John Walker & Sons The Celebratory Blend

O que dizer sobre a Johnny Walker que já não tenha sido dito um milhão de vezes de, possivelmente, todas as maneiras possíveis?

Uma marca que é um milagre e uma maldição ao mesmo tempo. Seu Black Label, por exemplo, continua um clássico sólido até hoje, por outro lado ainda é um Black Label, um whisky que conscientemente eu não compraria nunca mais: se é para aumentar o nível do pequeno oceano de whisky que tenho em casa, com certeza investiria, e invisto, em rótulos e destilarias que estão anos luz de distância da garrafa quadrada de rótulo torto – mesmo assim tenho sempre ao menos duas garrafas dele em casa, uma aberta e uma fechada. Milagre e maldição.

Sendo assim, sem nada de novo para dizer, vamos viajar para 2020, ano em que a Johnnie Walker estava comemorando os 200 anos desde que John Walker abriu as portas de sua pequena mercearia na zona rural da Escócia, um início discreto para algo que se tornaria um império do whisky escocês.

Claro que isso pode ser entendido também como “a Johnnie Walker arranjou outro motivo para lançar mais uma série de garrafas comemorativas colecionáveis e ‘limitadas’ para inundar o mercado”.

E foi o que aconteceu. Suas garrafas de Red, Black, Gold e Blue Label ganharam roupagens novas e foram criados 3 novos whiskies para não deixar a data passar em branco:

– John Walker and Sons The Celebratory Blend

– Blue Label Legendary Eight

– John Walker & Sons Bicentennial Blend.

Eu sei que neste ponto muitos de vocês devem estar se perguntando: “até aí tudo bem, mas qual o ponto de parar para escrever sobre esses whiskies?” e eu entendo. Blends, alguns com um preço que chega a ofender o bom senso, mas nada profundamente complexo.

O próprio Jim Beveridge – o master blender responsável pela Johnnie Walker pelos últimos 20 anos, aposentado em 2022 – afirmou que “a chave para entender as diferenças [entre seus whiskies] é pensar nas ocasiões em que você os bebe. Red Label é mais para ocasiões de alta energia com muito gelo ou misturado com algo, Black Label é mais contemplativo, puro ou com gelo. Blue Label é para coisas como celebrar o sucesso ou compor músicas com os amigos” e completou “é muito melhor vê-los assim do que da perspectiva dos preços. Faz mais sentido”.

De fato, uma pessoa normal simplesmente beberia um JW sem perder muito tempo pensando o que tem no copo, então por que escrever sobre algum deles?

Simples: aqui não somos normais, nós bebemos blends de mercado em taças glencairn para tentar fazer a engenharia reversa da bebida.

Isso dito, voltemos para: a marca parece se aproveitar de qualquer coisa para promover seus whiskies, sejam seriados como Game of Thrones ou La Casa de Papel, sejam feriados aleatórios como o lançamento do Jane Walker no dia das mulheres, seja qualquer coisa. Mas às vezes…

Me lembro quando lançaram o Johnnie Walker Blade Runner Director’s Cut em parceria/homenagem com o filme Blade Runner 2049, aquela garrafa me assombrou. Basicamente um Black Label, com 49% abv – em homenagem à data do filme – lançado em uma série limitada de “apenas” 39.000 garrafas disponíveis em “apenas” 15 países escolhidos a dedo.

No Brasil claro, ela chegou a preços ridículos no mercado paralelo, você pode clicar aqui para ver o quanto chegaram a pedir por ela no Mercado Livre.

Nunca o bebi e sigo na curiosidade, o que um Black Label com 49% tem para mostrar? 9% a mais de whisky significa 9% a menos de água. Mais sabor, complexidade e tudo aquilo que buscamos quando mergulhamos em um copo.

Enfim, quando vi o lançamento do Celebratory Blend a mesma dúvida – ou compulsão, se preferir – pareceu despertar. O que um JW, com 51% desta vez, teria para mostrar?

O Storytelling é interessante, quase cativante.

Ele é inspirado pelos sabores encontrados nos livros de registro da loja de Walker, que estão nos arquivos da Diageo. Queríamos usar apenas whiskies que estivessem disponíveis para a família em 1860, para recriar os aromas da loja”.

Isso não chega a ser uma tarefa difícil já que a marca tem acesso ao estoque da Diageo que conta com mais de 10 milhões de barris maturando na Escócia, vindos de 28 destilarias de malte.

Além disso, supostamente, buscaram antigas receitas de whiskies e o lançaram com um abv semelhante ao que os whiskies criados por John Walker teriam. A própria garrafa é uma homenagem ao Old Highland Whisky – as primeiras versões de um Johnnie Walker criadas.

Tudo isso em mente, quando vi o preço recuei, mais de R$600,00 reais. Ouvia a voz de Beveridge na cabeça “é muito melhor vê-los assim do que da perspectiva dos preços. Faz mais sentido”. Para mim não fazia, caro demais para um blend NAS que se descrevia como “uma jornada sensorial, com notas de passas doces e especiarias sutis, que se desenvolvem em notas de nozes torradas e turfa suave, com uma finalização suavemente apimentada. Melhor servido puro ou com gelo.”

Mas fiquei rondando as gôndolas como um tubarão faminto esperando um nadador se cansar e, depois de alguns meses, fui recompensado, em uma promoção acabei abraçando a garrafa por pouco mais de R$300,00 – a faixa de preço de um Green Label.

Ok Jim, hora de celebrar

Agora uma pausa. Ao invés de simplesmente colocar as notas do whisky como fazemos em todos os posts, resolvi. Deixar este um pouco mais longo para descrever a experiência deste whisky, acho que vale a pena.

Ao tirar a garrafa da caixa a primeira decepção, não existe o “POP”, ela vem com um bico dosador de plástico que faz com que tenhamos a impressão de terem reaproveitado uma garrafa de Red Label e o pior: é daqueles que quando você tenta fechar fica girando eternamente em falso, como torneira de banheiro de rodoviária. Ao servir a dose vem a segunda má impressão, o copo se enche de bolhas, sua taça fica parecendo a jacuzzi de um Smurf que está preparando para relaxar.

Mas então, as coisas começam a mudar. O cheiro que sai da taça é o de frutas maduras, lembrando um abacaxi suculento. Os. Aromas são intensos, o doce típico dos JW, que lembram mel, não estão aqui, são mais definidos, é um aroma abaunilhado.

O blend parece de cara ser feito com whiskies jovens. Um ex-funcionário da indústria do whisky que tinha amigos na Diageo chegou a dizer que o principal single malt em sua composição é o Cardhu e o principal grain whisky é Port Dundas, se isso é verdade então este blend tem em sua composição whisky – de grãos – de pelo menos uma destilaria fantasma que fechou as portas e foi então demolida em 2011.

E então, do meio das frutas, surge a fumaça. Mas não a fumaça que esperamos ao pensar num whisky turfado equilibrado, doce e gentil. É uma fumaça “suja”, sulfurosa, como se você estivesse bebendo ao lado de um cinzeiro cheio de bitucas velhas de cigarro. Adorei, me lembrou muito o defumado da primeira versão do Green Label.

A surpresa veio mesmo depois de um tempo com o whisky na taça, o sulfuroso foi se desenvolvendo, dando mais nitidez às outras notas. A baunilha ganhou dimensões novas, lembrando favas. O abacaxi foi ganhando nuances azedas e cítricas, mostrando cascas de laranjas e então damascos. O abv de 51% foi um acerto maravilhoso.

Tudo isso, claro, em um mundo onde a maior proporção do blend é de grãos, então ele não chega a ser “intenso”, mas apimentado – e essa pimenta arde de forma rebelde, lembrando também canela.

Com o nariz longe da taça você mergulha em um mundo de açúcar de confeiteiro, conforme se aproxima percebe noz moscada, algo que poderia ser cardamomo e frutas – aqueles damascos começam a cheirar como damascos secos e frutas cristalizadas. Então a descrição da caixa começa a aparecer, as nozes e amêndoas, passas e até o cravo suave, tudo salpicado pelo cheiro de cinzas velhas e cercado pelo ardido de pimenta se você se aproxima mais da bebida.

Se esse era o aroma com o qual nos depararíamos ao entrar no mercado do Sr. Walker 200 anos atrás, devo dizer que essa experiência não seria nada desagradável.

Tudo feito e anotado, resolvi deixar o whisky na taça por mais tempo, aquela curiosidade mórbida de “será que com a evaporação o ardido diminui e consigo pescar mais algo?”. Foi talvez a melhor decisão que tomei.

Mais 15 minutos na taça e o sulfuroso do whisky pareceu acordar. Notas que na hora podiam ser metálicas, ou mentoladas ou mesmo de guaraná estavam dominando o nariz, junto com aquelas notas sujas da fumaça. Na hora pensei no Craigellachie 13, mas foi apenas uma associação espontânea, eles são bem diferentes. Surgiram também algumas notas amanteigadas e oleosas – o próprio blend é bem oleoso, as gotas demoram a começar a escorrer pela taça e quando o fazem é de forma lenta.

Na boca, como acontece com a maioria dos blends, a experiência muda, aquilo que percebemos no nariz parece mais diluído e aguado, mesmo assim surpreende. O ardido picante continua, mas também o doce das frutas. As especiarias também e um leve metálico dão uma dimensão a tudo que foge do doce sem graça de outros rótulos da marca. Depois do primeiro gole sua boca se enche de baunilha e metal e um amadeirado que vai se tornando amargo lentamente.

John Walker & Sons The Celebratory Blend

Categoria: blended whisky
País: Escócia
Engarrafadora: John Walker & Sons (JW&S)
Idade: NAS
Barris: Sabe-se lá.
ABV: 51%
Filtragem à frio: sim
Corante: com certeza

Aromas:

Doce e frutado. Seu esfumaçado lembra cinzas apagadas. Abacaxi, casca de laranja e damasco. Frutas secas, amêndoas e passas surgem em um segundo momento, começa a ficar cítrico, levemente sulfuroso e bem picante.

Sabor:

Lembra bem os aromas, mas mais fracos e diluídos. Mesmo assim todos os elementos estão presentes. Continua doce, levemente esfumaçado e surgem suaves notas amadeiradas dos barris.

Finalização:

Média. Baunilha levemente metalizada e doce que começa a ficar amarga. Notas de madeira tostada que continuam e dão uma sensação azedinha, mas muito boa.

Nota: 83
Então ele é melhor do que um Caol Ila? Não. Esta é uma nota para um Blend, que é uma categoria completamente diferente de um single malt – além de ser destilado em alambiques diferentes, com matéria prima diferente. Não perca tempo comparando blends e single malts.
Quer detalhes sobre as notas? Clique aqui.

Conclusão

Ahhhh. se todo Johnnie Walker fosse assim.

Mas, sendo sincero, a JW é rainha absoluta no mercado de scotch, seu público é formado por pessoas que já consomem em massa os rótulos que existem no mercado hoje, então não há porque perder tempo se lamentando “oh… se ao menos o abv fosse maior”, “ah… se ao menos aumentassem a porcentagem de malte no blend”. Empresas como a Compass Box estão ai justamente para preencher esse espaço de blends mais diferenciados e interessantes.

Justamente por isso, esses lançamentos da JW podem ser interessantes, de vez em quando aparecem alguns engarrafamentos especiais que mostram o que eles conseguem fazer com os whiskies que têm à mão e surpreender.

Mas esse whisky vale o preço? E o custo benefício? Não é melhor investir em um Green Label? Eu teria ficado puto se tivesse pago R$500, R$600 ou mais na garrafa, mas com o preço da promoção – abaixo dos R$400,00 – se tornou uma experiência interessante, a de achar um JW blend que rivalize com alguns rótulos de outras engarrafadoras – como o Great King Street Glasgow Blend da Compass Box.

2 comentários sobre “John Walker & Sons The Celebratory Blend

  1. Poxa Vida meu nobre amigo Steveauxxx! Talvez este seja um dos melhores artigos já produzidos para falar de um whisky e principalmente um Blended: Teve história Atemporal, descrição sensorial completa com oscilação entre as camadas, mudanças com o tempo na taça, correlação naso-bucal e surpresas… Desse jeito fica difícil manter o nível para os próximos, mas é aí que vemos como vocês são inteligentes! Parabéns eu sou Seu Fã!

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