Existe uma espécie de guerra silenciosa entre as destilarias escocesas. Se esqueça qual produz os melhores ou mais premiados whiskies, parece que todas buscam ser a “mais alguma coisa” em relação às suas concorrentes.
A mais inacessível, a localizada em maior altitude em relação ao nível do mar, a mais antiga, a mais antiga em funcionamento, a mais antiga em funcionamento ininterrupto, a com mais ou menos alambiques, com os alambiques mais altos, mais tortos, mais curtos, a mais artesanal, a mais industrializada…
A Highland Park se localiza em Kirkwall, na maior das ilhas de Orkney, e apesar de tecnicamente fazer parte das destilarias da região das Highlands, hoje é colocada no grupo das destilarias das Ilhas – não confundir com Islay.
Então nessa disputa, costumava ser “a destilaria mais ao norte da Escócia”, título disputado pela Wolfburn que também se diz ser a destilaria mais ao norte, só que dentro do continente escocês, argumentado que a Highland Park fica em uma ilha. Mas ela perdeu seu lugar em 2013 quando a Shetland Distillery Company começou a operar na ilha de Unst nas Shetlands, bem mais ao norte.
Não que a Highland Park precisasse se apoiar em sua localização geográfica para entrar para o hall das destilarias “mais alguma coisa”, sua história facilmente é a detentora do prêmio de Personagem Mais Bizarro.
Supostamente a destilaria foi fundada por Magnus Eunson em 1790. De dia ele era um membro respeitável da sociedade orcadiana, um pregador e dono de açougue, mas à noite ele trabalhava como contrabandista de whisky. Eventualmente, em 1798, os fiscais de impostos o apanharam destilando ilegalmente mas, misteriosamente, os processos foram arquivados.
O curioso é que as pessoas costumam focar no fato dele esconder seu estoque de bebidas ilegais sob o púlpito e dentro de caixões e não param para pensar que ele realizava funerais e ainda assim tinha caixões vazios para encher de whisky. Mas e os ocupantes dos caixões? Bem, lembre-se de que ele também tinha um açougue. Digeriu a ideia?
Brincadeiras canibalísticas à parte, assim que Euston foi acusado de destilação ilegal, David Robertson comprou a propriedade de High Park e fundou nela a destilaria Highland Park. Inclusive, o nome da destilaria não se refere às Highlands escocesas, mas sim ao fato de ter sido construída em uma área chamada ‘High Park’, em contrapartida a uma área próxima mais baixa (Low Park).
Em 1816 a destilaria foi vendida a um sindicato que, ironicamente, incluía o oficial responsável pela prisão de Eunson, John Robertson, e um outro ex-fiscal, Robert Pringle – talvez os motivos do arquivamento dos processos não sejam tão misteriosos assim.
Existem ainda algumas dúvidas históricas em relação ao nome, ela pode ter sido fundada como Rosebank, então rebatizada de Kirkwall para então receber o nome Highland Park. Existem também algumas incertezas quanto à participação de Euston na criação da destilaria, mas isso só acrescenta um pouco de charme ao storytelling da marca enquanto você degusta uma boa taça de Chianti.
Voltando aos fatos, os prédios da destilaria que vemos hoje – os longos armazéns baixos e suas duas torres no estilo pagode, que ainda estão em uso hoje – foram construídos em 1818 com as pedras locais de Walliwall.

Enfim, em 1826, a Highland Park recebeu uma licença oficial para destilar seu whisky, mas foi apenas na década de 1870 que a destilaria se estabeleceu, primeiro sob o controle de William Stuart, proprietário da destilaria Miltonduff e então, em 1885, sob a batuta de seu parceiro de negócios James Grant (anteriormente gerente da The Glenlivet) que assumiu o controle total da destilaria em 1895.
Foi Grant quem a expandiu duas vezes para acomodar 4 alambiques e quem construiu um forte relacionamento com a Robertson & Baxter (R&B).
No início de suas operações seu isolamento geográfico era um empecilho, a destilaria tenha era pouco conhecida e praticamente tudo o que destilava era usado na indústria dos Blends – apesar da ignorância do grande público, seu whisky era usado em muitos blends populares. Muitos especulam que sua distância em relação às grandes indústrias de blends nas Lowlands, tenha sido o principal motivo pelos preços mis altos de seu whisky.
Em 1937 a Highland Distillers (que tinha ações da R&B) assumiu o controle total da destilaria e no fim da década de 1970 começou a engarrafar seu próprio single malt com maturação de 8 anos de idade.
Neste ponto, sua distância se tornou uma virtude, se tornando parte da personalidade dos single malts que ela produzia – na época associar um whisky às distantes highlands evocava a imagem de uma bebida mais intensa, resultado ainda de um mercado clandestino.
Além disso, seu whisky era feito com a turfa originária da própria ilha de Orkney e se diferencia dos tradicionais whiskies turfados do continente.
A turfa é formada por vegetação semi-decomposta acumulada ao longo de milhares de anos no solo. Essa vegetação difere em toda a Escócia, o que gera diferentes aromas quando é usada para nos grãos. A turfa continental é mais enfumaçada porque nela há mais lignina das árvores; A turfa de Islay parece ter mais vegetação marinha e contém mais creosol (recolhido como alcatrão); enquanto a turfa orcadiana é composta inteiramente de musgo esfagno e urze, gerando um espectro aromático diferente, levemente esfumaçado, mas significativamente mais perfumado e doce.
A Highland Park ainda possui pisos de malteação e queima a turfa no próprio forno, criando o malte defumado que compõe até 30% da cevada usada em seu mosto – os 70% restantes, que não são defumados, vem prontos para uso direto do continente.
Na década de 1980 sua imagem foi reformulada quando lançaram as novas expressões de 12 e 18 anos no mercado.
Em 1999 a Highland Distillers se tornou parte do Grupo Edrington – o mesmo proprietário da Macallan, Glenrothes e Glenturret entre outras.
No início da década de 2010, depois de um temporada trabalhando com a marca Cutty Sark – o blend que também fazia parte do portfolio do grupo Edrington até 2018 – Jason Craig, o diretor de marca, voltou para a Highland Park.
“Percebi que o que sustenta toda a ilha – de Kirkwall – é sua herança nórdica. Os descendentes modernos dos vikings estão fazendo nosso whisky e uma em cada três pessoas aqui tem DNA escandinavo. Ele decidiu que isso tinha que ser conectado a toda a marca e não apenas em algumas edições especiais.”
Assim, em 2012, a Highland Park lançou sua coleção Valhalla, começando com Thor – o deus nórdico do trovão e relâmpago – seguido por Loki, Freya e Odin. Assim nasceu o Orkney single malt com alma viking.
A outra assinatura da Highland Park é a política de barris para seu processo de maturação de whisky, onde utilizam um regime de 100% barricas de Sherry desde 2004. Eles utilizam uma mistura de carvalho europeu e americano – não confundir com barris ex-bourbon, que são extremamente raros. Os barris são construídos com as madeiras de carvalho e então são temperados com o Sherry, uma política como a da Macallan, também parte do Grupo Edrington.

Região: Highlands (Ilhas)
Fundada: 1798?
Proprietária: Edrington Group
Capacidade: 2.5 milhões de litros por ano
Fonte de água: nascente Crantit
Fermentação: 52 a 96 horas
Turfa: 30% com 30-40 ppm
Tipo de alambique: formato de pêra, com gargalos cônicos que se estreitam gradualmente. Os alambiques não têm constrições nem tigelas de refluxo, o que significa que há pouco refluxo durante a destilação.
Graduação alcoólica do new Make: 70%
Site oficial: highlandparkwhisky.com

Simplesmente fantástico, parabéns 👏
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Excelente! Já dá vontade de tomar um!
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Vou buscar aqui as informações confiáveis para fazer meu Podcast!
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