Mae West, a atriz, cantora, dramaturga, roteirista, comediante, corruptora da juventude e sex symbol norte-americana, disse certa vez:
“O placar nunca me interessou, apenas o jogo.“
Isso deixa claro que, apesar de ser extremamente competente em tudo o que fazia, Mae nunca tentou criar e administrar um site de reviews de whisky – ou o equivalente a isso nas décadas de 1920 e 1930.
Por que um sistema de notas é interessante?
Ele é a resposta para duas perguntas extremamente práticas:
• este whisky é bom?
e
• vale a pena investir tempo e dinheiro nele?
Afinal, se você tem um dinheiro sobrando para comprar uma garrafa compraria um whisky nota 70 ou um nota 87?
Como funcionam os sistemas de notas?
Basicamente analisamos os aromas, o sabor, a finalização e a qualidade do whisky.
Comparamos os aromas dele com os sabores para saber se um condiz com o outro ou se ele é um whisky trapaceiro – tem um cheiro maravilhoso, mas gosto de nhééé.
Buscamos suas características particulares: o destilado é interessante? O barril se sobressai escondendo suas qualidades? O barril está sendo usado para esconder seus defeitos? A maturação fez o whisky brilhar ou deixou ele chato?
E no final pegamos cada uma das notas individuais e usando a boa e velha matemática chegamos a um veredito final.
Qual a diferença entre um sistema de 0 a 10 e um de 0 a 100?
Basicamente nenhuma, um pode parecer mais assertivo, o outro deixa mais espaço para distribuirmos garrafas. O importante não é a graduação do sistema, mas o que cada número representa.
Se uma nota 8 indica um whisky de bom a excelente e uma nota 9 um whisky de excelente a sensacional, tanto faz uma garrafa ser 9 ou 90, mas começa a ficar estranho quando surgem notas como 9,3. Por isso, vamos tirar as vírgulas e. simplesmente usar 93 de uma vez.
Assim nosso sistema vai de 0 a 100.
Como funciona o sistema da Academia?
Chega de teoria e vamos à prática.
Whiskies que tem nota menor do que 60 não merecem ser chamados de whisky – é por isso que em muitos sistemas nem existem whiskies nessa faixa de pontos.
Mas se a escala vai de 0 a 100, um whisky 50 não deveria ser um whisky mediano?
A matemática não é tão simples assim, apesar se ser. Basta se acostumar com ela.
0 a 60: Esta coisa dentro da garrafa não deveria existir
Não perca seu tempo nem mesmo como curiosidade mórbida, isso pode acabar encorajando os criminosos a continuarem produzindo esse lixo.
60 a 70: Decepcionante
Pode ser que por aqui até existam whiskies que prometem melhorar em algum ponto futuro. Que possuam alguma qualidade que possa ser explorada, mas isso só é algo que você diria em um dia de extremo bom humor.
De maneira geral é um whisky com mais pontos negativos e tediosos do que positivos e um momento de bom humor não justifica o tempo e dinheiro que você vai investir em uma garrafa que, com certeza, vai durar mais do que um momento.
71 a 80: É a média – de um jeito bom
É aqui que começam a surgir os whiskies de verdade. Não são excelentes, mas estão longe de serem um desapontamento. Na pior das hipóteses você terá whiskies chatos, mas não ruins. Grande parte dos lançamentos modernos ou dos famosos “whiskies para iniciantes” vão estar brincando por aqui.
81 a 90: De bom a excepcional
Aqui estão os whiskies acima da média. Aqueles que tem qualidades memoráveis. É neste grupo que estão os whiskies que fazem a famosa expressão “custo benefício” começar a ter algum sentido*.
Essas garrafas deixam de estar no grupo das curiosidades e entram no departamento “o prazer de beber”.
91 a 99: Lendas vivas
Extraordinários. Arte na forma líquida. Whiskies que mudam o jogo. Inesquecíveis. Você pode continuar com seus próprios adjetivos, deu para entender o que queremos dizer.
100: Whiskytopia
Quando começamos a beber whisky, todos nós – e isso inclui você também – começamos a desenvolver uma ideia perigosa e atraente, como um grupo de sereias cantando para nós em meio a pedras afiadas e corais de recife durante uma tempestade. Essa ideia pode ser resumida em uma pergunta: Qual o melhor whisky do mundo?
A nota 100 é a resposta a essa pergunta, mas essa resposta gera uma nova pergunta: e qual whisky tem nota 100? Qual whisky te faz chorar e rir enquanto você o bebe?
Vamos deixar você responder sozinho, como koan zen-budista.
Um último detalhe
Adjetivos costumam ser bem particulares.
Em nossa escala a diferença entre um whisky 81 e um 90 poderia ser:
81 – Bom whisky compraria novamente
…
85 – Vale a pena investir em mais de um
…
90 – Uma aula, tão bom que vale a pena pagar mais nele…
Isso seria divertido e criaria uma falsa sensação de segurança e seria uma perda de tempo da nossa e da sua parte.
Tenha em mente que se 81 é um whisky bom e 90 é um excelente, qualquer whisky nota 87 está mais próximo da excelência e é melhor do que um nota 83. Não acreditamos que precisemos dar nomes a cada uma das notas.
[*] A ideia de “custo benefício”, que deveria ser tão simples, parece gerar monstros no mundo do whisky.
Geralmente ela se traduz em um single malt que custa menos de R$250,00, não importando se ele é bom ou não. Além disso, basta aparecer no mercado uma garrafa que custa R$900,00 reais por R$400,00 e todas as sirenes começam a tocar: OLHA O CUSTO BENEFÍCIO AI!
Nós acreditamos que um whisky se divide em qualidades, disponibilidade e preço. Nada que seja sem graça vale a pena o seu dinheiro e o seu tempo. Nenhum preço é “justo” se você pode conseguir a mesma garrafa por menos. Além disso 1 whisky muito bom é melhor do que 3 whiskies sem graça – afinal estamos aqui para promover experiências, não rega-bofes.
Pense nisso quando ouvir ou tiver dúvidas sobre o tal “custo benefício”.
