A Escócia é muito famosa por seus rios e vales, e muitos desses lugares acabaram dando nome a destilarias. É por isso que o prefixo “Glen” se tornou tão comum nos rótulos de suas garrafas. Esse prefixo era uma forma de descrever ou associar o destilado a uma região ou até mesmo a uma lenda local. Embora a Glenlivet não tenha sido a primeira destilaria a usar um vale como referência (a Glen Garioch já fazia desde 1797), foi o sucesso da Glenlivet que popularizou o uso do “Glen” para o mundo inteiro. Não à toa, inúmeras destilarias adotaram “Glenlivet” como sufixo de seus próprios nomes, remanescendo a alta qualidade dos single malts das Highlands (sim, Speyside está dentro das Highlands, mas isso é um tema para outro post).

A Glenlivet revolucionou o mercado em 1824, e em 1849, com a sua primeira destilação, a Glenmorangie começou a se consolidar com seu perfil delicado nas Highlands. Já em 1886, nasce a Glenfiddich. Nesse ano, William Grant, filho de um funcionário da Mortlach, comprou equipamentos de destilação no valor de 120 Libras esterlinas de uma das mulheres mais importantes na história do Scotch Whisky, Elizabeth Cumming, da destilaria Cardhu.
Curiosidade! Se você está se perguntando quanto seriam 120 dinheiros de 1886 hoje, o Bank of England oferece uma calculadora de inflação que corrige o valor desde 1209 (ainda estou tentando descobrir por que exatamente essa data…) até 2024. Nesse caso, 120 libras em 1886 seriam equivalentes a cerca de 12.900 libras em 2024. Nada mal para começar um império etílico, né?
Localizada na margem esquerda do rio Fiddich, que por sua vez é um afluente a leste do rio Spey, o vale onde está situada a destilaria dá nome a ela. O cervo estampado nas garrafas faz referência ao significado em gaélico, relacionado ao animal que habita a região e dá nome ao rio Fiddich.
Hoje, a Glenfiddich é um monstro do mercado, capaz de produzir 21 milhões de litros de álcool por ano, com 43 alambiques, sendo que 3 deles são segregados dos demais para lotes pequenos e experimentais. É um marco do que William Grant foi capaz de construir. A destilaria atualmente é gerida pela quinta geração da família Grant, que também é dona de outras destilarias no país, como Balvenie, Kininvie, Ailsa Bay e Girvan. As duas últimas dividem a mesma localização, mas são estruturas diferentes, sendo a Girvan responsável pela produção de whiskies de grãos para os blends do grupo.
O tamanho atual da destilaria é um resultado da gestão dos irmão Sandy e Charles Grant, que assumiram a empresa em 1953 e foram responsáveis por várias inovações, como a garrafa triangular utilizada pelo Blend Grant’s Standfast em 1956 e que teve sua utilização expandida para seu Glenfiddich Pure Malt (ou straight malt nos EUA) em 1963. Até esse momento nenhuma destilaria escocesa tinha explorado a categoria de single maltes com a amplitude que a Glenfiddich fez naquele momento. No primeiro ano eles venderam 4 mil caixas desse uísque, 10 anos depois eles ja tinham passado as 100 mil caixas.
A destilaria foi pioneira em outras frentes: em 1969 ela abriu o primeiro centro de visitantes na Escócia e em 1968 vendeu pela primeira vez para lojas do tipo Duty Free. Apesar de ainda ser uma empresa familiar e independente de outros grupos multinacionais, como Diageo e Pernod Ricard, a William Grant & Sons é uma das gigantes do setor, com uma capacidade combinada entre suas 4 destilarias (Glenfiddich, Balvenie, Ailsa Bay e Kininvie) de 44 milhões de litros por ano, a terceira entre todas os grupos que atuam na Escócia.
Isso tudo faz do Glenfiddich 12 anos um marco dentro da indústria, um que não deveríamos menosprezar.
Glenfiddich 12

Categoria: Single Malt
País: Escócia
Região: Speyside
Idade: 12 anos
Barris: carvalho (lol), sugere-se que seja uma base ex-bourbon com alguma influência ex-sherry
ABV: 40%
Filtragem à frio: sim
Corante: sim
Aroma: um single malt muito limpo, com notas maltadas, cereais, xarope de açúcar…um pouco do que os ingleses chamam de frutas de pomar (orchard fruits), que são referências a frutas como maçãs e peras e nesse caso me lembra mais pera. Floral leve e acompanhado de um aroma muito discreto de framboesa.
Sabor: agradavelmente adocicado, lembrando merengue, baunilha, limoncello. As frutas de pomar ainda estão presentes no paladar, mas de forma um pouco mais discreta que no aroma. As frutas vermelhas ainda estão presentes de forma similar ao percebido no paladar.
Finalização: Surpreendentemente longa para um uísque com as especificações de 12YO. Ela tem complexidade e remonta muito bem ao aroma e paladar. O merengue ainda é a referência predominante no paladar, mas a percepção de limoncello ainda continua presente. Com o passar do tempo, o caráter floral do malte fica mais presente na finalização
Nota: 78/100
Mais impressionante no bar da sua tia do que no seu.
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Mas e aí?
é impressionante como é fácil desprezar um clássico como o Glenfiddich 12 quando se avança no mundo dos whiskies. Um exemplar com baixo teor alcoólico, corante e filtragem gelada é facilmente relegado ao fundo do armário, mas esse Speysider é um destilado muito bem feito e bem acabado. Um whisky que mereceria estar com mais frequência nos nossos copos, mesmo que fosse só para aquecer o paladar.
