Laphroaig 10 – Abv 43%

Prepare-se jovem, sua vida está prestes a mudar. Existem 2 tipos de whisky no mundo: os desejáveis e os inevitáveis. O Laphroaig 10 é do segundo tipo.

O whisky escocês com sabor mais untuoso e opulento da Escócia ou, ao menos, é como a destilaria define o próprio whisky, mas neste caso não é um exagero, seu sabor é único como a pronúncia de seu nome.

Falando nisso, pare um instante e repita em voz alta: Lá Frói gui. Mais uma vez. Parabéns, você está pronunciando o nome como um verdadeiro ileach – o nome usado pelos locais de Islay para se referir a si mesmos, o que nos leva ao próximo ponto.

A destilaria fica na ilha de Islay – pronuncia-se “ai lá” – e por muito tempo ela se manteve à margem da evolução industrial que tomou conta do continente britânico, mas falaremos disso mais tarde, vamos nos focar no seu sabor.

“Ah… mas eu já tomei Laphroaig antes, eu já conheço esse whisky e o gosto dele!” alguns de vocês, da turma do fundão, podem dizer, ao que eu respondo: preparem-se para beber um Laphroaig como você nunca bebeu antes.

Antes de mais nada, ele de fato é untuoso e opulento, é quase um whisky carnudo, se é que tal coisa exista, e é defumado e marítimo e cítrico. Ao beber você consegue evocar imagens de um cinzeiro sujo, de pântanos e algas marinhas e isso tudo pode ser traduzido por uma campanha que a destilaria lançou há algum tempo:

“Você vai se lembrar para sempre do seu primeiro Laphroaig” e eu, com certeza, me lembro da primeira vez que bebi. Tropecei em uma garrafa em 2014, foi meu primeiro single malt e, assim que o servi em um copo e senti seu perfume, minha mente entrou em um looping: “por que todo whisky não é assim? Por que todo whisky não é assim? Por que todo whisky não é assim?”

Mas com o tempo vi que a minha reação parecia ser a exceção à regra, a maioria das pessoas costuma estranhar seu sabor “untuoso e opulento”. Inclusive, o senso comum dita que se você pretende apresentar um whisky turfado para alguém – como eu estou fazendo agora – o Laphroaig deveria estar no fim da lista. “Não assuste os iniciantes”, “comece com um whisky mais amigável” … Eu penso que o senso comum é o que faz a terra parecer plana quando olhamos para o horizonte. Se é para falarmos de turfa ou Islay ou os dois, vamos chamar o monstro e tentar descobrir o que o torna tão único e assustador.

1- É como levar um coice na cara, de um cavalo que passou o dia galopando em um pântano de turfa.

2- Uma sinfonia de fumaça. Tem o gosto de um hospital queimando. Terra nunca teve um gosto tão bom.

3- É como correr pelado através de um pântano de turfa durante um incêndio e pular em uma banheira de fumaça líquida.

A Laphroaig existe oficialmente desde 1815, mas o Laphroaig 10 foi criado muito mais depois e a culpa dele ser como é hoje é da dupla dinâmica de Islay: Ian Hunter e Bessie Williams.

Hunter foi o último membro da família dona da destilaria a dirigir sua produção de whisky. Ele era o equivalente a um Tony Stark na Laphroaig: genioso, mal-humorado, intransigente, mandão, intragável e muito querido e carismático quando estava bêbado. Mas independente de seu humor ou jeito de ser ele era comprometido.

Ele foi o gerente da destilaria entre 1908 e 1944 e esses não foram anos fáceis para se ter e administrar uma indústria que produz álcool. Em sua administração ele enfrentou a I Guerra Mundial, a Lei Seca americana e a II Guerra Mundial, mas nunca parou de trabalhar durante esse tempo – quando John Campbell decidiu procurar emprego em uma destilaria de Islay na década de 1990, escolheu a Laphroaig por ela nunca ter parado de produzir, mesmo nas piores épocas do mercado de whisky – seu destilado sempre foi muito popular, especialmente na indústria de blends. Quando John começou a trabalhar em 1994, menos de 10% do whisky produzido era vendido como single malt, quando John saiu em 2021 menos de 10% eram destinados à indústria de blend.

Voltando a 1927, Hunter tomou a decisão de criar sua própria sala de maltagem dentro da destilaria para combater a falta de malte disponível comercialmente por causa da 1ª Guerra Mundial.
Ele decidiu usar os mesmos fornos – kilns – que os trabalhadores usavam para cozinhar sua comida na década de 1840, Ian empregou o método tradicional de turfar e defumar a cevada a frio para dar ao whisky seus sabores únicos de alcatrão defumado.

Hunter morreu em 1954 -alguns dizem que de arteriosclerose, outros afirmam que foi câncer – e acabou deixando a destilaria para Elizabeth “Bessie” Willianson. Ela começou a trabalhar na Laphroaig em 1934 como secretária de Hunter, em 1945 se tornou gerente e, em 54, herdou a destilaria e as terras que as cercavam. Amantes? Profissionais apaixonados pelo trabalho? Hunter via em Bessie a única pessoa que tocaria a destilaria como ele tocava? Isso é assunto para revistas de fofoca.

Bessie dirigiu a Laphroaig de forma muito competente, os cortes que fazem hoje no destilado são conhecidos como a “receita de Bessie”: descartam os primeiros 45 minutos de destilação – a parte mais doce e com mais ésteres – então começam a coletar o coração do destilado junto com uma parte longa da cauda, destilada mais lentamente.

Bessie acabou vendendo a Laphroaig em três estágios. (em 1962, 1967 e 1970) para a Long John, que pertencia à empresa americana Schenley. De maneira indireta isso afetou o whisky: antes ele era maturado em barris de sherry, ao se tornar propriedade americana os barris americanos ex-bourbon invadiram a destilaria – apesar da Maker’s Mark ganhar fama de ser a ex-proprietária dos barris é possível encontrar outros da Claremont Springs, Heaven Hill e Jim Beam ao se passear pelos armazéns e pátios.

Outras duas mudanças ocorreram na destilaria depois de sua administração. A primeira ficou registrada por John McDougall, ex gerente da destilaria, em seu livro de memórias Wort, Worms and Washbacks:

“Quando chegou o momento de aumentar a capacidade dos alambiques da destilaria na Laphroaig em 1972 instaurou-se uma briga entre os engenheiros e os destiladores. Suas opiniões eram diametralmente opostas. Aumentar o número de wash stills era algo simples: já havia dois e a instalação de mais um daria conta da capacidade extra que eles queriam atingir. Mas quando chegaram aos spirit stills, seriam necessários dois novos, mas se apoiando na ideia de custo benefício decidiram que um alambique com o dobro da capacidade seria instalado. Os engenheiros e chefes da Schenley foram avisados que isso afetaria inevitavelmente as características e o estilo do destilado da Laphroaig, suas características pesadas, oleosas, turfadas, esfumaçada, fenólica, iodada. Infelizmente o destilado mudou… No fim do dia eu diria que as considerações econômicas tiveram mais peso do que a qualidade e a tradição de um dos melhores e distintos whiskies da Escócia.”

A segunda veio quando mudaram o método de aquecimento dos alambiques de fogo direto por serpentinas de vapor Iain Maclean, chefe de armazém aposentado, disse “me lembro a primeira vez que encheram o alambique com a serpentina de vapor. Eu percebi na hora que havia uma grande diferença ali. Me lembrava torrada queimada no meio do vapor. Antes era completamente diferente, era um cheiro delicioso, para mim era cheiro de whisky, mas aquele cheiro não. Claro que era mais fácil de trabalhar [com o vapor], o carvão dava muito trabalho. Mas na minha opinião foi quando o Laphroaig mudou”.

Essa é uma das grandes desvantagens quando uma indústria multinacional ou um grande grupo corporativo assume uma empresa pequena e familiar. Dizem que a maioria dos homens costuma tomar suas decisões com a cabeça errada, mas pelo menos eles ainda usam uma cabeça para pensar. As corporações costumam pensar com as carteiras e algo invariavelmente vai se perder. Mas a tradição é algo forte e difícil de ser enterrada completamente.

Até hoje a Laphroaig maltea cerca de 20% de seus grãos nos galpões que Hunter construiu em 1927, se você fosse um contador jamais faria isso. A prática torna o malte que a destilaria usa 20% mais caro do que o malte da Port Ellen – indústria que fornece o malte para a maior parte das destilarias da ilha – e o malta da Port Ellen está entre os mais caros da indústria. Mas eles fazem isso por 3 motivos:

1º É parte da herança da destilaria

2º Esta prática é responsável ainda por grande parte da personalidade do whisky produzido

3º Por causa de relações públicas, os visitantes adoram ver destilarias fazendo coisas como há um século atrás. E a visão dos pisos de malte da Laphroig está entre uma das mais lindas de toda a indústria do whisky, uma massa dourada e macia de sementes que enchem o ar com seu aroma doce enquanto lutam para crescer, refletindo os raios de sol – quando eles atravessam as pequenas janelas do recinto.

Oito toneladas de grãos que vão secar nos fornos durante o inverno e sete durante o verão. Mas o que poderia ser apenas um show para turistas de fato influencia o whisky produzido.
Apesar de seguir as mesmas especificações do malte comprado da Port Ellen o malte feito na Laphroaig é levemente diferente: eles o turfam primeiro e o secam depois – acredite ou não químicos já pararam para analisar o malte produzido pelos dois processos e chegaram à conclusão que os sabores criados por ambos os maltes são mesmo diferentes.

Assim, o Laphroaig 10 de hoje não é, como diz o departamento responsável pelo marketing da destilaria, “o Laphroaig original, destilado hoje da mesma forma que Ian Hunter o inventou há mais de 75 anos”, mas é um dos whiskies mais inesquecíveis que já bebi e que consegue com perfeição traduzir a destilaria – as paredes de seus galpões com restos de algas trazidas pelo oceano, as janelas grudentas e embaçadas pela maresia, o oceano inquieto brilhando sob a luz do dia enquanto fumaça sobe para os céus cinzas e carrancudos – para a forma líquida.

Laphroaig 10
43% abv

Categoria: Single Malt
País: Escócia
Destilaria: Laphroaig
Região: Islay
Idade: 10 anos
Barris: Carvalho americano ex-bourbon
ABV: 43%
Filtragem a frio: SIM
Corante: SIM

Aromas:

BOOM! De cara a turfa surge, esfumaçada, medicinal, iodada – lembra o cheiro de caixa de primeiros socorros antiga no meio de uma fogueira. Algo terroso e pantanoso, óleo de motor queimando, algas marinhas e ban-aids, de repente, algo fresco e doce, baunilha e toques de limão. Quando se acostuma com a turfa surge caramelo, peras e açúcar mascavo. Tudo muito equilibrado e elegante e violento. Notas verdes e de malte ao fundo.

Sabor:

É aqui que o carvalho aparece e as especiarias são mais perceptíveis. Pimenta e algas marinhas, mais baunilha e iodo, turfa e fumaça. Cinzas velhas em um cinzeiro. Um whisky que chega a ser suculento – se é que isso é possível.

Finalização:

Looooonga e iodada. Cinzas e fumaça. Vai ficando seco, pedindo mais goles.

Nota: 88
Um whisky excelente, em todos os sentidos.
Quer detalhes sobre as notas? Clique aqui.

Conclusão

Como disse no início do texto, não é questão dele ser um whisky bom ou não, ele é inevitável, você vai acabar bebendo um Laphroaig 10, quer queira que não. Ele é um whisky que você pode se divertir pingando algumas gotas de água, ele muda diante de seus olhos.

O único pecado da destilaria, em minha opinião, é o abv baixo. 40% simplesmente não faz jus ao whisky, as versões com 43% começam a mostrar seu potencial – inclusive, as garrafas que chegaram oficialmente ao Brasil foram as com 43%. Provados lado a lado, o 10 anos 40% acaba parecendo mais um destilado de papelão molhado em comparação a sua versão com 3% a mais de álcool*.

Também ainda não conheci uma pessoa que estivesse enjoada do Laphroaig 10 que não tenha voltado a se apaixonar por ele em sua versão cask strength.

Se você é um bebedor novato, não tenha medo, arranje uma dose, uma garrafa e tome um gole. A vida, como você a conhece, nunca mais será a mesma.


[*] Muitos conhecidos chegaram a afirmar que a comparação foi igual para eles. Comparada à versão 43% a 40% parecia diluída e sem graça, com toque de papelão molhado. Alguns chegaram a sugerir que isso poderia ser uma falha do lote.

Em fim, se tiver a chance de provar um 43% a agarre, se não tiver o 40% é uma opção incrível e imperdível também.

10 comentários sobre “Laphroaig 10 – Abv 43%

    1. Cara! Como eu me emocionei lendo esse Artigo, lembrando da primeira vez que tomei uma Garrafa de Lap10 em 2007, no segundo ano de residência médica… Vou ter que contar essa história com detalhes no Podcast… Realmente marcou minha vida… “Você sempre vai se lembrar do seu primeiro Laphroaig” PERFEITO!

      Curtido por 1 pessoa

  1. Minha primeira dose de Laphroaig 10 foi em 2021. Me esmagou. Já tinha passado por um punhado de single malts, pela turfa de Talisker, Lossit e HP 12 (suave), mas putz! Foi um choque, foi algo inacreditável. Sensação de redescobrir algo, de ser arrebatado. Independente de outras experiências, preços e rótulos, foi meu momento mais impactante na interação com whiskies.

    Curtido por 2 pessoas

  2. Essa variação de 40% que me pegou cara, fui tomar logo essa versão do lá-fró-gui apresentando por um amigo e levei o meu turfado preferido (ardbeg) para o combate, não deu outra, até ele ferrenho entusiasta da destilaria se vendeu para os 6% a mais de álcool, que fizeram toda a diferença na finalização e potência na batalha.
    Desde então tinha perdido o tesão pela Laphoraig, mas conheci recentemente o quarker cask e me deu vontade de revisar este clássico.
    Grande abraço e parabéns pelo texto.

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    1. Uma vez, conversando sobre isso com o Pedro, e falando que com 6% de diferença a briga não era justa mesmo ao que ele me respondeu: Se a Laphroaig quer colocar um lutador com as mãos amarradas nas costas pra brigar, o problema não é do Ardbeg.

      E ele está certo, por isso acho justo comparar o Ardbeg 10 com o Laphroaig 10 CS 🙂

      Quanto ao Quarter Cask é um ótimo Laphroaig, na verdade a destilaria devia ser proibida de vender qualquer coisa abaixo de 48%, mas… é a vida. Agora duas versões mais caras mas que podem te levar pra um planeta totalmente diferente: a já citada 10 anos CS e o Laphroaig Sherry Finish – além disso o Lore parece hipnotizar bem os fãs 🙂

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  3. minha experiência e/ou memória sensorial mais fascinante nessa jornada dos maltes também foi com laphroaig..
    foi a de abrir uma garrafa do QC em um pequeno quarto de hotel; em segundos o quarto cheirava a laphroaig, fiquei incrédulo, nunca vou esquecer

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