Ardbeg 10, o príncipe esquecido?

Já falamos sobre Islay algumas vezes aqui na Academia, mais especificamente sobre Laphroaig e Caol Ila, duas destilarias importantes da região, uma por seu pioneirismo como single malt e outra por ser a maior e, talvez, a mais subestimada da ilha. A Ardbeg, outra das estrelas de Islay, parece não ocupar nenhum desses dois extremos na ilha, ao invés disso criou um extremo próprio para habitar.

Fundada, pelo menos legalmente, em 1815 por Alexander Stewart ela seguiu o bê-á-bá das destilarias escocesas: trocou de mãos, fechou e reabriu por inúmeras vezes até que renasce em sua atual configuração, neste caso isso aconteceu quando foi comprada, em 1997, pela Glenmorangie PLC da finada Allied Domeqc (que depois foi comprada Pernod Ricard em 2005). É a partir da aquisição da Glenmorangie que o renascimento da Ardbeg começa. Já em 1999 o centro de visitantes é aberto e em 2000 a versão maturada por 10 anos é relançada.

A compra da Ardbeg pela Glenmorangie pode ser considerado um dos maiores golpes de sorte da história ou um dos negócios mais lucrativos da história do Scotch Whisky, você decide. O valor pago por toda a destilaria, incluindo seu estoque de barris, em 1997 foi de £7 milhões de libras – equivalente a £12,8 milhões corrigidos pela inflação. Agora imagine que, em 2022, um barril desse. estoque, destilado em 1975 foi vendido por £16 milhoes. A destilaria praticamente se pagou com lucros.

Atualmente a empresa faz parte da LVMH, a holding francesa especializada em bens de consumo de luxo, dona de marcas como Louis Vuitton e Chandon.

Mas essa maravilhosa destilaria da região Sul de Islay vem ocupando outros espaços bem menos nobres nos grupos de entusiastas. Com um marketing chamativo, ela vem apostando em lançamentos barulhentos mas com recepção muito abaixo da expectativa pelos apreciadores de whiskies (e aqui estamos falando dos que abrem suas garrafas, e não dos colecionadores) e que não raramente, tem preços que não justificam o conteúdo das garrafas.

A Ardbeg tem um grande grupo de fãs batizado Ardbeg Committee, o fã-clube da Ardbeg, criado pela própria destilaria em 1999, que que lança com exclusividade ou antecipadamente alguns whiskies para seus membros. E foi aí que começaram a construir o extremo que citei no início do texto: esses lançamentos eram, originalmente, lendários para os fãs e representavam releituras bastante originais das versões do core range. Duas versões recentes, no entanto, trouxeram muitos questionamentos para os fãs.

Será que esses lançamentos eram experiências legais, que ainda faziam algum sentido ou começaram a criar um nicho apenas para desaguar garrafas colecionáveis – que pareciam esgotar em instantes e então atingir altos preços no mercado secundário – não importando o conteúdo?

  • O rótulo Fermutation, fruto de um acidente que levou a uma fermentação extremamente longa e a mais criticada
  • Ardcore, que usou maltes tostados/torrados em sua composição e recebeu uma chuva de reclamações e tem notas abaixo da média para a marca.
acidente de fermentação ou marketing deslavado e sem vergonha?

Apesar das edições especiais polêmicas – e das expressões mais caras Traigh Bhan (19 anos) e a recém-lançada 25 anos – a linha regular (core range) é uma das mais notáveis da ilha. Ela é composta por cinco rótulos:

  • 10 anos
  • An Oa
  • Uigedail
  • Corryvreckan e a mais recente
  • Wee Beastie, maturada por um mínimo de 5 anos.

Assim como a sua vizinha do sul com “Selo Real”, a versão mais importante da Ardbeg é o 10 anos. Também como sua vizinha, a Ardbeg usa barris ex-bourbon na maturação e muita turfa, mas é por aí que as similaridades terminam.

No Ardbeg há uma maior presença de barris de segundo uso, ou até mesmo de refil, o que ressalta as características de um destilado um pouco mais frutado e leve, especialmente devido aos purificadores instalados no Spirit Still (onde o whisky passa por sua segunda destilação).

Além do processo diferente a Ardbeg também escolhe apresentar seus produtos de uma forma muito diferente para o consumidor, algo que os aproxima muito da configuração ideal para os entusiasta: toda sua linha é engarrafada com teor alcoólico acima de 46% ABV e, provavelmente, sem adição de corante caramelo, apesar de nenhuma menção explícita, além disso não fazem a filtragem a frio (chill filtering) e suas garrafas estão amplamente disponível no mercado (embora a LVMH escolha não trazer nada além do Ardbeg 10 oficialmente para nosso território).

Ele marca todas as caixinhas que desejamos. Entre as destilarias do sul de Islay essa é uma apresentação única!

Mas vamos à degustação.

Ardbeg Ten

Categoria: single malt
País: Escócia
Região: Islay
Destilaria: Ardbeg
Idade: 10 anos
Barris: Ex-bourbon
ABV: 46%
Filtragem à frio: não
Corante: não

Aroma:

Diferente de outros turfados de islay o primeiro impacto é de cinzas e carvão queimado. Logo depois desse primeiro impacto frutas tropicais começam surgir. Limão siciliano, maracujá doce, abacaxi caramelizado se destacam. Leve aroma adocicado de malte e xarope de açúcar aparecem e complementam muito bem o aroma.

Sabor:

Uma das características que mais me agradam em whiskies é quando o sabor é tão bom quanto o aroma e esse é o caso do Ardbeg 10. Com um textura agradável o primeiro impacto levemente adocicado seguido por uma fusão de frutas tropicais e fumaça.  

Finalização:

É na finalização que a ausência da filtragem a frio faz diferença. O Ardbeg 10 se espalha pela boca e deixa uma finalização média-longa com destaque para a fumaça de churrasqueira, abacaxi grelhado e um sabor cítrico que lembra laranja-bahia madura.

Nota: 85/100
Um whisky obrigatório, em todos os sentidos.
Quer detalhes sobre as notas? Clique aqui.

Mas e aí?

O Ardbeg 10 é – juntamente com Port Charlotte 10, também disponível no Brasil – uma das melhores opções de entrada para whiskies turfados. Ele é elegante e ousado, frutado e defumado de forma equilibrada, apresenta suas camadas de aroma e sabor de forma bastante didática. Na minha opinião, se você precisa de uma aula de introdução à turfa de Islay o Ardbeg 10 é o whisky da primeira lição.

4 comentários sobre “Ardbeg 10, o príncipe esquecido?

      1. Nessa foram 2 versões fora do core range, mas maio deve trazer mais uma oportunidade de provar mais um Ardbeg de edição especial…

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