Século XVII
Se por um lado a reforma protestante ajudou com a disseminação da destilação pelo atual Reino Unido – com ela os mosteiros católicos foram fechados e um bando de monges sem lar, talvez, tenha sido responsável por ensinar qualquer um a transformar grãos em aqua vitae – por outro lado ela literalmente foi um tiro no pé do whisky.
A Reforma Protestante criou uma Igreja da Escócia, ou “The Kirk” como era chamada. Presbiteriana em sua estrutura e calvinista em sua doutrina – embora “presbiteriana” e “episcopal” hoje impliquem em diferenças tanto na governança quanto na doutrina, isso não era um problema no século XVII. As estruturas episcopais eram governadas por bispos, geralmente nomeados pelo monarca, enquanto as presbiterianas eram lideradas por presbíteros eleitos por ministros e anciãos. As discussões sobre o papel dos bispos envolviam tanto a política quanto o poder do monarca quanto prática religiosa.
A grande maioria dos escoceses, tanto os Covenanters – partidários da igreja – quanto os Royalists – partidários da coroa – concordava que uma monarquia “bem ordenada” era o mesmo que uma monarquia divinamente ordenada, mas eles discordavam sobre o que “bem ordenada” significava e também sobre quem detinha a autoridade final nos assuntos clericais. Em geral, os Royalists viam o monarca como chefe tanto da igreja quanto do estado, enquanto os Covenanters acreditavam que isso se aplicava apenas a questões seculares e “Chryst Jesus … era o Rei da Kirk“.
Entra em cena Charles I, um dos reis mais impopulares na história da Inglaterra, Irlanda e Escócia. Suas tentativas de afirmar poder absoluto, juntamente com suas políticas e imposições religiosas, geraram significativo descontentamento entre seus súditos, eles o odiavam. Os conflitos entre Charles I e o Parlamento eventualmente se intensificaram na Guerra Civil Inglesa, com os Royalists apoiando o rei contra os parlamentaristas. Charles I foi eventualmente derrotado, julgado e executado em 1649, marcando um momento significativo na história das Ilhas Britânicas.

Só que, em 1637, antes de finalmente morrer, Charles I tentou impor práticas uniformes da Igreja da Inglaterra à Kirk. Isso foi contestado pela maioria dos escoceses, que apoiavam uma igreja presbiteriana governada por seus ministros e anciãos. Os signatários do Pacto Nacional de 1638 comprometeram-se a se opor a tais “inovações” e eram coletivamente conhecidos como Covenanters.
Embora o Pacto não fizesse menção a bispos, esses clérigos eram vistos como instrumentos de controle real e, em dezembro, foram expulsos pela Assembleia Geral da Igreja da Escócia. Começava a Guerra dos Bispos e a Escócia estava oficialmente em guerra contra a Inglaterra – a famosa Guerra dos 3 Reinos, uma série de batalhas entre 1639 e 1651 entre Inglaterra, Irlanda e Escócia.
E o que isso tem a ver com whisky?
Para financiar a guerra contra o Rei Charles, o Parlamento Escocês precisava angariar fundos, e como vimos o whisky era muito popular, uma mercadoria inexplorada que tinha o potencial de levantar os fundos necessários. Assim em 31 de janeiro de 1644, é aprovada a Lei do Imposto sobre Consumo, taxando o scotch pela primeira vez. O estatuto declarava:
“A Convenção de Estados considerando que este Reino entrou em uma solene liga e Pacto para a reforma e defesa da religião, a honra e felicidade do Rei e a paz e liberdade dos Reinos da Escócia, Inglaterra e Irlanda. E em busca desses objetivos, sendo forçado a levantar um exército a ser enviado para a Inglaterra… para o suprimento presente e futuro das necessidades desses exércitos e, após séria deliberação, [o reino] concordou que… seja por meio da cobrança de impostos.”
No original:
“The Convention of estates considering that this Kingdome haveing entered into a solemne league and Covenant for reformation and defence of religion the honour and happiness of the Kingis mãtie and the peace and libertie of the Kingdoms of Scotland England and Ireland. And in pursueanace of these endis being forced to levey ane armie to be sent into England…for the present supplee of futre refeefe of the necessities of these armies and efter serious delivertaion have [the Kingdome has] agreed that…be way of excise.”
O imposto foi cobrado a 2 xelins e 8 pence por “cada pint de aqua vitae ou aguardentes – strong watteris – vendidas dentro do país” – Hoje seria mais ou menos como cobrar um imposto de 3 libras e meia por cada 550ml de whisky vendido. Para ter uma ideia do que isso significava para o comércio local, fui atrás de quanto se custaria um pint na época e a resposta foi… não achei. Mas encontrei uma propaganda do William Rankin & Son, que possuíam uma mercearia em Kilmarnock de, 1846 – quase 200 anos exatos depois da Lei do Imposto – e eles listavam:
| Good Malt Whisky | 0 8 0 |
| Fine Campbeltown | 0 9 0 |
| Do., Very Old | 0 9 6 |
| Islay Whisky | 0 9 6 |
| Glenlivet Whisky | 0 10 0 |
| Jura Whisky | 0 9 6 |
| Royal Brackla Whisky | 0 10 0 |
| Mixture of Fine Whiskies Very old, much recommended | 0 10 0 |
Para entender um pouco essa tabela e esses valores, diferente de R$1 Real, que é dividido em 100 centavos, £1 libra é dividida em 20 xelins e cada xelim é dividido em 12 pence, então uma Libra equivale a 240 pence. As 3 casas de valores são quantas libras, xelins e pence cada produto custa, um Fine Campbeltonw custaria 9 xelins, quase meia libra.
Cada um desses valores também diz respeito a 1 galão da bebida, ou 4,5l de bebida, um pint é o equivalente a 1/8 de galão, ou pouco mais de 560 ml.
Não vamos entrar em divagações do quanto a inflação deve ter avançado ou começar a tentar calcular a valorização da moeda ou supor que, em uma mercearia um galão seria mais barato do que 8 pints ou que um fabricante venderia seu whisky direto para o consumidor a preços menores mas, 200 anos depois da Lei 1 pint de whisky de uma destilaria/região já conhecida valia aproximadamente 1 xelim. Se fôssemos voltar no tempo, o imposto de 2s8p por pint, praticamente triplicaria o preço da bebida – mas tenha em mente que isso é apenas um exercício.
Mesmo assim dá para imaginar como tal taxa afetaria o comércio de whisky, tanto para fabricante quanto para o vendedor quanto para o comprador. Mas esse primeiro imposto não gerou tanto descontentamento assim por dois motivos:
1- As pessoas odiavam Charles 1 muito mais do que o imposto, e o dinheiro arrecadado seria usado para manter a guerra contra a Inglaterra
E, talvez mais importante
2- a lei afirmava que apenas o whisky vendido seria taxado e, durante esse período, sua destilação era basicamente artesanal e caseira, produzido principalmente por mulheres como parte de suas tarefas domésticas e era consumido principalmente em casa, o que o tornava isento de impostos.
Assim, apesar de alguns destiladores terem se retirado para o underground a fim de continuar negociando seu whisky sem ter que pagar impostos, isso ainda era raro – mas logo eles teriam muita companhia na ilegalidade.
Para os escoceses a guerra era vital se quisessem ter liberdade religiosa da Igreja da Inglaterra, afinal, para eles, a Guerra dos Três Reinos havia começado como uma luta por liberdade de religião.
Outro ponto importante para seguirmos é entender o que foi a unificação escocesa.
Vamos voltar um pouco no tempo, mas para não ficar confuso eu aviso quando chegarmos na data do imposto sobre o whisky de novo.
Embora a Grã-Bretanha seja basicamente uma ilha, as Coroas da Inglaterra e da Escócia eram separadas até 1603, quando a Rainha da Inglaterra, Elizabeth, morreu sem deixar um herdeiro. Ficou claro que o único possível sucessor de Elizabeth era o Rei James VI da Escócia, assim ele adotou o título de James I da Inglaterra em 1603 e transferiu sua corte culturalmente ativa de Edimburgo para Londres – é importante observar que a Escócia e Inglaterra não tiveram uma união cultural, legislativa ou social, o povo escocês continuava falava escocês e o gaélico, tinha sua própria igreja e não adotava a lei comum inglesa, elas apenas tinham o mesmo rei.
James I estava convencido de que, além de unir as coroas, ele deveria unir totalmente os dois países para que todos vivessem como irmãos sob uma mesma bandeira. O Parlamento inglês não gostou da ideia, os escoceses não gostaram da ideia e o rei teve que se contentar ao menos em ter uma bandeira, foi quando surgiu a Union Jack.

James I é substituído por seu filho, Charles I e ai chegamos na época do imposto de novo. Como vimos, a partir de 1641, os conflitos entre os irlandeses, escoceses e ingleses se tornaram ainda mais comuns. Os exércitos escoceses atacaram a Inglaterra cinco vezes em apenas doze anos, enquanto isso, os ingleses estavam passando por uma revolução liderada por Oliver Cromwell, que aprisionou o Rei Charles I. Charles, que não era bobo, prometeu secretamente aos escoceses tornar toda a Grã-Bretanha presbiteriana se eles o apoiassem, então eles enfrentaram Cromwell e seu Exército Modelo.
Pois é, esta foi uma guerra complicada. A Escócia iniciou a guerra contra o Rei Charles, no entanto, quando o parlamento inglês reuniu um exército contra o Rei com planos de destituí-lo do poder, a Escócia mudou de lado e ajudou o Rei Charles.
Lembre-se que os escoceses acreditavam no Direito Divino dos Reis, ou seja, Charles podia ser um bosta, mas era um Bosta colocado no trono por Deus e somente Deus poderia removê-lo do poder e puni-lo por qualquer ato errado e. a. Inglaterra. com certeza não era esse Deus.
No entanto, quando o Rei propôs um imposto sobre a whisky em 1641, para arrecadar dinheiro para combater os irlandeses e escoceses, tanto os conselheiros ingleses quanto escoceses afirmaram que a tributação era uma “tentativa injusta e perniciosa de extorquir grandes pagamentos dos súditos por meio de um imposto, e uma comissão foi emitida sob o selo para esse fim.” Em 1644, quando dinheiro era necessário para continuar essa guerra complicada, o imposto foi em grande parte aceito pelo governo escocês.
O Oliver Cromwell que citei anteriormente era o responsável pelo Exército Modelo que representava o Parlamento Inglês. Eles eram uma força de combate formidável, com comando centralizado e financiamento consistente. Não precisou de muito tempo para quebrarem o impasse militar que existia desde primeiros anos da guerra e derrotasse completamente o exército realista e seus aliados escoceses.
As vitórias militares de Cromwell permitiram que ele anexasse a Escócia e a Irlanda ao que ele chamou de Commonwealth Inglês, que tinha um parlamento. Isso é considerado como a primeira união completa da ilha da Grã-Bretanha.
Eventualmente os realistas recuperariam seu poder com a restauração do Rei Charles II ao trono – que, de novo, comandava as coroas da Escócia e da Inglaterra, mas ambos países permaneciam separados em outros assuntos. No entanto, a contínua interação entre os reinos tornou a perspectiva de uma unificação mais completa cada vez mais provável.
Finalmente, em 1707, os parlamentos da Escócia e da Inglaterra ratificaram os Atos de União, que criaram oficialmente o Reino da Grã-Bretanha.
E qual o problema com a unificação?
Tecnicamente o sentimento escocês era o de: vão querer mudar nossos costumes, acabar com nossa igreja e roubar nosso dinheiro. E essas ideias não eram apenas hipotéticas.
Durante séculos o País de Gales travou guerras contra o o domínio inglês apenas para ser incorporado à Inglaterra com o Ato de União de 1536 e o Ato de União de 1543, durante o reinado do rei Henrique VIII. Essencialmente, esses atos incorporaram Gales à Coroa Inglesa, estabelecendo um sistema legal comum e consolidando a autoridade da Coroa na região. Finalmente, o País de Gales tornou-se parte do Reino da Grã-Bretanha em 1707.
Para se ter uma ideia do que foi essa assimilação, entre outras coisas, a educação no País de Gales estava em um nível muito baixo e a única forma de educação disponível era em inglês mas a maioria da população falava apenas galês. Para educar o povo, tiveram que se criar escolas clandestinas itinerantes em 1731 que dessem aulas em gaulês, as primeiras em Carmarthenshire. Elas permaneciam em um local por cerca de três meses antes de se mudar (ou “circularem”) para outro local. Estima-se que em apenas 30 anos até 250.000 pessoas haviam recebido educação e aprendido a ler através dessas escolas.
Então, mesmo com o fim da guerra dos Três Reinos, as conversas de unificação eram vistas com grande desconfiança pelos escoceses.
Para piorar tudo, com o fim do século XVII vieram os Sete Anos Ruins, ou os Sete Anos Magros – em gaélico escocês: seachd bliadhna gorta.
Foi uma época tão desgraçada de fome generalizada e prolongada na Escócia que seu nome foi inspirado na fome bíblica no Egito prevista por José no Livro de Gênesis. Estima-se que entre 5% e 15% da população total da Escócia morreu de fome, enquanto em áreas como Aberdeenshire, as taxas de mortalidade podem ter chegado a 25%.
E não foi ruim apenas para pessoas: de acordo com registros de anéis de árvores, a década de 1690 foi a mais fria na Escócia nos últimos 750 anos. Colheitas fracassaram em 1695, 1696, 1698 e 1699, combine a isso a recessão econômica causada pelas guerras sobre as quais falamos e o resultado foi uma fome como nunca vista antes, despovoamento de regiões inteiras e miséria assolando o país.
Essa crise resultou na criação do Banco da Escócia e da Companhia da Escócia, e resultou na Lei de União com a Inglaterra de 1707.

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