferentes. Ele passa por worm tubs sem fim. Ele é feito para ser denso, pesado, oleoso… e então o filtram, esterilizam, depilam, dão um bronzeado artificial e o colocam em uma jaula bonita.
Imagine o que seria esse whisky au naturale. Se bem que, em tese, você não precisa ficar só imaginando, existem versões de engarrafadoras independentes que são maravilhosamente bestiais – assim como existem as versões assustadoramente podres.
Tendo isso em mente, esse é um single malt saboroso, pesado, muito bom – longe de um 99 na escala de qualquer ser humano com um mínimo de bom senso – mas intenso e o preço não assusta muito. É o tipo de whisky que entrega muito mais nos sabores do que nos aromas, deixar ele mais tempo no copo ajuda a caçar notas mais sutis – colocar um pouquinho de água no copo também.
Ao mesmo tempo, ele faz parte daquela espécie de whiskies que beiram os sabores de carne, que os fãs de umami tanto gostam. Uma excelente opção para sair do mainstream de sherry bombs e peat monsters.
