Destilaria Glenlivet

É comum ouvir que a Glenlivet é a destilaria em funcionamento mais antiga da Escócia. Na verdade a Strathisla é mais antiga e a Glen Garioch talvez seja ainda mais velha. Mas a Glenlivet foi, com certeza, uma das primeiras a conseguir uma licença para destilar assim que o Excise Act de 1823 foi estabelecido, então, de certa forma, ela é uma das responsáveis pelo início da industria moderna do whisky escocês e o homem por trás dela se chamava George Smith.

Smith era um fazendeiro, o que naquela época e região era basicamente sinônimo de produtor ilegal de whisky, e era locador da fazenda Upper Drumin no extremo sul de Glen Livet – glen significa vale e Livet é o rio que corta o vale.

O whisky – ilegal – de Smith já era conhecido. Quando o Rei da Inglaterra, George IV, visitou a Escócia em 1822 – era a primeira vez que um rei inglês pisava no país em mais de 200 anos – um roteiro foi cuidadosamente elaborado pra mostrar tudo que a Escócia tinha de melhor para oferecer. Era uma tentativa de diminuir as duras penalidades impostas pela coroa ao país desde os Levantes Jacobitas e uma dessas coisas foi, justamente, apresentar ao rei o whisky produzido pela Glenlivet.

Ele gostou tanto daquele whisky, que exigiu que fosse servido juntamente com todas as suas refeições e encomendou algumas caixas pra levar de volta pra Inglaterra.

Apesar da atitude do rei, durante décadas o governo inglês tentou taxar o whisky destilado na Escócia, o que apenas criou um mercado negro de whisky produzido ilegalmente que se espalhou pelo país. Destilar whisky ilicitamente não era apenas uma fonte de renda, mas uma forma de rebelião contra a coroa.

Para tentar acabar com o mercado ilegal o Excise Act de 1823 foi criado, uma nova lei que substituiu o Excise Act de 1644 e o Act of Union de 1707 e introduzia taxas menores, que tornaram possível que qualquer destilaria se legalizasse, gradualmente diminuindo o número de destilarias clandestinas. Bastava que se pagasse uma licença de £10 libras (o equivalente a £1.153 libras nos dias de hoje) e sua produção de whisky passava a ser legalmente reconhecida.

Calha que o Duque de Gordon, um dos responsáveis pela criação da lei, era também o locatário da fazenda de Smith. Quais as chances de, cedo ou tarde, Smith receber uma visitinha de um dos paus mandados do Duque para “persuadi-lo” a reconhecer seus erros, enxergar a luz e legalizar logo aquilo que ele estava produzindo?

O problema é que após mais de 40 anos de clandestinidade, os clãs – ou gangues – de contrabandistas já estavam bem estabelecidos, e haviam acumulado certa riqueza com ela, e eles não gostaram nada da chance de perder sua fonte de renda e poder com a legalização de destilarias. Várias delas foram totalmente despedaçadas e incendiadas “misteriosamente” depois de pagarem a taxa de £10 libras e Smith começou a andar armado com um par de pistolas – provavelmente um presente de seu amigo Duque – para se defender de seus ex colegas de destilação.

A destilaria até hoje, com uma empolgação meio mórbida, gosta de comentar como ele teve que usar as pistolas em mais de uma ocasião para defender a si e ao whisky que produzia.

E o whisky era bom. Tão bom que se tornou muito popular e logo o dinheiro começou a chegar junto com uma demanda cada vez maior. Smith construiu uma segunda destilaria nas proximidades de Delnabo em 1850, logo seu agente em Edimburgo, Andrew Usher, lançava o ‘OVG’ [Old Vatted Glenlivet] inicialmente como um blended malte e, em seguida, como o primeiro blend conhecido. O Glenlivet de Smith era a base de ambos.

Em 1858 a destilaria em Drumin pegou fogo e, no ano seguinte, a de Delnabo, que sempre teve problemas com fontes de água, fechou. Smith começou a trabalhar para construir uma destilaria nova ainda maior em Minmore, que foi inaugurada em 1859 e funciona até hoje.

Depois de algum tempo, todas as destilarias da região, que maldiziam Smith por ter “se vendido para a coroa”, começaram a vender o whisky que produziam como “The Glenlivet” também, surfando na fama e popularidade do destilado produzido por ele.

Em 1881 o neto de George Smith, George Smith Grant, que na época estava tocando a empresa, moveu processos contra todos que estivessem usando sua marca, ao longo dos anos já eram 26 destilarias rotulando suas garrafas como Glenlivet.

O Glenlivet sempre esteve disponível no mercado como single malt, mas foi após a Segunda Guerra que ele começou a se popularizar. Em 1952 se fundiu com a Glen Grant e então com a blender Hill, Thompson & Co e as destilarias Longmorn/Benriach. Em 1978 a Seagram, proprietária Chivas, pagou £46 milhões por uma participação no controle do grupo. Pouco tempo depois, The Glenlivet se tornou o single malt mais vendido nos Estados Unidos, posição que mantém até hoje.

Em 2001 o império Seagram foi dividido entre a Pernod Ricard e a Diageo. A Pernod ficou com a divisão de Scotch, renomeando-a para Chivas Brothers. Uma década depois a destilaria aumentou sua capacidade de produção em 75%. O objetivo agora é fazer do The Glenlivet o single malt mais vendido do mundo. As vendas agora superam um milhão de caixas por ano. Quando Bill Smith Grant começou na década de 1950, eram menos de 700 caixas.

Região: Speyside

Fundada: 1824

Proprietária: Pernod Ricard

Capacidade: 21 milhões de litros por ano

Fonte de água: reservatório de água do Loch Katrine.

Fermentação: 54 horas

Tipo de alambique: tradicional de Speyside com constrição na base do pescoço. Lyne arms extremamente longos e horizontais.

Graduação alcoólica do new Make: 68-70%

Site oficial: theglenlivet.com

5 comentários sobre “Destilaria Glenlivet

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