Glenlivet: 4 em 1

Glenlivet

A melhor coisa de uma degustação é quando, além de poder comparar diferentes rótulos, conseguimos aprender algo sobre whisky.

Apesar de sabermos que ele é uma bebida alcoólica e que seu ABV varia de 40% até a graduação máxima que se consegue tirar de um barril – lembrando que ao sair do alambique o whisky tem em média 70% abv e geralmente é embarrilhado a 63.5%, salvo excessões.

Como existem essas variações de graduação alcoólica, perguntamos qual a influência que ela pode ter no whisky.

O álcool é como a espinha dorsal que mantém o whisky unido, mas é muito difícil desconstruir o papel do álcool, separando-o de todas as outras influências como o processo de envelhecimento e o tipo de barril.

A cromatografia gasosa pode identificar vários congêneres (compostos de sabor) no single malt, mas não temos como apontar isoladamente qual a influência dele ou dizer como um determinado single malt pode ser percebido pelo paladar.

Sabemos que a maior taxa de extração dos compostos da madeira do barril ocorre nos primeiros dois anos de maturação, depois disso o ritmo da extração diminui. O teor alcoólico geralmente cai 0,5% ABV ao ano, então em 12 anos o teor alcoólico de um whisky pode cair cerca de 6% ABV e mais compostos solúveis em água começam a ser extraídos.

Sandy Hyslop, mais conhecido como o master blender por trás da Ballantine’s, Glenlivet e Chivas Regal, já disse que “quanto maior o teor alcoólico, menos nuances você capta, pois são mascarados pela intensidade do álcool. Pegue o Aberlour A’bunadh, por exemplo, ele começa como um de bolo de frutas, passas e panetone, mas conforme você o dilui, apesar de permanecer o mesmo whisky, há uma mudança de espectro de aromas e sabores, você obtém mais especiarias, como gengibre e geléia de laranja. Com um abv mais baixo, você também pode apreciar notas sutis de nozes e carvalho, em comparação a notas de carvalho seco em um ABV mais alto”.

O assunto de whiskies com ABV mais alto entregando mais sabores já é antigo e, mesmo sabendo que Hylsop tem uma quedinha por blends, achei interessante comparar alguns whiskies do portfólio dele para ver, entre outras coisas, se um ABV mais alto faria a diferença.

Já escrevemos sobre a história da destilaria Glenlivet aqui na academia. Hoje vamos falar brevemente sobre o processo de produção dos seus whiskies e fazer um comparativo de quatro dos seus rótulos mais conhecidos, três deles com importação oficial para o mercado brasileiro.

Atualmente a Glenlivet ocupa o posto (empatada com a Glenfiddich) de destilaria com a maior capacidade produtiva de toda a Escócia: 21 milhões de litros anuais. Para fins de comparação, a terceira colocada (Macallan), consegue produzir cerca de 15 milhões e destilarias de porte médio, como por exemplo Highland Park e Laphroaig, ficam na casa de 3 milhões de litros.

A destilaria expandiu drasticamente sua capacidade desde 2009. Em 2018 foi construída uma segunda destilaria ao lado dos seus armazéns e agora ela conta com nada menos do que 14 pares de alambiques. Alambiques esses que, com pescoços bem altos e uma constrição na sua base, além de Lyne Arms horizontais e curiosamente longos, produzem um destilado bastante leve e com características florais. Justamente o estilo clássico de Speyside que deixou a destilaria famosa lá no século 19 e que rompeu com os whiskies mais pesados que eram prevalentes na época.

Glenlivet 4 em 1

Atualmente a Pernod Ricard traz com regularidade para o nosso país três rótulos da destilaria Glenlivet: Founder’s Reserve, 15 e 18 anos. À esses vamos juntar um quarto rótulo, o Glenlivet 12 Illicit Still que, desde o seu lançamento em 2020, vem recebendo muitos elogios.

O Founder’s Reserve é uma versão NAS (sem idade declarada) que substituiu o 12 anos em alguns mercados, maturado em barris de Carvalho Americano ex-Bourbon de primeiro e segundo enchimento. O 15 anos é maturado em barris de Carvalho Americano ex-Bourbon e, parte dele, finalizado em barris virgens de Carvalho Francês. Já a maturação do Glenlivet 18 ocorre em uma mistura de barris de Carvalho Americano de primeiro e segundo uso e barris ex-Sherry, numa proporção não especificada. O Glenlivet 12 Illicit Still não tem sua maturação divulgada pela destilaria, mas o que importa aqui não é isso, mas sim a sua apresentação: 48% de graduação alcoólica, sem filtragem à frio.

Vamos descobrir como eles se saem lado a lado e se a diferença de ABV melhora o whisky ou causa uma cacofonia de aromas e sabores?

Glenlivet Founder’s Reserve

Categoria: single malt
Região: Speyside
Idade: NAS
Barris: Carvalho Americano ex-Bourbon
ABV: 40%
Filtragem à frio: sim
Corante: sim

Aromas

Cítrico, floral e baunilha. Tem algum aroma de whisky jovem, mas não de maneira desagradável. Uma leve sensação refrescante, mentolada. Pêra, maçã verde, ligeiramente maltoso.

Sabor

Bem leve e floral. Começa bem doce, com caramelo e baunilha e depois fica um pouco mais amargo.  Cítrico e frutado que lembra pêra.

Finalização

Curta e sem grandes evoluções, porém agradável. Baunilha, um pouco de pimenta.

Nota: 77
Um whisky ok, okayzinho, nhé.
Quer detalhes sobre as notas? Clique aqui.

Glenlivet 15 French Oak Reserve

Categoria: single malt
Região: Speyside
Idade: 15
Barris: Carvalho Americano ex-Bourbon finalizado parcialmente em Carvalho Francês virgem
ABV: 40%
Filtragem à frio: sim
Corante: sim

Aromas

Aroma bem interessante. Mais denso, com as notas florais e frutadas complementadas por notas amendoadas, bastante especiarias (principalmente canela) e mel. Aqui as frutas lembram frutas em calda ao invés de frutas frescas.

Sabor

Madeira. Aqui a sutileza do destilado fica apagada. Pimenta, especiarias, um dulçor inicial que me remete à bala de café. Fica progressivamente mais seco e amargo. Desequilibrado.

Finalização

Curta e seca. Madeira e nada mais.

Nota: 75
Pelo menos a garrafa desse whisky é bonitinha.
Quer detalhes sobre as notas? Clique aqui.

Glenlivet 18 Batch Reserve

Created with RNI Films app. Profile ‘None’

Categoria: single malt
Região: Speyside
Idade: 18
Barris: Carvalho Americano ex-Bourbon e ex-Sherry
ABV: 40%
Filtragem à frio: sim
Corante: sim

Aromas

Elegante. Frutado e vínico. Mel, especiarias, levemente amadeirado. Baunilha.

Sabor

Bastante frutado, maçãs, laranjas, aqui lembrando frutas bem doces e maduras. Mel, caramelo, especiarias. Delicado.

Finalização

Média. Frutada e com especiarias. Agradável.

Nota: 82
Ótimo presente de Natal ou dia dos pais – se quem for receber não for exigente.
Quer detalhes sobre as notas? Clique aqui.

Glenlivet 12 Illicit Still

Categoria: single malt
Região: Speyside
Idade: 12
Barris: Carvalho
ABV: 48%
Filtragem à frio: não
Corante: sim

Aromas

Muito floral e frutado. Aromas de pêra, melão, frutas cítricas, abacaxi. Mel, notas maltosas e um pouco de baunilha.

Sabor

Doce, frutado, mel. Uma textura extremamente agradável, cremoso. Maçã, melão, abacaxi. O frutado depois dá lugar à leves especiarias como gengibre e pimenta.

Finalização

Média para longa. Mel, cereal, frutas. Sem nenhum amargor. Surpreendente.

Nota: 85
Um whisky básico que assusta por ser tão bom.
Quer detalhes sobre as notas? Clique aqui.

Considerações

O Glenlivet Founder’s Reserve é um whisky bem simples, quase inofensivo, mas bastante agradável. Não apresenta grande complexidade, porém é bem competente no que tem a oferecer. Um whisky leve, floral, fácil de beber. Apresenta uma certa juventude, mas que não chega a incomodar, dá até uma certa sensação de refrescância que lembra algo mentolado. Ajustadas as expectativas é um bom whisky de entrada.

Já o Glenlivet 15 French Oak Reserve, o irmão do meio, se apresenta como um whisky mais sóbrio. Mostra algumas notas olfativas de whiskies mais maturados, de frutas mais maduras e especiarias. Mas no paladar ele cai feio: a influência do Carvalho Europeu virgem domina o destilado leve e floral da Glenlivet, ficando desequilibrado, muito adstringente e amargo. Talvez fãs de carvalho virgem (que não é o meu caso) consigam apreciar mais esse whisky.

O Glenlivet 18 Batch Reserve (o que esse nome significa, exatamente?) tem o perfil típico de um whisky de Speyside bem maturado. É elegante, frutado, vínico. Lembra um bolo de especiarias com frutas secas e mel. Mas acaba ficando um pouco genérico e, principalmente, frustrante por causa da textura aguada que a baixa graduação alcoólica traz. É um whisky extremamente equilibrado, mas que não me dá vontade de revisitar tão cedo.

Agora o Glenlivet 12 Illicit Still, que whisky! O aroma lembra uma salada de frutas com mel, extremamente convidativo. Os aromas doces saltam da taça e em boca fica melhor ainda. A graduação alcoólica elevada deixou esse whisky com um excelente corpo, mas sem perder as característica florais e delicadas da destilaria. Certamente os 48% de abv foram um acerto da destilaria. Mas a maturação aqui também parece ter sido um acerto. Apesar de não ter encontrado essa informação, creio que a predominância aqui seja de Carvalho Americano ex-Bourbon, que pra mim é a maturação que mais combina com o estilo da destilaria, complementando o whisky e não dominando tudo.

Resumo da ópera

O álcool de fato faz uma grande diferença aqui, até 3 anos atrás o 18 anos era vendido com o abv de 43%, não muito maior, mas que dava mais intensidade à bebida.

Claro que não estamos comparando a linha da Glenlivet com outros whiskies Cask Strength ou com abv superior a 50%, mas enquanto o mercado costuma ter garrafas de 43% e até mesmo 46%, a destilaria continua insistindo nos eternos – e brochantes – 40% em seu core range.

Nesse universo do abv mínimo permitido, o Founder’s Reserve e o 18 são whiskies que cumprem muito bem uma proposta, de ser whiskies agradáveis e fáceis de beber. O 15 tentou algo diferente mas, mesmo tendo tentado diversas vezes gostar dele, não consegui. Já o 12 Illicit Still é um whisky tão interessante que chega a dar raiva da destilaria por nos mostrar que conseguem produzir whiskies excepcionais, mas escolhem não fazer isso, acredito que é por isso que depois de passar por seus rótulos principais, muitos entusiastas tiram essa destilaria de seu radar.

Talvez agora que a Glenlivet tem uma produção gargantesca, Hyslop e companhia poderiam pensar em versões do core range com o abv mais alto, basta lembrar que abaixar o abv de um whisky é fácil e cria uma experiência interessante, mas subir o abv do whisky é praticamente impossível.

3 comentários sobre “Glenlivet: 4 em 1

Deixar mensagem para Celio Almeida Cancelar resposta