Kilchoman: uma destilaria, cinco reviews.

Diria que atualmente a Kilchoman é uma das destilarias de Islay mais interessantes para os entusiastas de whisky. Junto com a novíssima Ardnahoe, a Kilchoman é uma das duas únicas destilarias independentes de Islay.

Por não ser controlada por um grande conglomerado de bebidas, a Kilchoman não tem obrigações contratuais para a composição de blends e possui a liberdade de lançar os whiskies que quiser. Nos últimos anos, tem lançado, em média, quatro ou cinco whiskies de edições limitadas com perfis de maturação interessantíssimos e preços muito justos. Já imaginou quanto custaria um Lagavulin ou um Bowmore maturados inteiramente em barris ex-Sauternes, com 50% de graduação alcoólica?

Hoje vamos falar de cinco dessas edições limitadas da destilaria, mas antes, uma pequena pausa para falar sobre a história e os processos de produção da Kilchoman.

A Kilchoman é, como muitos de vocês provavelmente já sabem, uma destilaria relativamente nova. Começou a produzir whisky em 2005, sendo a primeira destilaria construída na ilha de Islay em mais de um século.

Vale lembrar que o mercado de whisky e o gosto dos consumidores evoluem muito rapidamente. Há 20 anos, a popularidade dos single malts não era tão alta como é hoje, e muitas pessoas acharam a ideia de Anthony Wills, fundador da Kilchoman, de construir uma pequena destilaria em uma fazenda na parte mais isolada de uma ilha já remota, uma loucura.

Mas essa ideia deu muito certo, e de 2005 para cá a destilaria passou por diversas expansões. Em 2019, sua capacidade foi duplicada com a adição de dois novos alambiques, e novos investimentos estão previstos para 2025, quando serão adicionados mais dois alambiques e nove tanques de fermentação. Fundada como uma das menores destilarias da Escócia, a Kilchoman alcançará uma capacidade produtiva de 975.000 litros por ano.

Apesar de se autodenominar uma farm distillery, a Kilchoman utiliza principalmente malte de cevada turfada da maltearia Port Ellen, da Diageo, em Islay. Ou, mais precisamente, utilizava, já que em 2022 a Diageo anunciou que deixaria de fornecer malte para destilarias externas. Como resultado, a Kilchoman precisou recorrer a outros fornecedores na Escócia continental, o que levou a uma ligeira redução em sua produção em 2024. Para contornar essa situação, a destilaria já tem planos de expandir sua capacidade de malteação no futuro próximo.

A Kilchoman ainda mantém seus próprios floor maltings, onde produz cerca de 25% do malte necessário para sua operação. Esse malte é totalmente empregado na linha 100% Islay. Vale notar que o malte produzido localmente tem uma especificação diferente daquele comprado externamente: 20 ppm de fenóis, contra os 50 ppm do malte anteriormente fornecido pela Port Ellen, usado na linha principal da destilaria.

Em relação aos processos produtivos da destilaria: o tempo médio de fermentação do seu mosto é de 85 horas, bastante longo para os padrões da indústria, e permite bastante esterificação, ajudando a trazer a trazer essa personalidade frutada dos seus whiskies. Os alambiques, apesar de ter o pescoço proporcionalmente bem longo e uma boiling ball na sua base, são bastante pequenos, com pouco mais de 2.000 litros de capacidade. Mas o mais interessante do seu processo de destilação é como são feitos os cortes na segunda destilação. É um corte bastante alto, incomum em destilarias que processam malte turfado. O corte começa em 75% e vai somente até 65.5%. Não é o objetivo desse pequeno texto sobre a destilaria entrar com mais profundidade nesse assunto, mas resumidamente a destilaria escolhe coletar os vapores alcoólicos mais leves e voláteis (principalmente ésteres, que trazem muitas dessas características frutadas) e descarta uma boa parte dos compostos fénolicos mais pesados.

A destilaria Kilchoman é uma das pouquíssimas de Islay que envelhece todos os seus whiskies na ilha e, além disso, faz o envase dos seus whiskies lá mesmo.

Bom, antes que me estenda ainda mais, vamos ao que interessa: os whiskies.

Kilchoman Loch Gorm 2024

O Loch Gorm é uma versão anual lançada desde 2013, sempre maturada em barris ex-Sherry. A versão de 2024 é um vatting de 21 ex-Oloroso Sherry Butts (500 litros). Apesar de não declarar a idade, todos esses barris foram preenchidos em 2014, o que coloca esse whisky na faixa de 9-10 anos.

Categoria: single malt
País: Escócia
Região: Islay
Idade: NAS
Maturação: ex-Sherry Oloroso
ABV: 46%
Filtragem a frio: não
Corante: não

Nardi:

Aroma: um pouco menos Sherry forward do que as versões 2022 e 2023. Extremamente equilibrado e sutil. A fumaça da turfa (pouco medicinal) fica na mesma camada que as frutas maduras. Lembra um pouco de pêssego em calda, frutas secas e chocolate ao leite. Depois de um tempo aparecem as frutas cítricas, couro e mais especiarias.

Paladar: aqui a turfa fala mais alto do que no nariz, lembrando um churrasco feito com lenha. Frutas passas, laranja cristalizada, de novo chocolate, mas dessa vez amargo. Tudo muito sutil e equilibrado.

Finalização: começa bem doce e vai ficar progressivamente mais amarga. Frutada e com um final levemente salgado. Não é muito longa.

Nota: 86
Excelente exemplar de Islay para se cansou do “mais do mesmo”
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Stevaux:

Aroma: De cara a turfa, que vai para o lado terroso e não medicinal (como muitos esperariam de um whisky de Islay) e frutas. O aroma de figos se destaca, mas dá para encontrar abacaxi, pêssego e um cítrico de limão. O sherry é discreto, se concentrando você consegue puxar algumas frutas vermelhas. Por baixo estão os aromas que associo com a Kilchoman: malte, feno, palha seca, sisal molhado. De longe, sutil, algo salgado que lembra algas. Graças ao corte que fazem do new make, existem aromas de cauda, neste rótulo ele puxa mais para o chocolate ao leite e couro.

Paladar: fumaça de lenha queimando, doce de frutas secas e o cítrico lembra cascas de laranja cristalizadas. Tudo embalado em uma picância apimentada e em um amargor que seca um pouco a boca, pense em chocolate amargo. Mas os sabores não brigam entre si.

Finalização: Média, o doce vai desaparecendo deixando um leve amargo e aquelas algas sutis dos aromas aparecem aqui como a lambrança de algo salgado.

Nota: 86
O que todo turfado de entrada deveria ser.
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Kilchoman Sauternes Cask Matured 2024

Maturado inteiramente em barris ex-vinho Sauternes, de primeiro e segundo usos. Não declara a idade, mas os barris foram preenchidos em 2017 e 2018 – o que o coloca entre 5 e 7 anos.

Categoria: single malt
País: Escócia
Região: Islay
Idade: NAS
Maturação: ex-Sauternes
ABV: 50%
Filtragem a frio: não
Corante: não

Nardi:

Aroma: muito fresco e vibrante. Uma explosão de frutas frescas e em calda. Abacaxi assado, limão, laranja. Um toque amanteigado muito interessante que lembra brioche. Uvas verdes. Aqui o vinho e o carvalho francês deixam a turfa em uma segunda camada.

Paladar: oleoso, amanteigado, pesado. Textura muito interessante, quase mastigável. Mel, frutas maduras, especiarias. A turfa fica um pouco mais presente do que no aroma, mas também sem segundo plano.

Finalização: Longa e seca, com a adstringência do carvalho europeu na medida.

Nota: 87
Um turfado memorável
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Stevaux:

Aroma: Turfa – óbvio -mas mais gentil. Gengibre e páprica. Frutas amarelas como abacaxi e laranja em calda doce. O cítrico começa lembrando limões mas vai se tornando mentolado. No fundo algo que lembra mel e cera de abelhas e então se transforma em manteiga fresca e uvas doces e azedinhas. Aqui o sal está mais evidente. Aqui a cauda e o doce do sauternes trazem o cheiro de couro do sofá mais chique em que você já se sentou.

Paladar: um whisky denso. A oleosidade – a cera e a mantega – dão a impressão que você pode mastigá-lo. Na boca ele fica mais interessante, a turfa aparece mais, a páprica se torna páprica defumada, parece que o abacaxi está sendo grelhado. O gengibre fica mais picante. O amargor de casca de frutas deixa com vontade de beber mais.

Finalização: Longa e adstringente. O doce continua de leve.

Nota: 85
Uma experiência que vale a pena ser repetida.
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Kilchoman PX Sherry Cask Matured 2023

Maturado por pelo menos 5 anos em 61 hogsheads ex-Sherry PX.

Categoria: single malt
País: Escócia
Região: Islay
Idade: NAS
Maturação: ex-Sherry PX
ABV: 50%
Filtragem a frio: não
Corante: não

Aroma: muito menos doce do que o esperado pela maturação. Torta de maçã, biscoitos recém saídos do forno, especiarias, frutas secas. Mofo, madeira molhada, nozes. Fumaça bem equilibrada e um pouco mais presente. Frutas cítricas.

Paladar: caramelo, biscoitos doces, frutas em calda. A fumaça aparece logo em seguida, junto com um apimentado bem agradável. Chocolate ao leite, tâmaras, bastante vínico. Bem equilibrado.

Finalização: Longa, doce sem ser enjoativa.

Nota: 85
Fã de turfa e de PX? Vem nesse.
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Stevaux:

Aroma: De certa forma uma aula sobre maturação em barris PX, como não foi apenas finalizado e sim maturado no barril ele não traz aquele doce soco na cara, puxa muito mais para um Mapple Syrup. Então parece que você está nos armazéns da Kilchoman: um aroma de umidade, mofo e poeira. Tudo envolto em turfa com uma picância que lembra canela. Maçãs assando e ameixas, aquela cera que aparece de leve no sauternes – está mais clara aqui – o cítrico fica mais doce puxando para o aniz. Os aromas de cauda aqui vão para o lado do tabaco doce.

Paladar: o PX fica caramelado, as ameixas do olfato parecem tâmaras aqui, tabaco e chocolate. Vinho e fumaça que não brigam,

Finalização: Loooonga e doce.

Nota: 84
Desculpa Laphroaig, mas é assim que se faz.
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Kilchoman Machir Bay Cask Strength 2021

Mesmo vatting do Machir Bay comum, predominantemente ex-Bourbon com uma pitada de ex-Sherry, só que sem diluição.

Categoria: single malt
País: Escócia
Região: Islay
Idade: NAS
Maturação: ex-bourbon e ex-sherry
ABV: 58.3%
Filtragem a frio: não
Corante: não

Nardi:

Aroma:
Salada de frutas. Frutas cítricas, abacaxi, maracujá, maçã verde e um toque herbal. Aqui a fumaça e o iodo estão bastante presentes. Jovem, fresco, vibrante, mas sem nenhuma aresta. O destilado na sua forma mais pura.

Paladar:
fumaça em primeiro plano agora, potente e densa. O whisky preenche a boca sem ser agressivo, apesar da graduação alcoólica. Mineral, caramelo salgado, apimentado, frutado.

Finalização:
longa, com frutas cítricas e bastante sal.

Nota: 85
O que todo turfado de entrada deveria ser.
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Stevaux:

Aroma: BOOM! Eis um legítimo filho de Islay. Barris de carvalho americano e turfa costumam combinar de uma forma linda. Aquele aroma medicinal iodado que faz pensar em caixas de band-aid. Sal marinho e cítrico de limão. Frutas tropicais como abacaxi, maracujá, um leve amargor de kinkans. Tem maçãs e peras tudo com um doce de caramelo. A cauda traz mais couro com toques sulfurosos de borracha. Lindo.

Paladar: Turfa maravilhosa de cinzas. Oleosidade cobre a boca com sabores químicos e minerais. Caramelo com sal, parece que colocaram pimenta nas frutas.

Finalização: Bastante longa, cinzas, couro velho e sal. O doce das frutas vai ficando mais leve com o tempo.

Nota: 86
O que todo turfado de entrada deveria ser.
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Kilchoman Batch Strength Tour Edition

Um vatting de barris ex-vinho tinto retostados, ex-Oloroso e ex-Bourbon. Sem idade declarada.

Categoria: single malt
País: Escócia
Região: Islay
Idade: NAS
Maturação: ex-vinho tinto, ex-Sherry Oloroso, ex-Bourbon
ABV: 57% (pequena diluição)
Filtragem a frio: não
Corante: não

Aroma:
Alecrim por cima de uma carne assada. Dulçor de caramelo, turfa intensa, frutas frescas. Um toque de frutas vermelhas e especiarias. Aqui a juventude do whisky aparece um pouco.

Paladar:
Caramelo salgado, turfa, frutas vermelhas. Não entrega tudo que o aroma sugere. Ligeiramente vegetal.

Finalização:
média pra longa. Fumaça e um toque herbal.

Nota: 82
Pode ser ignorado sem perda nenhuma
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Stevaux:

Aroma: Turfa que lembra fumaça doce. Os barris de vinho tinto e oloroso trazem frutas vermelhas. Tem um doce frutado interessante – imagine uma mistura de bananas com cereja – mas nenhuma que se destaque com brilho, lembra frutas cristalizadas embebidas em álcool. Aquele aroma salgado leve de ar marinho. Cítrico e chocolate amargo. Cheiro químico e doce de borracha. Um leve amargor que sugere que talvez tenham tirado o whisky dos barris com pressa ou cedo demais.

Paladar: Decepciona um pouco. Parece que grande parte do que você percebeu com o nariz se evapora na boca deixando caramelo defumado e uma lembrança das frutas vermelhas e uvas. Você sente o gosto da madeira e mais fumaça com algo que lembra tabaco.

Finalização: Média. Fumaça doce com toques de hervas… o heather do Highland Park?

Nota: 82
Pode ser ignorado sem perda nenhuma
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Resumo da Ópera

A Kilchoman é uma destilaria tão interessante que eu a chamaria de estratégica no mergulho no mundo do whisky.

Que whiskyfreak não gostaria de viajar no tempo para buscar respostas às perguntas: será que o primeiro new make que saiu de um alambique da Lagavulin já tinha o gosto do whisky que eles produzem hoje? O que levaria fazendeiros, criadores de gado e donos de quitandas a resolver começar a produzir whisky? Será que o whisky de 200 anos atrás era igual ao de hoje?

Pois bem, a Kilchoman não chega a ser exatamente uma destilaria visionária, mas foi, à sua maneira, uma pioneira. Como mencionei, ela começou a ser construída em 2002 – um ano antes do Ardbeg Uigeadail ser lançado no mercado, popularizando o que uma destilaria pode fazer ao fugir de seu core range. Naquela época, a febre dos single malts estava apenas começando a dar sinais de vida, mas ainda estava longe de alcançar a popularidade que tem hoje.

A Kilchoman, a destilaria mais nova em Islay em mais de 100 anos, não é citada no Malt Whisky Yearbook dentro da onda das novas destilarias. Desde então, foram 44 novas destilarias surgindo pela Escócia. Talvez por isso a Kilchoman não tenha sentido a pressão de lançar garrafas exóticas ou criar polêmicas para atrair curiosos, ao mesmo tempo em que abraçou inovações que já começavam a se mostrar tendência no mercado: maior ABV, cor natural, sem filtragem a frio e maturações consistentes.

Resumindo: a Kilchoman parecia querer fazer whisky, e não aproveitar o mercado fazendo aberrações, enquanto o mercado aquecia.

Esses cinco whiskies são excelentes. Ok, talvez o Tour Edition tenha sido o primo estranho, aquele que a gente tem vergonha de apresentar para os amigos. Mas no geral, todos eles possuem o DNA da destilaria em cada gole.

Durante esses anos, seus lançamentos não foram exatamente consistentes. Sempre houve variações de batch para batch, e parece que a destilaria ainda está na fase de “pente fino”, fazendo ajustes finais em seus rótulos para ver o que funciona melhor. Mas seus whiskies, que começaram como “interessantes” e foram melhorando ao longo do tempo, estão se mostrando grandes surpresas – especialmente para os fãs dos destilados de Islay.

Todos são whiskies densos, onde dificilmente o destilado briga com o barril – seja a madeira ou seu conteúdo prévio. O álcool não é agressivo e não destoa, mesmo nos rótulos com ABV mais alto. O preço também não é um disparate.

Deste line-up (ou régua de degustação, se preferirem), os quatro primeiros não destoam do que vem sendo destilado em Islay há mais de 200 anos. Se você é fã de um Islay tradicional, abrace o Machir Bay Cask Strength. Se prefere a turma do sherry, o Loch Gorn e o PX mostram que ainda existem destilarias que sabem trabalhar bem com esses barris. O Sauternes é uma grata surpresa para quem curte finalizações diferentes – ou clássicas, já que o Sauternes já é presença constante em várias destilarias e garrafadores independentes. E, em todos esses casos, o whisky está muito bem integrado ao barril.

Tudo isso envolto em uma névoa de fumaça e turfa.

Já o Tour Edition Batch Strength é a prova de que até excelentes destilarias às vezes perdem a linha e resolvem subir para dançar em cima da mesa durante um jantar de família. Pode até te fazer rir se você já estiver bêbado, mas, no fundo, é desnecessário.

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