No início dos anos 2000 a Glenkinchie formava, junto com a Auchentoshan, o seleto time das duas únicas destilarias de malte das Lowlands Escocesas em atividade. Mas isso nem sempre foi assim, quando ela foi fundada (1825) a região tinha nada menos que 115 destilarias de malte funcionando a todo vapor.
Como já é de costume nas histórias que trazemos a você aqui na Academia, a destilaria passou por muitas mudanças. Fundada pelos irmãos Rate, e inicialmente com o nome Milton, a destilaria passa existir numa forma similar à que conhecemos hoje em 1837, quando os Rate fundam uma nova fábrica e a batizam Glenkinchie. Não demorou muito para que as instalações fossem vendidas para um fazendeiro que converteu a estrutura numa Serraria em 1853.
E foi somente em 1890, quando um Consórcio de mercadores de blenders de Leith e Edimburgo comprou a destilaria, que a Glen Kinchie (sim, nessa época era escrito separado) foi renovada e a empresa Glen Kinchie Ltd. fundada. Após alguns anos de reforma e reinício da produção a companhia se juntou a outras quatro Lowlanders em 1914 para formar a Scottish Malt Distillers. Esse grupo reunia, além da Glenkinchie, as lendárias Rosebank, St. Magdalene e as menos conhecidas Grange e Clydesdale.
Como compra, venda e consolidação é a única constante no mercado de whiskies na Escócia, a Scottish Malt Distillers Ltd. (SMD) foi comprada pela Distillers Company Ltd. (DCL) – empresa já famosa aqui na Academia – em 1925. Desse momento em diante a Glenkinchie passa por décadas de normalidade incomum na indústria do Scotch Whisky, sendo uma das pouquíssimas destilarias que funcionaram durante os esforços de guerra entre 1939 e 1945.
As próximas mudança começam em 1968, quando os malting floors são fechados e transformados em museu no ano seguinte . Logo depois chega a grande crise do Whisky Loch dos anos 1980, à qual a destilaria também sobrevive… mas o reconhecimento atual da destilaria começa mesmo em 1988, quando a DCL resolve incluir um Glenkinchie 10 anos à sua linha dos 6 Classic Malts, ao invés do cultuado Rosebank. Um outro “golpe de sorte” aconteceu quando a DCL resolveu fechar de vez a Rosebank, sua vizinha, em 1993 para não ter que fazer uma reforma no sistema de tratamento de efluentes da destilaria.
Dessa forma a Glenkinchie passou a ser a destilaria da DCL mais próxima a Edimburgo e ganhou um centro de visitantes em 1996. A versão “Distiller’s Edition” também passa a fazer parte da linha regular da destilaria com uma finalização em barris de Jerez Amontillado.
O turismo do whisky passou a ser cada vez mais relevante para a Escócia e, em meio aos Classic Malts e à linha conhecida como Extended Classic Malts (que inclui a destilaria Clynelish, por exemplo), a Diageo passa a investir pesadamente nas suas destilarias como destino turístico e assim nascem as destilarias que compõem o “Four Corners of Scotland” – numa tradução livre, “Os Quatro Cantos da Escócia”.
Essas destilarias, em tese, representam não somente as características de todas as regiões do país, mas também dos single malts mais relevantes relevantes no mercado – claro que deixando claro que sãos as regiões em que a Diageo tem destilarias, veja que por exemplo não tem nenhuma de Campbeltown na lista, e por “relevantes” estamos falando de single malts que fazem parte da composição de seus blended whiskies mais famosos, a linha Johnny Walker:
- Cardhu representa Speyside
- Clynelish as Highlands
- Caol Ila a ilha de Islay
- e as Lowlands ficam com a única representante pertencente ao gigante conglomerado.
Mas vamos à degustação.
Glenkinchie 12 anos

Categoria: Single Malt
País: Escócia
Região: Lowlands
Idade: 12 anos
Barris: ex-bourbon de primeiro uso e sherry
ABV: 43%
Filtragem à frio: sim
Corante: sim
Aroma:
Uma camada frutada é o primeiro impacto dessa expressão. Maçãs vermelhas, pêssegos, laranjas maduras um leve e agradável aroma de mel e amêndoas carameladas. Um toque herbal fresco é complementado por um esfumaçado muito discreto – segura essa informação!!!. Um leve vínico com um toque sulfuroso fica como pano de fundo.
Sabor:
Na boca o Glenkinchie é levemente adocicado, lembrando mel diluído, bala de gengibre. Textura e uma sensação de aquecimento alcoólico agradaveis.
Finalização:
Predominantemente adocicado e picante com um toque levíssimo de turfa acompanhado de um agradável cítrico que lembra limão siciliano.

Nota: 79
Ele tinha tudo para ser um dos garotos legais, mas a mãe dele não deixa.
Quer detalhes sobre as notas? Clique aqui.
Mas e aí?
Primeiro queria falar do bode na sala… pode ser a mais completa ignorância da minha parte mas, Glenkinchie e turfa é uma conexão que eu nunca havia feito ou percebido.
Assim que senti aquele leve toque esfumaçado, pulei da cadeira e peguei 2 livros da minha estante: “Complete Guide to Single Malt Scotch”, do mestre Michael Jackson – você pode encontrar aqui* – e “Whiskypedia: a compedium to Scotch Whisky” do não menos importante Charles Maclean – você pode encontrar aqui*. Ambos faziam referência à fumaça e, não contente, fui ao site da Diageo que também fala da turfa no exemplar 12 anos. Já que eu não estou imaginando, vamos falar do Glenkinchie 12 como um todo.
A degustação desse rotulo me lembra muito as provas dos dois Caol Ila que já soltamos por aqui – 12 anos e distiller’s edition. Um aroma muito interessante, com boa complexidade e muitas notas interessantes. Ele acaba decepcionando um pouco quando vai para o paladar e finalização. Embora tenha uma textura interessante para os 43% de abv, ele perde muita riqueza. Nunca tive oportunidade de provar um Glenkinchie não diluído mas, essa prova me faz desejar muito a experiencia e me traz certo peso na consciência de não ter visitado a destilaria ainda.
[*] Apenas uma nota para deixar claro que os links para a Amazon são apenas para indicar os livros caso você queira comprar. Não ganhamos absolutamente nada com estas indicações – além de uma consciência limpa e, talvez, a fama de não querer lucrar com a sua jornada pelo mundo do whisky.
