Destilaria Glen Garioch

Apesar da data oficial da fundação da Glen Garioch ser 1797, existem alegações de que ela já produzia whisky muito antes disso. As alegações, até hoje, nunca foram substanciadas mas poderiam dar à destilaria o cobiçado título de “A Mais Antiga da Escócia”.

Originalmente faziam parte de sua estrutura uma cervejaria e um curtume e, com o tempo, uma cidade começou a se desenvolver nos arredores da destilaria, que por sua vez continuou a crescer ao redor da cidade.

Uma antiga trilha que se tornou uma estrada – hoje chamada de Distillery Road, Estrada da Destilaria – divide a empresa em duas e é usada como um atalho para a estrada principal entre Aberdeen e Banff pelos habitantes da cidade, isso acaba incluindo o risco de atropelamento como uma das atrações do tour da destilaria.

O criador disso tudo se chamava John Manson e ele contava com 27 anos quando criou sua destilaria, quatro anos depois seu irmão Alexander, de 19 anos, se uniu à empreitada. O local que escolheram para começar a destilar whisky foi óbvio: Oldmeldrum no célebre ‘Vale do Garioch’ recebeu o nome de “Celeiro de Aberdeenshire”, uma extensão de terra ricamente fértil, com cerca de 390 km2 de extensão, famosa por produzir a melhor cevada de toda a Escócia.

Os Mansons eram agricultores, mas havia comerciantes e curtidores na família, acredita-se que o responsável por convencê-los a abraçar a indústria de bebidas fosse um tio que tinha sido um vinicultor em Oldmeldrum.

Em 1837, um ano antes da morte de John Manson, seu filho – também chamado John – se uniu ao negócio e eventualmente acabou assumindo a destilaria e construiu um moinho de rapé. Ele também administrava o curtume da família e investiu na compra de fazendas vizinhas, a maior dela trazendo consigo de brinde para John o título Laird of Fingask, Lorde de Fingask.

Ele se tornou membro da pequena nobreza, se casou com Elizabeth Blaikie, prima do famoso explorador David Livingstone e seu segundo filho, Patrick Manson, se tornou a primeira pessoa a indubitavelmente provar a conexão entre malária e mosquitos – trancando seu filho em um quarto cheio de mosquitos portadores de malária e provar que o “voluntário” se infectou depois de ser picado. Isso garantiu a Patrick um lugar na Royal Society, uma nomeação como Cavaleiro a serviço da medicina e o apelido de Mosquito Manson. Mas voltemos ao whisky.

A Glen Garioch permaneceu propriedade da ‘John Manson & Company’ até 1884, quando foi comprada pela J.G. Thompson & Company, uma empresa de comerciantes de vinhos e bebidas espirituosas de Leith.

Nesta época duas coisas ocorreram que ajudariam a catapultar o whisky da destilaria. A primeira, o The Spirits Act de 1860, que legalizava a mistura – o blend – de whiskies de diferentes destilarias antes que os impostos de destilação fossem cobrados e a segunda, a praga de filoxera em 1880 que aniquilou os vinhedos da França. Sem uvas não havia vinho, sem vinho não havia conhaque, sem conhaque havia… whisky! Que logo se tornou o destilado premium de escolha no mercado internacional.

Ai entra William Sanderson, um blender de Leith, que havia decidido prosperar – e muito – com o boom do blended whisky. Foi ele que produziu 100 blends diferentes e colocou cada um em um barril – também chamado de vat – e reuniu um grupo de degustadores para escolher qual o melhor. O vencedor foi a amostra número 69 e Sanderson não perdeu tempo em lançar seu blend “Vat 69” em 1882 e ele se tornou um sucesso imediato.

Em 1886, Sanderson comprou uma participação de 50% na Glen Garioch e, após sua morte em 1908, seu filho William Mark Sanderson assumiu o controle da operação da destilaria, grande parte da sua produção passou a ser usada na produção do Vat 69.

Com a década de 1920 veio a Lei Seca americana e o mercado internacional de whisky começou a entrar em colapso. William decidiu comprar o restante das ações da Glen Garioch para salvá-la de uma fusão. Tragicamente, isso não melhorou a situação financeira da destilaria e, quando William morreu em 1929, a Grande Depressão atingia seu pico. Quatro anos depois, o filho de William, Kenneth, vendeu a empresa para a Booth Distilleries Ltd em uma tentativa final de evitar a falência – oito meses antes do fim d’A proibição.

A fusão entre a William Sanderson & Son e a Booth’s Distillers Ltd durou quatro anos, quando uma nova queda na venda de whisky os forçou a se unir à Distillers Company Limited (D.C.L.).

Durante a II Guerra Mundial a produção da destilaria foi interrompida e quando a retomaram, foi mantida em níveis baixos por causa do racionamento de cevada e outras restrições governamentais do pós-guerra.

As coisas melhoraram no início dos anos 1960, mas em 1968 houve o que ficou conhecido como “escassez crônica de água e potencial de produção limitado”. A destilaria acabou sendo fechada.

Em 1970, Stanley P. Morrison, o corretor de whisky de Glasgow e proprietário da Bowmore Distillery a compra e retoma sua produção em 1972, nomeando Joe Hughes como gerente e lhe dando a missão de encontrar outros fonte de água para a destilaria. Entra em cena Alec ‘digger’Grant.

Ele era um operador de maquinário pesado – ou motorista de trator, se preferir – que saiu cavando pela região em busca de poços artesianos, em uma dessas escavações, na fazenda Coutens, ele descobriu uma nascente que, desde então, é chamada de Silent Spring – Nascente Silenciosa – já que não podia ser vista ou ouvida. Uma fonte de água pura havia sido encontrada, uma capaz de aumentar a produção da destilaria 10 vezes e Morrison comprou um novo alambique em 1972. E mais um em 1973 quando reformou toda a empresa.

Foi neste ano, de 1973, que o Glen Garioch foi relançado como Single Malt.

Em 1993 desativaram os prédios de malteação e as fontes de calor dos alambiques foram mudadas de gás direto para vapor.

A destilaria foi novamente desativada em outubro de 1995, mas para alívio dos moradores da região ela reabriu em 1997. Foi nesse período em que suas portas se fecharam que o segundo wash still foi removido – hoje ele se encontra do lado de fora da entrada do centro de visitantes da Destilaria Auchentoshan, também de propriedade da Morrison Bowmore, que hoje pertence à companhia japonesa Suntory.

Se você já foi visitar a destilaria, provavelmente percebeu que o “inglês” falado por lá é mais estranho do que em outros lugares da Escócia, isso acontece porque por lá o dialeto dórico ainda é usado no dia a dia. Frases como “Fou’syerdous?” – “How are you doing?”, Como vai? – “Gang yer ain gate” – “Do it your own way”, faça do seu jeito – e “Gie’s a bosie!” – “Give me a hug!”, Dá um abraço – são comuns e corriqueiras.

O nome “dórico” remonta à cultura grega e romana antiga, mas aparece pela primeira vez como uma referência ao dialeto local no século XVIII. Ao longo das décadas ele se tornou um dos dialetos escoceses mais distintos e vem tão naturalmente quanto a noite segue o dia para os habitantes da região.

E isso nos leva de volta à Glen Garioch, que se pronuncia “Guíri”.

Região: Highlands

Fundada: 1797

Proprietária: Beam Suntory

Capacidade: capacidade de produzir 1.3 milhões de litros por ano (produziu 450 mil em 2019)

Fonte de água: Silent Spring

Fermentação: 72 horas

Tipo de alambique: Liso, formato de cebola, baixos, lyne arm descendente

Graduação alcoólica do new Make: 72%

Site oficial: glengarioch.com

3 comentários sobre “Destilaria Glen Garioch

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