Octomore, 5 reviews: a hora da verdade

Na primeira parte desse artigo falamos um pouco do porquê um Octomore não vai transformar sua boca em um fumódromo, deixando sua língua dormente e contaminada com fumaça por uma semana – mesmo tendo um número 4 ou 5x maior de PPMs do que um Laphroaig ou Ardbeg. Imagino que muita gente tenha ficado decepcionada com isso e talvez nem chegue a ler a segunda parte.

Mas segure firme, pois hoje faremos o review de cinco versões diferentes do Octomore e tentaremos mostrar como esses whiskies são sensacionais (spoiler: não é só pela fumaça): 07.2, 10.1, 10.3, 10.4 e 13.1.

Mas antes da diversão, vamos perder uns minutinhos para ensinar a ler as garrafas de Octomore e explicar o que são esses números diferentes que acompanham o nome.

O nome é acompanhado do texto gaélico Ochdamh-mòr, que significa “oitava propriedade” – uma referência ao número histórico da parcela de terra agrícola onde existia a fazenda Octomore, que possuía uma destilaria entre os anos de 1816 e 1852.

Logo em seguida temos um número de série como 14.1.

Todo ano a Bruichladdich lança pelo menos três versões diferentes de whiskies da linha Octomore. O primeiro número, antes do ponto, se refere à edição anual daquele whisky. Por exemplo: o Octomore 01.1 foi lançado em 2008 e foi elaborado com o primeiro whisky super heavily peated produzido pela destilaria, lá em 2002. Já o Octomore 14.1, o mais atual, foi lançado em 2023 e utiliza whiskies que foram destilados em 2017.

O segundo número, depois do ponto, se refere à versão daquele Octomore em questão. O sistema de numeração é o seguinte:

.1 – Octomore destilado a partir de 100% de cevada escocesa e maturado usando somente carvalho americano. É o Octomore padrão, com uma influência um pouco mais discreta dos barris.

.2 – Também é destilado a partir de 100% de cevada escocesa, mas a maturação aqui acontece (mesmo que parcialmente) em barris de carvalho europeu ex-vinho. Originalmente era uma linha exclusive para o Travel Retail.

.3 – Destilado a partir de 100% de cevada de Islay, geralmente com maturação em carvalho americano, mas podendo ter um pouco de carvalho europeu por vezes.

.4 – Maturado ou finalizado em barris virgens, tanto de carvalho americano quanto europeu. Não é lançada todo ano necessariamente.

Além disso a garrafa também trás o tempo de maturação do whisky, a quantidade de PPM no malte antes da destilação, o ABV e, em alguns casos, a origem da cevada, em que fazenda foi plantada e a variedade.

Dessa maneira fica um pouco mais fácil de saber com o que estamos lidando ao nos depararmos com uma garrafa da Octomore numa loja. Por exemplo: se aparecer uma garrafa do Octomore 12.2, sabemos que foi a décima segunda edição lançada e que vai ter uma influência vínica importante, nesse caso de vinho Sauternes, que também estará indicado no rótulo.

Bom, chega de enrolação e vamos ao que importa: o review de cinco edições diferentes de Octomore que foram usadas em uma degustação que organizei recentemente. E pra ninguém dizer que teve algum viés da minha parte pelo fato de a Bruichladdich ser minha destilaria preferida teremos um review duplo, junto do maior fan boy de Laphroaig da história.

Octomore 10.1

Categoria: single malt
País: Escócia
Região: Islay
Idade: 5 anos
Maturação: barris ex-Bourbon e ex-Tennessee de primeiro uso
ABV: 59.8%
PPM: 107
Filtragem a frio: não
Corante: não

Nardi

Aroma: fumaça. Lenha de laranjeira. Um whisky carnudo, denso. O aroma lembra azeite de oliva e alecrim tostado. Bastante marítimo e mineral. Curiosamente elegante para um whisky jovem e com uma graduação alcoólica de quase 60%.

Paladar: começa bastante doce e maltoso, elegante. Um frutado cítrico logo dá lugar a uma sensação salgada e bastante apimentada, muito agradável. A textura é muito oleosa e a intensidade de entrega de sabor muito alta. Água de conserva de azeitona.

Finalização: bastante longa, com fumaça, pimenta e um retrogosto salgado.

Nota: 88
Um turfado memorável
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Stevaux:

Aroma: Puro DNA da Bruichladdich elevado ao cubo e então defumado maravilhosamente. Aquela mistura oleosa de azeite com ervas, oleoso, denso, quase água de conservas mas com toques cítricos quase mentolados. Isso tudo envolto por fumaça marítima. Alecrim e sálvia jogados em uma fogueira, notas minerais de talco, faz a boca se encher de água. Procurando a baunilha/caramelo de um barril de carvalho americano surge algo achocolatado e amendoado.

Paladar: Difícil acreditar que é uma besta com 60% de ABV. Você percebe o cítrico de casca de limão, o malte o gosto salgado do mar com algas e água de picles. Todo aquela oleosidade está ai também, com uma picância que te faz querer beber mais.

Finalização: Marítma e defumada e looooonga.

Nota: 88
Um turfado memorável
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Octomore 13.1

Categoria: single malt
País: Escócia
Região: Islay
Idade: 5 anos
Maturação: barris ex-Bourbon de primeiro uso
ABV: 59.2%
PPM: 137.3
Filtragem a frio: não
Corante: não

Nardi:

Aroma: aqui a influência do carvalho americano aparece mais do que no 10.1. Caramelo, baunilha, um frutado que lembra abacaxi. Apesar de serem muito semelhantes, aqui as notas do destilado, como fumaça e os tons marítimos, não são tão evidentes. O frutado cítrico e as notas maltosas, quase amendoadas, me remetem um pouco ao Classic Laddie.

Paladar: estranhamente a turfa é mais aparente em boca do que no anterior, apesar de não ser tão salgado. Começa com um tostado de lenha, mas que logo evoluiu para um frutado elegante, com especiarias e algo cítrico. Lembra muito abacaxi assado com um pouco de canela.

Finalização: bastante longa, bastante doce e cítrica, quase refrescante.

Nota: 88
Um turfado memorável
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Stevaux:

Aroma: Aromas mais frutados e tropicais do que marítimos. Maçãs assadas, bananas, abacaxi, tudo com calda de baunilha. Açúcar levemente tostado, amêndoas e toques de ervas como manjericão.

E, claro, a turfa e a fumaça, mas não tão presentes quanto você pensaria.

Paladar: Então sua boca se enche de fumaça e cinzas. Curiosamente essa fumaça começa a diminuir e o frutado aparece junto com especiarias e baunilha, ele vai se tornando cremoso.

Finalização: Exatamente o que você esperaria: longa, cítrica e docinha.

Nota: 87
A brincadeira começa a ficar séria.
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Octomore 10.3

Categoria: single malt
País: Escócia
Região: Islay
Idade: 6 anos
Maturação: barris ex-Bourbon de primeiro uso
ABV: 61.3%
PPM: 114
Filtragem a frio: não
Corante: não

Nardi:

Aroma: Logo de cara se percebe que é o mais floral e cítrico dos três. Fresco, com aroma de feno, chá de ervas, hortelã. Tem também um aroma de casca de cereais, maltoso. A fumaça é um pouco menos marcante. Depois de um tempo na taça aparece um aroma de frutas bem maduras, quase passadas.

Paladar: Bem mais turfado do que o aroma sugeria. Um quê de medicinal. Começa bastante defumado, lembrando cinzas, um tanto sujo quase, e depois evolui pra algo bastante maltoso e doce. Possivelmente o mais intenso e com uma textura quase mastigável até, possivelmente por causa da graduação alcoólica.

Finalização: extremamente persistente. Floral, cítrico, lembrando chá. Levemente salgado.

Nota: 90
Agora a brincadeira ficou séria.
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Stevaux

Aroma: Um dos Octomores mais “verdes” que já provei e não estou falando de imaturidade. Ele é cítrico e a fumaça é quase floral. Imagine um jardim de temperos como tomilho e alecrim do lado de um celeiro cheio de feno seco. Folhas secas empilhadas em um gramado recém cortado. Com um tempo o cítrico se torna mentolado, surge a baunilha e toques medicinais.

Paladar: Aqui a turfa aparece, um maravilhoso cinzeiro sujo esquecido na chuva. Um quê salgado que lembra o oceano, bem oleoso. Um tempinho na taça e surge algo doce, todo aquele feno e folhas secas se transformam em malte. O álcool está presente o tempo todo, mas não destoa.

Finalização: Te faz pensar que a eternidade existe, parece não terminar. Todo aquele verde defumado, com toques leves de bacon e limão.

Nota: 91
Conheça o medo de ver essa garrafa vazia.
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Octomore 07.2

Categoria: single malt
País: Escócia
Região: Islay
Idade: 5 anos
Maturação: barris ex-Bourbon e ex-vinho Syrah francês
ABV: 58.5%
PPM: 208
Filtragem a frio: não
Corante: não

Nardi:

Aroma: uma explosão de aromas. Muito vínico, defumado e frutado. Bacon caramelizado, doce, cardamomo, especiarias. Doce de laranja, cítrico. Geleia de morango, aceto balsâmico. O defumado e as notas vínicas na máxima potência, mas em perfeita harmonia, nada se sobressai.

Paladar: uma boa correlação. Muito intenso, esfumaçado e frutado. Doce de laranja, fruta vermelha, muita especiaria do carvalho europeu. Apimentado. Começa doce mas progressivamente seca a boca, muito provavelmente por causa do vinho.

Finalização: quase infinita e muito complexa. Pimenta, especiaria, fumaça. Bastante seco no final, quase implorando por mais um gole.

Nota: 91
É assim que nascem as lendas
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Stevaux:

Aroma: frutas defumadas, carameladas, levemente salgadas. Peras e maçãs assadas, abacaxi gralhado, damascos maduros, tudo com um leve perfurme de flores. Bacon lindo e maravilhoso vem apresentar cerejas e morangos. Todas essas frutas dançam juntas e vão ficando cítricas e nadam em baunilha com aceto balsâmico. Emocionante.

Paladar: todos os aromas estão abraçando a sua língua com uma picância linda. O álcool é agressivo? Ele é maravilhoso. Todo o doce das frutas vai ficando levemente adstringente até secar a boca, te obrigando a tirar a taça do nariz para tomar outro gole.

Finalização: Arrebatadora? Eterna? Vibrante? Inesquecível? Comovente? Mesmo depois que você já engoliu o whisky ele continua evoluindo na memória que deixa, picante, cheio de especiarias defumadas e com os fantasmas das cerejas.

Nota: 92
Jesus me leva agora
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Octomore 10.4

Categoria: single malt
País: Escócia
Região: Islay
Idade: 3 anos
Maturação: barris virgens de carvalho europeu
ABV: 63.5%
PPM: 88
Filtragem a frio: não
Corante: não

Nardi:

Aroma: Madeira. Serragem, gaveta velha, lustra móveis. Fumaça muito intensa. Mentolado, cânfora. Muita especiaria do carvalho europeu virgem, lembra até Coca-Cola. Um leve aroma de solvente e plástico queimado.

Paladar: Muita fumaça e muita pimenta. Extremamente seco e adstringente. Lembra as cinzas de lenha depois de um churrasco. Bastante salgado.

Finalização: Longa, com especiarias da madeira, muita fumaça e sal.

Nota: 83
Um whisky lindo, ao menos para a mãe
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Stevaux:

Aroma: Jogaram uma granada dentro de uma serraria. Parece que toda a referência é madeira, serragem, móveis velhos cobertos de poeira, uma sala com piso encerado cheio de tábuas novas recém cortadas em prateleiras de madeira velha com naftalina, vicky vaporub e aquela fumaça da explosão, química com toques de solvente.

Paladar: A fumaça afoga pimenta queimada e tabaco, talvez couro. Lembrança de especiarias, quase frutas secas, mas ai vem o carvalho e esconde tudo.

Finalização: bastante longa, madeira chamuscada, levemente salgada e fumaça.

Nota: 81
Se continuar ignorante, não vai poder brincar com os coleguinhas
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Mas e aí?

Nardi:

Vale ressaltar que eu sofro de peat blindness, então as menções à turfa e fumaça provavelmente aparecem menos do que deveriam.

Em relação aos whiskies: são (quase) todos whiskies fantásticos, com muitas semelhanças, mas suficientemente diferentes pra eu querer comprar todo e qualquer Octomore que surgir na minha frente (e meu bolso permitir). Dos 5 avaliados, diria que o 10.1 é a melhor representação do que um Octomore deve ser. É muito defumado, mas sem perder a complexidade e a elegância dos whiskies da Bruichladdic. O 13.1 é um pouquinho mais elegante, como se tivessem colocado um terno no 10.1, pois o carvalho americano está mais presente nessa versão, apesar de terem a mesma idade. O 10.3 pra mim tem uma complexidade um pouco maior, pois tem umas notas florais e delicadas no aroma, mas é um whisky um pouco mais “sujo” e denso no paladar. O 07.2, apesar de não ser um whisky turfado clássico, é uma sinfonia para os sentidos. Provavelmente o meu Octomore preferido até hoje, não à toa essa é minha quarta (e última, infelizmente) garrafa. Já o 10.4 é uma loucura completa. Um whisky jovem com uma madeira muito intensa, mas que não deu tempo suficiente para as duas coisas se integrarem completamente. Não é um whisky que minha garrafa vá terminar tão cedo, mas é extremamente divertido pra experimentar uma dose ou duas.

Stevaux:

Eu comecei a escrever esse review cinco vezes e apaguei cinco vezes para recomeçar. Tudo começava a se transformar em um tratado de quinze parágrafos grandes – e isso apenas a introdução. Então respirei fundo, tentei resumir tudo a uma simples linha e partir dai. O que saiu foi:

A linha Octomore não foi desenvolvida para seres humanos normais.

Tento isso em mente ela é maravilhosa – isso diz mais a meu respeito do que a respeito do whisky, eu sei. Destilados que maturaram apenas 3 anos. Coisas engarrafadas direto do barril sem diluição. Barris extravagantes e, em alguns casos, extremamente agressivos. E o whisky é surpreendente. Nem sempre agradável, nem sempre algo que vá explodir sua mente e abrir todos os olhos do seu corpo, mas sempre uma aula.

Concordo com o Nardi que o 10.1 é a nossa base. Ele é o Octomore em sua existência mais pura e direta. É o que acontece quando você pega o destilado mais icônico da Bruichladdich e decide transformar ele em um monstro radioativo e soltar em Tokyo para ver o que acontece. Ele tem a turfa, os destilados de Islay maturam poeticamente em barris ex-bourbon, ele é oleoso, cítrico, etc… Todas as comparações vem a partir dele.

O 13.1 parece uma “evolução” do 10.1, um pouco mais elegante – ou talvez um pouco mais comportado. A fumaça mais controlada. Ele tem aquela sujeira linda, mas puxa mais para um oleoso de azeitonas e amêndoas do que de motor queimado. Talvez esse “mais comportado” tenha me feito gostar mais do 10.1.

O 10.3 é bem o que eu disse, verde, verdejante. Grama, temperos… ele me faz pensar no que os whiskies típicos das lowlands poderiam ser e, aparentemente, jamais serão. Essas notas dão uma complexidade emocionante para este rótulo.

E então o trem descarrilha, o avião sai da curva e as leis da física ficam de pernas para o ar. 07.2 é um whisky de tirar o fôlego. Se os primeiros lembravam bem o destilado do Classic Laddie esse aqui é o prenúncio do Port Charlotte MRC:01. O que o barril de vinho fez com ele junto com o fato de que ele não será nunca mais feito, foi apenas um momento maravilhoso no espaço-tempo do whiskyverso fazem um homem adulto ficar com a voz tremida.

E, das maravilhas do paraíso, mergulhamos às profundezas do mundo do carvalho extremo. 10.4 mostra o quão absurdo um destilado com apenas 3 anos pode ser em questão de entrega. Ao mesmo tempo, aquilo que ele entrega não vai ser gentil com você. Ele é uma aula sobre o que um barril virgem de carvalho europeu cheio de crack pode fazer com um whisky. Não é para os de coração fraco, mas é uma experiência enriquecedora – e talvez assustadora.

Em resumo, essa é uma linha completamente desgraçada lançada pela Bruichladdich. Um rótulo dificilmente vai ser parecido com outro. Cada um é um show à parte com estilo e repertório próprios, apesar de – tendo-se alguma noção sobre destilados – você saber mais ou menos o que esperar de cada whisky, você não sabe o que esperar. Cada um é uma experiência única (e maravilhosa).

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