Toda jornada pessoal é algo único, individual, quase místico e também um clichê.
Você sente um chamado, muitas vezes tendo como base um evento aleatório. Começa seu caminho se baseando em decisões pessoais que, muitas vezes, não seguem lógica alguma. E, mesmo assim, percebe o tempo todo que outros já passaram por ali, muitas vezes seguindo a mesma sequência de passos, se baseando em decisões como a sua.
O caminho da exploração das bebidas, não é diferente. Comece a se apaixonar por whisky, cerveja, vinho e outras e você consegue apontar esses passos obrigatórios.
Geralmente essa jornada começa com a fase da exploração dos clássicos, aquelas bebidas de boa qualidade e acessíveis para a maioria. Logo depois vem a fase da exploração dos extremos, os mais turfado, com maior influência de barril ou com o maior teor alcoólico possível (talvez essa última não seja apenas uma fase). Logo depois vem a fase da exploração dos limites menos comerciais; rótulos antigos, descontinuados e as novas destilarias.
Neste momento é justamente nesta fase de exploração que me encontro e as novas destilarias tem sido um tema recorrente em minhas compras de novas garrafas. E eu acredito que não poderíamos estar vivendo melhor momento para esta exploração.
Segundo a bíblia do whisky – não estou falando do livreto que se apropriou deste nome, mas do fantástico Malt Whisky Yearbook 2023, compilado pelo editor e escritor Igvar Ronde – hoje existem 39 novas destilarias em funcionamento na Escócia desde 2005.
O mais impressionante é que esse número ainda não leva em conta as destilarias em construção. O gráfico abaixo, do blog “Inside The Cask” deixa muito claro esse boom que estamos vivendo (https://insidethecask.com/2020/06/07/the-scotch-whisky-history-timeline ).

Isso por si só é algo incrível, quando falamos de provar um whisky ou beber um clássico, invariavelmente acabamos falando de uma bebida que já é produzida há décadas – talvez mais de um século. Invariavelmente, também, acabamos ouvindo falar de como tal whisky era muito superior quando engarrafado 30 anos atrás em comparação a suas versões modernas. Impossível deixar de se perguntar: como deveria ser o Glenlivet, o Highland Park, o Lagavulin, logo que começaram a ser destilados?
Essas novas destilarias são a resposta a esta pergunta. Temos hoje a chance de provar as primeiras produções de destilarias que nunca existiram antes, ver um whisky nascer e, com o tempo, amadurecer, se desenvolver. Eu ainda não sei que gosto o Springbank tinha logo que saiu dos alambiques a primeira vez, mas sei que gosto o Ardnamurchan tem, isto é acompanhar conscientemente a história conforme ela se desenrola e a história dessa destilaria, localizada no ponto mais a oeste de toda a ilha Britânica, começa com outra destilaria, no século XIX.
Uma história curta
Em 1826 a destilaria Loch Katrine Adelphi foi fundada às margens do rio Clyde (Glasgow). Em 1880 ela é transferida para A. Walker & Co. que injeta capital em sua operação e instala novos alambiques e um “Coffey Still” elevando a capacidade total de produção da Adelphi para aproximadamente 2,2 milhões de litros de álcool por ano.
Em 1903 a Adelphi foi comprada pela Distillers Company Ltd. e passa a fazer parte do conglomerado que, quase um século depois, se tornaria parte da Diageo. Mas o futuro não era muito brilhante para a destilaria. Em 1906 um de seus washbacks colossais colapsa, afogando as ruas ao redor com uma onda gigantesca de álcool. Após isso a destilação de malte foi encerrada, permanecendo a produção de whiskies de grão e a maturação de barris, até 1932 quando o Coffey Still é desligado e finalmente em 1968 os armazéns de maturação são fechados. A destilaria Loch Katrine Adelphi é demolida em 1971.
Tudo isso seria uma ótima novela se tivesse parado por ai, mas em 1993 Jamie Walker, tataraneto de Archibald Walker um dos proprietários da antiga destilaria, começa um negócio de engarrafamento independente de whisky que se consolida com uma das mais importantes e inovadoras engarrafadoras do Reino Unido, o nome: Adelphi.
Em 2004 Andrew Usher, o descendente do pai do blended whisky – sim antes mesmo da família Walker – se une à Adelphi e em 2007 acontece o inevitável: começam os planos de se construir uma destilaria. Em 2012 eles recebem o OK para a construção da destilaria que, em 2014, produz seu primeiro destilado.

Uma tradição longa
O whisky é a expressão final de uma destilaria e a Ardnamurchan é uma destilaria moderna em vários sentidos. Como indústria ela está altamente ligada à sustentabilidade, buscando eficiência nos gastos de energia e na origem de seu malte, mas é seu spirit o real motivo de todo o hype ao seu redor. Ela produz destilados turfados e não turfados e lança todos os seus whiskies sem filtragem a frio, sem adição de corantes e com teor alcoólico superior a 46% ABV.
Pois é, uma destilaria criada por pessoas com tradição histórica, mas voltada aos novos entusiastas de whisky que buscam muito mais do que apenas uma garrafa bonita, um rótulo assinado por artistas ou um preço alto.
Talvez inspirada pela indústria de engarrafamentos independentes, seu foco não é a padronização do whisky, mas produtos únicos de alta qualidade e com transparência extrema em toda sua linha. E o que quero dizer com isso? Eles usam a tecnologia de Blockchain na sua produção, o que adiciona uma grande rastreabilidade a tudo que produzem. Isso é importante porque permite que você saiba exatamente o que está bebendo.
Cada garrafa sai com um QR pode que pode ser lido com um celular e te redireciona a uma página da internet com informações como: número de garrafas do lote, o número da sua garrafa, a variedade malte utilizado, a fazenda onde foi plantada a cevada, o proprietário da fazenda, todas as informações do processo de mosturação, o ABV máximo e mínimos da destilação e um arquivo em PDF com dados extremamente detalhados sobre a composição de barris utilizados no lote.

Esse cuidado com certeza é uma etapa que mostra o quanto a Ardnamurchan e a Adelphi levam a sério seus produtos e consumidores e, levando-se em consideração que o que estamos bebendo hoje são uísques com apenas 5 ou 6 anos de maturação, podemos ver o quão promissor é o futuro da destilaria e de seus destilados, com potencial atingir níveis de referencias como Talisker e Oban.
É a nova onda de conexão entre whisky e bebedores, mas que não valeria de nada se o produto final não fosse excepcional também.
O código da garrafa dessa degustação tem o seguinte significado: AD é uma referência à Adelphi, a primeira dezena é o mês do engarrafamento (10 é igual a outubro), a segunda dezena é o ano do engarrafamento (2021) e os últimos números se referem ao batch, nesse caso o sexto do ano de 2021.
Vamos à degustação.
Ardnamurchan AD/10.21:06

Categoria: single malt
País: Escócia
Região: Highlands (Costa Oeste)
Idade: Sem Idade Declarada (NAS)
Barris: Vatting de barris ex-bourbon (65%) e barris ex-oloroso (35%)
ABV: 46,8%
Filtragem à frio: não
Corante: não
Aroma:
O primeiro impacto é um aroma cítrico, como limão siciliano, biscoito amanteigado, bala de caramelo, um leve toque marítimo com uma turfa suave e muito bem integrada. Com algum tempo um leve aroma de picles de gengibre doce aparece também.
Sabor:
O sabor tem grande relação com os aromas percebidos, mas o cítrico dança um pouco mais para frutas mais pungentes como Grapefruit, que com os toques biscoito trazem uma sensação que lembra um cheesecake. Uma leve influência vínica aparece no paladar com algo que lembra groselha. A textura é excelente, preenche a boca e traz um leve e agradável aquecimento.
Finalização:
Média, tendendo para longa e com boa complexidade. Todas as notas do aroma e paladar estão aqui em camadas e bem definidas. A leve turfa faz a finalização ainda mais interessante.

Nota: 85/100
Lindo, um colírio para a vista cansada
Quer detalhes sobre as notas? Clique aqui.
Mas e aí?
Dentre as destilarias mais novas que já provei (Arran não entra nessa lista) a Ardnamurchan é a que eu recomendo com maior facilidade. Apesar de bastante jovens, o trabalho de seleção de barris (e acesso aos fornecedores, que é o mais importante) acaba entregando whiskies muito bem-acabados e com excelente complexidade. Se você for viajar e só tiver um lugar na mala para um whisky jovem e de uma destilaria desconhecida, essa seria minha indicação.

Excelente texto. No fim do ano passado vi duas garrafas de Ardnamunchan no Canadá mas como eu nunca tinha ouvido falar deles, deixei lá. Vou tentar conseguir um.
Valeu!
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Obrigado Dalmo!
É uma destilaria fantástica, e com um perfil bastante único e a tendência é que fique cada vez melhor com a maturidade dos estoques!
A versão CS e algumas outra edições limitadas (maturadas em barris de Vinho Madeira e de vinhos da região de Champagne) também são imperdíveis!
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Excelente conteúdo, parabéns mais uma vez. Provavelmente vou tentar conseguir umas doses com o @barmandeapartamento e depois comprar uma garrafa 👏🏻👏🏻👏🏻
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Muito obrigado!
Espero que vc goste dele qndo pegar uma dose com o Nardi!
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