Highland Park 12: Antigo vs Novo

Em 2004, Michael Jackson – o escritor, não o Rei do Pop fã de meias brancas – declarou que o Highland Park 12 era “o mais competente” entre os single malts existentes na época.

Para Jason Craig, o diretor da marca Highland Park, o elogio desceu quadrado. Quando conheceu Jackson ele disse “sua citação assombra minha marca”. Ele entendia que “mais competente” podia significar a mesma coisa que um whisky “pau pra toda obra” sem qualidades ou destaques.

Na época a destilaria também se promovia como a “mais setentrional” da Escócia e Craig sentia o mesmo gosto ruim quanto tentava digerir essa ideia. “Era quase como se eles não soubessem mais o que mais dizer”.

Sua maior aflição é que enquanto boa parte da experiência que um whisky proporcionava estava ligada a seu story telling parecia que a Highland Park dizia que tinha um ótimo destilado, mas sem nenhuma emoção. “Mas se você for para Orkney, há muita emoção. É um lugar incrível e diferente de qualquer outro lugar” ele dizia, enquanto pensava em como refletir na embalagem e no marketing a complexidade do whisky.

Ele tomou para si a missão de trazer uma personalidade mais forte para o Highland Park.

A resposta veio quando assumiu novamente a marca depois de um tempo trabalhando com outro whisky do Grupo Edrington: “Percebi que o que sustenta toda a ilha é sua herança nórdica. Os descendentes modernos dos vikings estão fazendo nosso whisky e uma em cada três pessoas aqui tem DNA escandinavo”.

Nascia assim, em 2012, o single malt de Orkney com alma viking.

Em 2017 a linha normal da destilaria ganhou roupas e nomes novos e abraçaram de vez a imagem dos bárbaros que assolavam a Europa.

Mas enquanto uma lenda parecia nascer, outra começou a morrer. O consenso geral é o que embalagens muito espalhafatosas servem para esconder um whisky medíocre e muitos fãs da marca começaram a reclamar dessa nova versão: “não foi apenas a garrafa que mudou, a qualidade do whisky caiu!”

Claro que essa ideia não é nova, converse com as pessoas que bebem whisky há (muito) mais tempo e vai ouvir coisas como “se nunca bebeu um Laphroaig nos anos 90, nunca vai beber um Laphroaig de verdade”, “a Macallan hoje é uma sombra do que já foi na década de 80” e por ai a fora, como se todos os whiskies hoje fossem versões mais “industrializadas” e mais sem graça de seus antepassados.

E, bebendo este whisky, me veio uma sensação parecida. Ele não parecia tão intenso quanto sua versão na garrafa mais simples. Foi então que, ao invés de procurar teorias e tecer especulações, decidi escrever para a destilaria questionando a aparente mudança. E eles responderam:

“Posso garantir pessoalmente que não houve nenhuma mudança na maneira como fazemos nosso whisky. Nossas técnicas tradicionais de fabricação permanecem as mesmas e, embora possa haver algumas variações de lote para lote devido a fatores externos além do nosso controle (colheita de cevada afetada pelo clima etc.), isso não deve fazer uma diferença notável.

“Atualizamos nossa embalagem em 2017 para refletir as fortes raízes ancestrais vikings aqui em nossa casa de Orkney, algo de que temos muito orgulhoso, mas o whisky permaneceu o mesmo.

“No entanto, vale a pena notar que as edições muito mais antigas do nosso filho de 12 anos terão um sabor ligeiramente diferente da versão moderna. Em 1990, quando a primeira garrafa foi produzida, tínhamos apenas o 12 anos em nosso portfólio e tínhamos acesso a todo nosso estoque de maturação, a garrafa então continha whiskies com mais de 12 anos. Hoje em dia, temos um número significativo de expressões e temos que ser muito mais rigorosos no uso de estoque envelhecido e de cada tipo de barril para garantir que possamos suprir a crescente demanda. Como tal, a idade dos 12 anos está muito mais próxima dos 12 agora do que em 1990.”

Bingo!

O legal dessa resposta, além da transparência da destilaria com os entusiastas, é que ela mostra um ponto importante da história do whisky – que trataremos com mais profundidade em outro artigo: o Whisky Loch dos anos 1980.

De maneira resumida, a indústria do whisky estava sofrendo os efeitos da super produção de whisky dos anos 70 – tenha em mente que para vender um whisky 10 anos em 1985 ele teve que ser produzido em 1975 – com uma demanda cada vez menor do mercado pela bebida.

Essa foi uma época de trevas para as destilarias e muitas tiveram que fechar e como resultado disso criou-se um “excesso de estoque em todo o setor”, os fãs de whisky batizaram esse excesso de Whiskey Loch ou Lago de Whisky em referência à situação de excedente do país.

Avance alguns anos e na década de 1990, quando o whisky começou a se tornar popular de novo, muitas destilarias tinham milhares de barris muito velhos. Assim seus lançamentos continham doses generosas de whisky muito mais maduro. A Highland Park, como vimos, foi um exemplo.

Mas isso também mostra que não foi com a repaginação que o whisky mudou. Desde os anos 90, com cada novo lançamento, o 12 anos foi se aproximando muito mais de um… 12 anos. Se for comprar um whisky com a garrafa antiga para comparar com o nova, tenha em mente que a garrafa antiga de 1996, por exemplo, tinha um whisky muito mais complexo do que a de 2004.

Claro que isso não significa que o whisky é ruim, apenas estamos vendo agora com o que um Highland Park 12 de fato se parece.

Para saber mais sobre a destilaria clique aqui.

HIGHLAND PARK 12
antiga embalagem

Categoria: Single Malt
País: Escócia
Destilaria: Highland Park
Região: Highlands (Ilhas)
Idade: 12 anos
Barris: Carvalho americano e europeu, ambos ex-Sherry
ABV: 40% (mercado do Reino Unido)
Filtragem a frio: SIM
Corante: NÃO

Aromas:

Doces e florais, levemente defumado. É possível perceber toque sulfurosos nele, levemente salgados, mas o cítrico do limão e o doce de mel e frutas tropicais logo o apagam. Ao fundo é possível notar especiarias, caramelo, café e couro.

Sabor:

Começa doce e logo se torna mais amargo. Uvas passas, maçãs e toques amadeirados do barril. É possível perceber as frutas tropicais do olfato, a turfa lhes dá características defumadas e levemente salgadas. É um whisky cremoso que em pouco tempo fica picante.

Finalização:

Média. Madeira defumada, pense em fogueira apagada, malte e especiarias.

Nota: 83
Um bom whisky, acima da média.
Quer detalhes sobre as notas? Clique aqui.


HIGHLAND PARK 12 VIKING HONOUR
nova embalagem

Categoria: Single Malt
País: Escócia
Destilaria: Highland Park
Região: Highlands (Ilhas)
Idade: 12 anos
Barris: Carvalho americano e europeu, ambos ex-Sherry
ABV: 40% (mercado do Reino Unido)
Filtragem a frio: SIM
Corante: NÃO

Aromas:

Doces e florais continuam, puxando para o mel e caramelo, seu defumado é mais doce e mais discreto. Seu sulfuroso parece subir pouca coisa, levemente salgados, ainda levemente cítrico e notas de frutas tropicais presentes. Suas notas de fundo – café e couro – apenas uma lembrança

Sabor:

Chega doce na boca e vai se tornando mais amargo, mas um amargo que dá vontade de outro gole. Passas cobertas de chocolate ao leite, frutas e toques amadeirados do barril. A correspondência entre nariz e boca é boa, mas parece um pouco mais apagado.

Finalização:

Curta para média. Madeira defumada, malte e especiarias.

Nota: 81
Um bom whisky, acima da média.
Quer detalhes sobre as notas? Clique aqui.

Conclusão

Provando lado a lado você percebe a diferença entre as duas bebidas, o novo 12 anos parece uma versão com o volume levemente mais baixo enquanto o sulfuroso, algo que quase lembra ferrugem, fica mais aparente.

Mais diluído, menos complexo, mais raso são imagens que surgem com facilidade na mente e mostram a diferença que maltes mais velhos e complexos fazem no produto final.

Mas, tendo dito isso, ele continua com um corpo e complexidade muito interessantes para um whisky de 12 anos e é perfeito para quem está começando a descobrir o universo dos single malts.

É normal achá-lo um whisky “ok” se você já tem algum tempo de estrada, lembre-se que ele tem apenas 12 anos, mas mesmo assim é uma garrafa que vale a pena ser revisitada.

13 comentários sobre “Highland Park 12: Antigo vs Novo

  1. Parabéns pela iniciativa! Lembro num recente posto no Instagram, após uma imersão nos HP, vocês sugerindo qual a idade atual que poderia refletir o 12 raiz.
    Desculpe a pergunta que, em tempos atuais refletem aqueles que não querem desbravar, esperando respostas prontas e fast-food, mas o HP 14, o 16 ou até o 12 com força de barril que traria essa percepção? Obrigado 😊

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    1. Salve Denis,

      O que mais nos fez lembrar da versão mais antiga do 12 foi o atual 16 Wings of the Eagle. O HP 15, da garrafa branca, tem uma evolução em relação ao 12, mas muito pouco pela diferença de preço. O 16 é três vezes mais whisky que o 15 e a diferença de preço é tão pouca que o único diferencial do 15 é aquela garrafa sinistra. A complexidade e o sabor do 16 levam o prêmio de “nossa, esse me fez lembrar o 12 das antigas!”

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  2. Stevaux
    Gostei muito dos textos. Equilibrados e informativos. Só um grande conhecedor é fã de whiskys poderia escrevê-los.
    Parabéns e continue o bom trabalho!’n

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