O mundo do whisky não é nada diferente do resto que está à volta. As pessoas escolhem seus favoritos e, dentre eles elegem seus heróis, também conhecem aqueles whiskies que agradam menos, de onde acabam brotando os vilões. Detestados, detratados e relegados a um lugar obscuro no submundo do imaginário do entusiasta. Mas existem também aqueles que, por algum motivo, entram e saem do radar, acabam se tornando (quase) invisíveis.
O Aberfeldy é um whisky que fica entre o vilão e o invisível. Ele é importado oficialmente para o Brasil e uma parte muito importante na composição dos blends da John Dewar & Sons, Ltd. Apesar de estar disponível na maior parte das lojas especializadas, raramente aparece nas redes sociais ou discussões nos grupos. Por isso é uma destilaria que, para mim, aparece como invisível no mundo dos whiskies.
É como se ninguém o conhecesse, mas todos o bebessem.
O Dewars é o whisky mais vendido, há bastante tempo, no mercado norte americano e tem na Aberfeldy o single malt base dos seus blends. Fundada em 1896 pelos irmãos Dewar, foi a primeira destilaria construída para abastecer sua companhia que “blendava” e vendias bebidas no mercado internacional. A Dewars se fundiu com James Buchanan & Co em 1915 para formar a Buchanan-Dewar e logo depois passou a fazer parte da The Distillers Company plc (nossa famosa DCL) em 1925, mesmo ano em que a John Walker & Son se fundiu ao conglomerado. A John Dewar & Sons foi vendida para a Bacardi em 1998, em meio à fusão da DCL e Guiness (que formou a atual Diageo), para evitar a formação de monopólios comerciais.
Tenha em mente que a indústria dos blends ainda é responsável por aproximadamente 60% das vendas mundiais de scotch, assim ela não apenas responde pela maior parte da venda de whiskies mas também é a maior compradora de single malts – que fazem parte de seus rótulos.
Clynelish, Deanston, Longmorn, Glentauchers e Aberfeldy compartilham características de destilarias importantes buscadas por essa indústria: tem um destilado de textura mais oleosa e potente que se tornam um ótimo canvas para a construção de blends.
Quase todas essas destilarias também oferecem seu destilado para o consumidor final, na forma de single maltes, as três primeiras apresentam seus whiskies (quase) sempre com teor acima de 46% ABV, o que ajuda na percepção das características dos destilados. A Glentauchers chega às nossas mãos praticamente só através de engarrafamentos independentes e a Aberfeldy é a única com uma linha permanente extensa e que insiste em se apresentar com baixo teor alcoólico.
Quando bebemos a parte mais básica da linha permanente da destilaria, não há nenhuma surpresa sobre sua invisibilidade. Um destilado promissor, relegado ao pior tratamento possível pela John Dewar’s: 40% de teor alcoólico, filtragem a frio (aparentemente) extrema e cor artificial. Mas o que aconteceria com seu whisky se ele recebesse um pouco mais de amor e carinho da Aberfeldy?
Os dois exemplares que vou avaliar hoje são, ligeiramente, mais bem tratados. Um 15 ano, finalizado em barris ex Carbernet Sauvignon Californiano e outro 16 anos finalizado em barris que maturaram vinhos da região de Saint Julien em Bordeaux.
Mas chega de lero lero, vamos para a degustação.
Aberfeldy 15

Categoria: Single Malt
País: Escócia
Região: Highlands (Sul)
Idade: 15 anos
Barris: Finalizado em barris ex-Cabernet Sauvignon Californiano
ABV: 43%
Filtragem à frio: sim
Corante: sim
Aroma:
Frutas vermelhas frescas, caramelo levemente tostado, gengibre, favo de mel, maçã vermelha. Um discreto aroma cítrico está presente no aroma, lembrando casca de limão siciliano e laranja.
Sabor:
Agradavelmente adocicado, no paladar as frutas vermelhas ainda continuam muito vivas e as notas de gengibre e mel do olfato se fundem e ficam parecendo um doce de gengibre. A textura cerosa encobre a boca de forma agradável.
Finalização:
Surpreendentemente longa para um uisque de 43% e com ótima correlação entre aroma e paladar. O favo de mel é predominante, mas fica muito bem integrado com as frutas vermelhas e maçã. O gengibre fica mais discreto e uma nota que lembra cera de polir moveis aparece.

Nota: 80
Nada como restaurar sua fé em uma destilaria.
Quer detalhes sobre as notas? Clique aqui.
Aberfeldy 16

Categoria: Single Malt
País: Escócia
Região: Highlands (Sul)
Idade: 16 anos
Barris: Finalizado em barris ex-vinho tinto da região de Saint Julien
ABV: 43%
Filtragem à frio: sim
Corante: sim
Aroma:
Apesar da maturação por cerca de um ano em barris de vinho, o primeiro impacto desse Aberfeldy é de toffee. Com alguns minutos na taça outros aromas vão aparecendo, como geleia de amora, purê de maça, um leve mentolado e cereais.
Sabor:
O toffee ainda está presente e marcante, mas, no paladar, ele está mais bem integrado que no aroma. Frutas escuras, maçãs ainda estão presentes e parecem ser combinadas pela característica cerosa do malte, que trás uma sensação de boca interessante.
Finalização:
Assim como na versão de 15 anos, esse uísque surpreende pela finalização mais longa que outros uísques de graduação alcoólica “baixa” e filtrados. Assim como no paladar, o toffee e as amoras se combinam de forma muito interessante, dando a impressão de que comi um bolo amanteigado de frutas. Na finalização um leve caráter cítrico aparece, lembrando laranjas maduras.

Nota: 81
E não é que eles sabem brincar?
Quer detalhes sobre as notas? Clique aqui.
Mas, e aí?
Algumas destilarias são abandonadas pelos entusiastas por motivos difíceis de entender e, na minha opinião, a Aberfeldy é uma delas. As duas versões são grandes trabalhos de barril, em que o destilado se casa muito bem com a finalização.
Dentro dessa dupla, o 16 levou um pouco de vantagem pois o conjunto foi um pouco mais harmonioso. Esses dois whiskies receberiam, com certeza, notas superiores a 85 se fossem engarrafados sem filtragem a frio. Por aqui a Aberfeldy não vai ser mais invisível!
