Século XVIII
Voltemos à última década do século XVII.
Os Sete Anos Ruins acabaram com as colheitas escocesas, o que significava escassez extrema de alimentos e o que também significava que os arrendatários não conseguiam pagar seus aluguéis porque não tinham colheitas para vender, nem excesso de grãos para produzir whisky, que poderia ter usado para pagar o aluguel.
A economia estava em crise a ponto de o governo aprovar novas leis para estimular a economia e assim nasceu o Banco da Escócia – que. tinha como objetivo apoiar os negócios locais. Mas apenas isso parecia não estar ajudando o país, então surge uma ideia que parecia promissora: o Esquema Darien.
Grandes investidores do Reino da Escócia que ainda não haviam quebrado pensaram em uma forma de obter mais riquezas e influência à moda antiga: criar uma colônia escocesa, a Nova Caledônia, no Darien Gap, no Istmo do Panamá. O plano era para a colônia estabelecer e administrar uma rota terrestre para conectar os Oceanos Pacífico e Atlântico.
A empreitada foi um glorioso fracasso. Mais de 80% dos participantes morreram um ano após chegarem ao assentamento – que foi abandonado duas vezes. E qual o motivo para o fracasso? Existem muitas explicações que vão desde um planejamento e provisões deficientes, liderança dividida, incapacidade de estabelecer comércio com tribos indígenas locais ou colônias vizinhas dos Países Baixos e Inglaterra, epidemias de doenças tropicais, oposição generalizada ao esquema por interesses comerciais na Inglaterra e a falta de previsão de uma resposta militar do Império Espanhol – o empreendimento foi finalmente abandonado em março de 1700 após um cerco das forças espanholas, que também bloquearam o porto.
Como a Company of Scotland, empresa formada pelo investidores que não haviam quebrada à época, era respaldada por cerca de 20% de todo o dinheiro circulante na Escócia – o investimento chegou perto das £500.000, o equivalente a aproximadamente £60.000.000 hoje – seu fracasso deixou toda a região das Lowlands Escocesas – a principal fonte do dinheiro – em ruína financeira.
Um pouco de geografia
Apesar de hoje os fãs de whisky dividirem a Escócia em 5 ou 6 regiões, em termos práticos ela sempre foi dividida entre highlands e lowlands – as terras altas e baixas.
A Inglaterra e a Escócia estiveram em guerra, intermitentemente, por centenas de anos. Na verdade, a região entre os dois reinos foi tão frequentemente dilacerada por conflitos que se tornou uma espécie de terra de ninguém. Embora a Inglaterra fosse mais populosa e mais rica, os escoceses eram guerreiros ferozes e preservaram sua independência de forma ardente.
Algumas das guerras mais importantes entre a Escócia e a Inglaterra são referidas como as Guerras Anglo-Escocesas, que duraram cinquenta anos, de 1296 a 1346. Desencadeadas por uma crise de sucessão, terminaram com a captura do rei escocês David, que foi aprisionado na Torre de Londres. No entanto, a firme resistência escocesa garantiu a independência do reino do norte – alguém se lembra de Coração Valente?
Desde há muito tempo os highlanders não se bicavam muito com os lowlanders e, com o tempo, esse relacionamento foi se tornando cada vez mais frágil.
Lowlanders enxergavam os Highlanders como bárbaros incivilizados. Os Highlanders enxergavam seus vizinhos como um bando de vendidos, que falavam e se vestiam como ingleses (aposentando seus kilts) e, ccomo se não bastasse, comercializavam felizes com eles – dai a economia escocesa ser muito mais forte no sul – e foi ao norte que o sentimento nacionalista escocês se desenvolveu de forma mais feroz.
Assim, quando os sete anos ruins e o Esquema Darian deixaram a Escócia basicamente falida, algo começou a acontecer ao sul do país. Comerciantes, aristocratas e membros do Parlamento escocês – basicamente todo mundo que investiu na ideia da colonização do Panamá – começaram a ver vantagens na união do seu pais com a Inglaterra: eles teriam acesso à cultura, ao modo de vida e à economia inglesa.
You can’t always get what you want
O tom das negociações de unificação começaram a mudar – e a distância entre o norte e o sul da Escócia a aumentar.
Em resumo os escoceses deveriam renunciar ao seu parlamento, e, em troca eles exigiam acesso completo ao comércio com todas as colônias inglesas, tributação justa e compensação da Inglaterra por sua participação no fracassado Darien. Não precisa ser um gênio para intuir que ambos os lados se recusaram a ceder em suas exigências.
Entre 1703 e 1706 Escócia e Inglaterra começaram uma espécie de guerra fria, criando leis para se atacar mutuamente, isso terminou quando ambos os países decidiram respirar fundo e recomeçar as negociações.
Os negociadores ingleses concordaram com as exigências escocesas para proteger a Igreja da Escócia, mas a questão da tributação foi muito mais difícil de negociar por dois motivos:
- A Escócia permanecia financeiramente instável.
- Os ingleses não apenas pagavam uma taxa de tributação mais alta, mas também pagavam impostos sobre itens pelos quais os escoceses não pagavam, como o imposto sobre janelas e o imposto sobre destilados.
(Apenas um parênteses irresistível: sim os ingleses criaram um imposto sobre janelas.
Ele entrou em vigor na Inglaterra em 1696 como um imposto progressivo: casas com um número menor de janelas, inicialmente dez, estavam sujeitas a um imposto de 2 xelins para a casa, mas isentas do imposto sobre janelas. Casas com mais de dez janelas eram passíveis de impostos adicionais, que aumentavam de acordo com o número de janelas.)
Depois de muito papo, os comissários ingleses foram mais receptivos às preocupações dos escoceses, e conseguiram chegar a um acordo que concedia isenções fiscais para diversos itens, incluindo whisky. No artigo 7 do Ato de União com a Inglaterra de 1707 lemos:
“todas as partes do Reino Unido serão para sempre, a partir da União, sujeitas aos mesmos impostos sobre todas as bebidas tributáveis”
No original:
That all parts of the United Kingdom be for ever from and after the Union lyable to the same Excises upon all Exciseable Liquors
O Artigo 13 dizia que os produtores de bebidas alcoólicas escoceses seriam poupados da tributação até 24 de junho de 1707, após o qual começariam a pagar a mesma quantia de imposto sobre suas bebidas alcoólicas que os ingleses – o que não foi exatamente um refresco, já que o Ato entraria em vigor em 1º de maio de 1707.
E, finalmente, o Artigo mais interessante, de número 14:
“Que o Reino da Escócia não seja sobrecarregado com quaisquer outros deveres, impostos pelo Parlamento da Inglaterra antes da União, exceto aqueles consentidos neste Tratado; em consideração é acordado que todas as disposições necessárias serão feitas pelo Parlamento da Escócia, para as despesas públicas e serviços desse Reino, para o ano de mil e setecentos; proporcionando, no entanto… que qualquer cevada a ser feita e consumida nessa parte do Reino Unido agora chamada Escócia, não será onerada com nenhuma imposição sobre cevada durante esta guerra.”
No original:
That the Kingdom of Scotland be not charged with any other Duties, laid on by the Parliament of England before the Union, except those consented to in this Treaty; in regard it is agreed, that all necessary Provisions shall be made by the Parliament of Scotland, for the public Charge and Service of that Kingdom, for the Year one thousand seven hundred and seven; providing nevertheless… That any Malt to be made and consumed in that part of the united Kingdom now called Scotland, shall not be charged with any Imposition on Malt during this war.
A guerra citada no texto era a Guerra da Sucessão Espanhola – 1702 e 1714. A Inglaterra e seus aliados estavam guerreando contra o Rei Felipe da Espanha e a ideia de conseguir tropas escocesas para engrossar o caldo inglês era muito interessante. Esse foi um dos motivos que fez com que os ingleses fossem tão compreensivos em relação às demandas escocesas, especialmente as relativas à cobrança de impostos.

A oficialização da unificação entre os dois reinos não pos um ponto final entre os conflitos dos dois povos, muito pelo contrário. O clima estava tenso por toda a Escócia, já que muitos escoceses sentiam que seus Membros do Parlamento aceitaram subornos dos ingleses para que a união fosse finalizada e eles não estavam muito longe da verdade.
A Inglaterra concordou em compensar a Escócia com £398.085 – quase £42.000.000 atuais – pelas perdas de Darien, além disso, muitos nobres escoceses receberam pagamentos da Coroa – como o Conde de Glasgow, que recebeu £20.000 – £2.000.000 atuais – e o Duque de Queensberry que recebeu £12.325, – £1.300.000 atuais – e outros também receberam pagamentos. Mas os escoceses pobres e famintos não viram 1 centavo desse dinheiro e começaram a se sentir traídos por seus representantes que aceitavam dinheiro inglês e enchiam seus próprios bolsos. Foi necessária a imposição de uma lei marcial para manter a paz no país.
Imposto sobre o malte
Assim, seguiram-se alguns anos de uma suposta paz entre os dois países até que começaram a surgir rumores em 1713 de um imposto sobre o malte prestes a ser votado pelo Parlamento Britânico. Em 11 de maio de 1713, o governo britânico, chamado sarcasticamente pela maioria dos escoceses de ‘governo inglês’, votou pela extensão do imposto inglês sobre a cevada malteada para a Escócia, contra o conselho dos representantes escoceses que sabiam que isso causaria uma crise.
Os membros do Parlamento escocês afirmaram que o imposto seria opressivo para os pobres escoceses e que o imposto proposto era injusto, pois levava em consideração “a inferioridade do grão escocês ou a capacidade das pessoas… de pagar um imposto, que em vários lugares era quase igual ao valor do produto bruto”. Também não levava em conta as diferenças econômicas entre a Escócia e a Inglaterra. A maioria dos escoceses simplesmente não podia arcar com um imposto igual ao inglês.
Os Lordes e conselheiros escoceses sabiam que os escoceses ainda estavam insatisfeitos com a união, temiam o domínio inglês na Escócia, sentiam que o governo britânico era muito inglês e que um imposto sobre a cevada malteada na Escócia seria recebido com resistência. Os escoceses, a maioria dos quais permaneciam bastante pobres, pagariam mais por sua cerveja, whisky e até mesmo pão.
Alguns deputados e lordes tentaram acalmar as coisas ao criar um projeto de lei modificado sobre o imposto da cevada mas, infelizmente, o projeto de lei para estender o imposto inglês sobre a cevada para a Escócia foi aprovado em 22 de maio de 1713, sem concessões ou alterações e posto em prática dia 10 de junho do mesmo ano.
Só que os ingleses se viram em uma posição delicada. Eles conseguiram passar o imposto, eles ignoraram os avisos de que ele traria revoltas e quebra-quebra mas ele não queria essas revoltas e quebra-quebra, então o imposto foi ignorado. Os escoceses não faziam questão alguma de pagá-lo e os ingleses não faziam questão de cobrá-lo e assim as coisas permaneceram por mais de uma década.
Foi nesta época que os alambiques de todo tamanho e tipo foram para o underground e abraçaram a ilegalidade. Como vimos, aquele primeiro imposto sobre o whisky mal atingia o cidadão escocês, já que grande parte da produção era caseira,a para consumo próprio, e as taxas se aplicavam a whisky vendido não produzido. Além disso o dinheiro levantado com o imposto seria usado em uma guerra contra a Inglaterra.
Desta vez a coisa mudara de figura drasticamente, o imposto era uma afronta contra o povo escocês, uma imposição de uma nação governante cujo poder eles não reconheciam mais. Era considerado simplesmente como bulling seguido de roubo.
O povo escocês via o imposto como uma interferência inglesa nos assuntos escoceses. Antes de o governo tributar o whisky, as donas de casa podiam vender o excesso do que produziam e o whisky também era usado para pagar aluguéis a proprietários de terras, era trocado por outros itens essenciais ou usado como moeda de troca para a compra de novos equipamentos ou animais agrícolas. Portanto, quando o governo britânico começou a tributar a matéria prima usada para a produção do whisky, não estava. Apenas ameaçando um passa-tempo nacional, mas o bem estar e o modo de vida da família escocesa.
Assim não apenas destilar cevada maltada se tornou um ato de nacionalismo como negociar esse destilado sem pagar os impostos era uma forma de revolução. A Inglaterra não havia percebido mas havia criado um novo herói nacional para a Escócia: o whisky.
FREEEEEEEEDOM!
Foi neste período que o contrabando floresceu, a produção ilegal foi romantizada. Quem produzia whisky o fazia em maiores quantidades, quem não o produzia passou a produzir.
A insatisfação inglesa apenas crescia com isso, “por que esses escoceses estão sempre insatisfeitos?” e resolveu puxar a coleira deles.
Em 1725 o governo britânico resolve começar a coletar o imposto de 3d – 3 pences ou £1.45 nos dias de hoje – por barril de cevada. Eles imaginavam que se os impostos fossem devidamente arrecadados, conseguiriam recolher pelo menos £20.000 – £2.300.000 nos dias atuais – e acreditavam que isso ajudaria a controlar operações ilegais e o contrabando, que se tornaram um problema sério em todo o país.
Os primeiros coletores de impostos chegaram a Glasgow e outras cidades escocesas em 23 de junho de 1725, prontos para iniciar seu trabalho de medir quanto whisky estava sendo produzido e coletar as taxas apropriadas, esses agentes, quer fossem ingleses ou escoceses, eram todos considerados parte de um governo estrangeiro e, portanto, não confiáveis. Distúrbios e revoltas generalizados eclodiram em toda a Escócia.
Os coletores foram recebidos com uma parede de hostilidade e pedras, já que alguns habitantes da cidade haviam colocado grandes montes de pedras à porta de cada maltearia da cidade e fizeram uso delas. Em Glasgow, Edimburgo, Stirling, Dundee e Renfrew ocorreram sérios distúrbios à medida que os cidadãos mostravam seu apoi aos malteadores que, por sua vez, entraram em greve em protesto. Em Glasgow, os manifestantes foram à casa do deputado Daniel Campbell, que apoiava o imposto sobre o malte, e saquearam suas coisas e destruíram sua casa — até invadiram sua adega, onde passaram a beber sua coleção cara de vinhos!
A violência se espalhou pelo país, manifestantes invadiam os arsenais locais para roubar armas e se armar. Os manifestantes armados então percorriam as ruas em busca dos odiados agentes do imposto. De acordo com relatos de jornais, os cobradores de imposto foram ou assustados ou se esconderam durante os tumultos. Qualquer um que fosse encontrado escondido era “impiedosamente espancado e abusado”.
Depois de duas semanas de violência e tumultos, o governo britânico mais uma vez ordenou a entrada de tropas militares em Glasgow, Edimburgo e outras cidades escocesas.
Em Edimburgo, muitos dos líderes da resistência foram presos, o que assustou o restante dos malteadores em greve e os fez voltarem a trabalhar na mesma semana. Em Glasgow, diante de quatrocentos soldados, os manifestantes perderam a coragem, e a ordem voltou às ruas. Os líderes dos tumultos em Glasgow receberam uma proibição vitalícia de morar na cidade e muitos dos participantes menores foram publicamente chicoteados pelo papel que desempenharam.
Para amenizar as coisas, o governo resolveu procurar um bode expiatório para toda a baderna e culpou os Highlanders por isso, mesmo que grande parte da violência tenha acontecido nas Lowlands, especialmente em Glasgow. Como resultado eles introduziram a Lei do Desarmamento que proibia os habitantes das Highlands de portar qualquer arma em público – dorme com essa Connor MacLeod.
Não é de se surpreender que a maioria do whisky ilegal produzido na Escócia durante o século XVIII viesse das highlands. Parte das destilarias hoje exibem seus single malts em free shops ao redor do mundo foram fundadas nessa época, dentre elas:
Glenturret em 1775
Bowmore em 1779
Strathisla em 1786
Balblair em 1790
Oban em 1794
Glen Garioch em 1797
Highland Park em 1798
Blair Athol em 1798
Tobermory em 1798
Dessas 9, 7 são das highlands.
As revoltas contra o imposto sobre o malte acabaram fazendo muito pelo whisky, não apenas aumentou sua produção e criou uma rede ilegal de distribuição, mas ela também influenciou diretamente a criação das regiões produtoras.

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