Union Vintage 2005

“As estrelas que vemos no céu já estão mortas”

Calma, antes que algum astrofísico que goste de whisky se engasgue com seu single malt, essa é uma daquelas informações que traz mais poesia do que verdade em si. De fato, parar de vez em quando para observar o céu noturno – e o universo – é uma forma de viajar para o passado sem a necessidade de um DeLorean. Como todos os objetos que emitem luz estão muito distantes, a luz deles demora muito tempo para chegar até nós.

Por exemplo, a estrela Daneb, na constelação de Cygnus, o Cisne, está a 3 mil anos-luz de distância. Cada vez que você enxerga essa estrela brilhando no céu, está observando a luz que partiu em sua jornada rumo ao nosso planeta quando Roma antiga ainda era formada por pequenos vilarejos. Talvez haja certa poesia nisso, mas isso não significa que essa estrela esteja morta. Apenas que por um instante você consegue se conectar com um tempo que não existe mais e jamais voltará a existir.

O Union Vintage 2005 é como uma dessas estrelas no céu noturno: um whisky de um tempo que não existe mais.

Por si só ele é uma singularidade digna de nota, é o single malt nacional mais velho já lançado e não apenas “do Brasil”, muito provavelmente de todo o continente americano, mas ele também foi produzido em uma destilaria que não existe mais.

Não é novidade alguma que a Union tenha uma nova destilaria, extremamente moderna em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul. Quem ainda não a visitou pelo menos consegue encontrar fotos internet a fora – e se esse não é o seu caso, não se preocupe, em breve escreveremos sobre uma de nossas muitas visitas em detalhes exaustivamente maravilhosos.

Mas o que muitos não sabem é que a Union originalmente ocupava, e ocupa ainda, uma quadra inteira no centro de Veranópolis, também no RS, em meio a prédios residenciais. Seus prédios parecem, de certa maneira, sufocados em um espaço restrito pela cidade que cresceu ao seu redor. De longe é possível visualizar grandes silos para armazenamento de grãos, uma enorme caldeira, além dois depósitos onde são armazenados os barris.

A Union foi fundada em 1972, logo após as Famílias Borsato e Ziero assumirem o controle da empresa e resolverem mudar o foco do negócio da produção de vinhos para o whisky de malte. E essa, com certeza, foi uma decisão acertada: os negócios cresceram tanto que logo a área de Veranópolis ficou pequena, o que motivou a mudança para a cidade de Bento Gonçalves, onde começaram a projetar a nova destilaria em 2010 e teve a primeira gota de seu newmake spirit (o destilado que depois de descansar no barril vira o whisky) foi derramada somente em 2015, com a produção plena iniciando em 2016.

Mas como uma destilaria que começou a produzir em 2016 poderia lançar um single malt com mais de 16 anos, 11 anos antes de sua inauguração? Para responder isso, fiz as malas e parti em uma viagem para a cidade de Veranópolis.

Armazém de envelhecimento

Chegando na destilaria antiga me surpreendo com o grande movimento de pessoas. Sabia que seus armazéns de envelhecimento de whisky ainda eram utilizados, mas muitas outras coisas ainda acontecem por lá. Fui recebido pelo Luciano (um dos sócios da empresa), Dario (master blender/distiller) e Volnei (gerente comercial), que me levaram para um tour.

A construção que abriga a destilaria é muito bonita e extremamente bem conservada. O prédio onde ficam os depósitos era um antigo hospital da cidade. A área administrativa é onde funcionava a antiga vinícola União Montanhesa e alguns elementos como um belíssimo piso de madeira foram mantidos. Para se ter uma ideia o rótulo do whisky traz a fachada da unidade de Veranópolis.

Nosso tour seguiu as etapas de produção do whisky. O primeiro passo foi o moinho, responsável por transformar os grãos de cevada malteada que a destilaria recebe em uma espécie de farinha. E o que surpreende é a modernidade e o tamanho do equipamento, contrastando com o prédio de mais de um século que o abriga.

O moinho original de uma marca alemã, instalado na década de 1970, pode ser visto hoje em exposição na área de visitação da nova destilaria.

Para a próxima etapa, a sacarificação, havia um mashtun moderno, que ficou em uso por poucos anos antes da destilaria se mudar. Mas o que realmente chama a atenção são os tanques de mosturação que eram utilizados antes da aquisição desse equipamento. São vários pequenos tanques de Inox, onde a mistura de cevada moída com água quente era mexida manualmente, com a ajuda de grandes pás – se você se impressiona com os malting floors das destilarias escocesas modernas, imagine a visão das pessoas misturando cevada moída na mão nesses tanques.

Depois de drenado o mosto não-fermentado, o que restava dos grãos de cevada tinha que ter retirado por alguém que precisava entrar nos tanques utilizando botas de borracha. Imagina a felicidade do pessoal quando um moderno mashtun foi adquirido.

Antigos mashtuns

Mas é na parte da destilação que as coisas ficam realmente interessantes. Hoje, a nova destilaria de Bento Gonçalves tem 3 alambiques enormes, com capacidade entre 16 e 18 mil litros cada, e seu processo é totalmente automatizado. Em Veranópolis não poderia ser mais diferente.

Os seis pares de pequenos alambiques de aproximadamente 4.000 litros ficam enfileirados como soldados aguardando ordens em uma sala. Eles possuem os lyne arms mais descendentes que já vi, ligando o pescoço dos alambiques aos condensadores do tipo wormtub – me lembraram serpentes marinhas saídas direto de algum filme de fantasia. É uma visão maravilhosa e só posso lamentar não ter visto aquilo em funcionamento.

Os armazéns de envelhecimento são igualmente impressionantes. Mais de 10.000 barris descansam na unidade de Veranópolis, em um depósito que muito me lembrou as dunnage warehouses escocesas. Incontáveis corredores estreitos com prateleiras de barris que chegam a 6 andares, em um ambiente úmido, completo com o teto cheio de mofo comedor de vapores alcoólicos. Essa configuração, apesar de certa maneira romântica, não é exatamente a maneira mais eficiente de mover os barris. Mas é justamente isso que nos trouxe o Union Vintage 2005 até nós.

O principal negócio da Union sempre foi a produção e venda de whisky a granel, tanto para o mercado interno quando para o externo. Hoje ela vende single malts direto para o público entusiasta, mas em 2005 a Union não havia qualquer plano – ou sonho de plano – de se lançar seu próprio whisky engarrafado. Então não havia a necessidade de maturar um whisky por 16 anos, visto o mercado normalmente não demanda whiskies tão envelhecidos.

Hoje a destilaria de Bento Gonçalves tem armazéns paletizados, onde os barris são movidos com facilidade, além de ter um sistema de código de barras que permite total rastreabilidade dos barris. Mas em Veranópolis, como já vimos, os barris eram e são identificados somente por um número e eles não eram facilmente acessados. E foi justamente por isso que alguns barris “se perderam”, ficaram esquecidos por mais de 16 anos em um canto da destilaria. E que a sorte a nossa.

Um dos barris preenchidos em 2005

Union Vintage 2005

O Union Vintage 2005 é o whisky com maior maturação já lançado no Brasil, mas também o mais caro. Tem belas credenciais, mas será que a experiência de prová-lo é tão interessante quanto a sua história?

Categoria: single malt
País: Brasil
Idade: 16
Barris: Carvalho Americano de reuso
ABV: 48%
Filtragem à frio: não
Corante: não

Union Vintage 2005

Aromas:

O primeiro contado releva no olfato notas maltosas, adocicadas e que lembram bastante amêndoas. As notas frutadas, bastante intensas também, vêm logo em seguida e lembram principalmente maçã e doce de laranja, com toques cítricos. Conforme o whisky se abre surgem notas verdes como tomilho e alecrim, uma evolução inesperada e bem-vinda.

As características que se espera de uma maturação longa em carvalho americana estão presente, como baunilha e um dulçor de caramelo, mas não são dominantes, apesar da maturação em clima tropical (adoro barris de reuso). Depois de alguns minutos na taça uma nota floral fica mais evidente, além de acentuar as notas frutadas, que remetem à abacaxi e pêssego.

Sabor:

No pladar as notas frutadas se sobressaem às notas maltosas. Frutas bastante maduras e um dulçor menos pronunciado do que sugeria o olfato. A textura é agradável e a intensidade de entrega de sabor é interessante. Tem um apimentado que não é exagerado e lembra gengibre, ligeiramente refrescante com um toque mentolado.

Finalização:

A finalização é média e tem um equilíbrio interessante entre e adocicado e um leve amargor. O retrogosto é frutado, com discretas notas amadeiradas e baunilha.

Nota: 87
Poesia engarrafada
Quer detalhes sobre as notas? Clique aqui.

Resumo da ópera:

O o Union Vintage 2005 passou mais de 16 anos dentro de um barril, por isso aconselho deixá-lo descansando por uns 20 minutos na taça para que ele abra antes de começar a degustação. Num primeiro contato é um whisky fechado mas que vai evoluindo demais com o passar do tempo.

É um whisky muito bem feito, com todas as característica que se espera de uma maturação mais longa em barris de Carvalho Americano.

Mas e o preço Nardi, vale a pena?

Antes de mais nada vamos olhar para ele. O whisky é uma edição de apenas 2005 garrafas, todas numeradas individualmente, o que não quer dizer muita coisa se ele não for bom, mas é um excelente whisky. Tem idade declarada de 16 anos, 48% de graduação alcoólica, sem filtragem gelada e com coloração natural.

Ele está a venda por R$ 465,00 no site da destilaria, eu acho que tem um valor até abaixo do que se espera de um whisky com essas características. Se fosse um whisky escocês, de alguma destilaria mais famosa, as pessoas estariam se matando por ele.

Então ele vale o que custa? Talvez eu já tenha garantido um estoque de meia dúzia de garrafas por aqui.

5 comentários sobre “Union Vintage 2005

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