A ideia deste texto não é descobrir quando, onde ou como o whiskey irlandês surgiu, mas entender sua importância histórica. Se esqueça de árabes que faziam perfumes ou monges cruzando a Europa, a história do uisce beatha é bem mais interessante do que isso.
Já no século XVII a rainha Elizabeth I era fã da bebida e Pedro o Grande, Czar da Rússia no século XVIII, chegou a afirmar que “de todos os vinhos, o destilado Irlandês é o melhor!”
Grande parte dos registros históricos da época tem a ver com taxação e controle da fabricação e consumo do whisky. Quando os Tudor se estabeleceram na Irlanda, a lei inglesa começou a substituir a lei nativa irlandesa. a Coroa inglesa precisava de novas maneiras de arrecadar fundos e estava ansiosa para se aproveitar das reservas oferecidas pelo novo território e a venda de licenças para produzir whisky começaram a ser concedidas.
Em 1605, haviam destiladores licenciados, pagando os devidos impostos, em muitas áreas de Galway, Munster, Leinster e Ulster. Naquela época, era prática comum a Coroa arrendar os direitos, ou privilégios, de uma determinada atividade, como a produção de cerveja ou whisky: por uma determinada taxa o titular do privilégio tinha autorização para realizar tudo o que fosse permitido pela área de sua licença por um período de, geralmente, sete anos.
A destilação doméstica permaneceu legalizada até 1607, a partir de então, apenas os donos de privilégios comprados a podiam fazer. Em meados do século XVII o sistema de privilégios estava tão corrupto que ameaçava entrar em colapso. A Coroa teve que inventar uma nova maneira de conseguir continuar recebendo dinheiro e o conceito moderno de imposto de consumo nasceu.
Em 1661 o imposto especial de consumo sobre o whisky nascia, juntamente com duas novas bebidas: Whisky do Parlamento, pago com impostos, e o whisky sobre o qual nenhum imposto havia sido pago, este segundo tipo ficou conhecido como poteen.
O whisky irlandês acabou se popularizando na Grã-Bretanha e em suas colônias durante os séculos XVIII e XIX, os registros na Câmara dos Comuns da Irlanda mostram que em 1779 havia mais de 1152 destilarias na Irlanda.
Claro que grande parte eram destilarias ilícitas e o governo não curtia esse tipo de coisa. Para mostrar sua insatisfação impostos foram aumentados e criou-se uma maior vigilância e controle sobre a destilação. Em 1823 inventaram ainda um novo sistema de impostos. O início do século XIX viu um crescimento sem precedentes na produção de whisky irlandês, de 40 destilarias oficiais em 1823 para 86 em 1840 – na Escócia, neste período, o número de destilarias oficias pulou de aproximadamente 20 para 44.
A demanda pelo whisky crescia e o aumento de renda que isso causava, além da disponibilidade de energia a vapor, fez com que surgissem mais destilarias e alambiques cada vez maiores. Em 1823, o maior pot still tinha capacidade para 190 litros, em 1867 a Destilaria Midleton tinha o maior alambique do mundo com capacidade de 8.300 litros.
Havia também uma variedade de processos de produção – um, dois ou três alambiques – e diferentes tipos de produtos – malte, malte turfado, produtos que usam porcentagens variáveis de malte e cereais não maltados.
Foi nesta época, durante os séculos XVIII e XIX, que as indústrias de whisk(e)y da Irlanda e Escócia estiveram mais próximas, com um grande número de pessoas trafegando entre as indústrias dos dois países – inclusive alguns proprietários possuíam destilarias em ambos.
Mas o que parecia ser um mercado que cresceria para sempre entrou no século XIX e um império começou a ruir.
Os escoceses continuavam a fazer seu whisky usando cevada maltada, frequentemente turfada, destilada em pot stills, mas surgiu uma novidade no mercado: o alambique contínuo, ou Coffey Still (patenteado por Aeneas Coffey, um irlandês, em 1830). Esse novo alambique produzia whisky em quantidades monstruosas a um custo extremamente mais baixo – mas era um destilado quase sem gosto.
Os irlandeses não gostaram da novidade e continuaram a produzir seu destilado como sempre fizeram. Na Escócia começava a surgir o blended whisky, a mistura do novo whisky sem gosto com os single malts. A Irlanda acabou cedendo e criou instalações em grande escala em Belfast, Dundalk e Derry. A destilação tradicional em alambiques, cada vez maiores, também continuou. A receita ainda era uma combinação de malte e cevada não maltada assim como alguns outros cereais não maltados, a aveia por exemplo. A maioria das destilarias na. Irlanda adotando e aperfeiçoando a tripla destilação.
Com uma visão histórica tão rápida pode parecer que apesar das diferenças de método de produção de whisk(e)y, ambos os países seguiam seu dia a dia destilando seus espíritos em paz, mas um olhar mais próximo mostra que esse não era o caso.
Assim que o Coffey Still começou a ser usado na Escócia, a Irlanda começou uma série de propagandas contra ele, com o passar do tempo elas começaram a ficar mais agressivas e culminaram na publicação, em 1878, do livro Truths about Whisky – As Verdades sobre o Whisky.
Dublin possuía seis destilarias nesta época, quatro das quais, Messrs John Jameson & Sons, William Jameson & Co, John Power & Son e George Roe & Co, tinham uma capacidade combinada de produção de cerca de 19 milhões de litros de whisky por ano – no final do século XIX, 40% da força de trabalho de Dublin era empregada pela indústria de destilação e fabricação de cerveja e seus fornecedores relacionados. O Truths about Whisky era, essencialmente, uma diatribe contra os ‘males’ da coluna de destilação contínua, encomendada por essas quatro destilarias.
As empresas de Dublin, que destilavam usando Pot stills, estavam determinadas a mostrar ao mundo que apenas a sua produção era digna de ser chamada de whisky – usando a grafia sem um ‘e’ que eles próprios usavam.
Sua definição essencial de whisky era “… um espírito destilado feito de malte ou milho não maltado, de cevada ou aveia, ou malte, ou de uma mistura deles, em um assim chamado pot still, que resulta em um espírito uma variedade de aromas e outros ingredientes dos grãos”.
Mas eles não estavam sozinhos nessa “disputa”. No início dos anos 1900 os destiladores de malte escoceses também assumia uma posição defensiva semelhante à de seus colegas irlandeses, já que o suprimento de bebidas alcoólicas superava em muito a demanda e toda a indústria de whisky escocês enfrentava tempos difíceis.

Essa briga resultou na on Whiskey and other Potable Spirits de 1908, que no ano seguinte emitiu um relatório onde concluiu que o blended whisky ainda poderia ser chamado de whisky. Curiosamente, a Comissão soletrou whiskey no título de seu relatório com um “e”, mas o relatório oficial que o governo britânico apresentou ao parlamento soletrou whisky sem o “e”.
Os Irlandeses haviam perdido a batalha e resolveram então a soletrar o whiskey com a letra “e” para diferenciar o seu produto daquele feito pelos concorrentes escoceses. Nascia o WHISKEY Irlandês oficialmente. A prática, porém, não era uniforme.
Muitos destiladores irlandeses, especialmente os produtores regionais menores, continuaram com a ortografia convencional “whisky”. A Paddy, na época uma marca regional de uísque em Cork, não mudou para a grafia irlandesa de whiskey até a década de 1960.
Mas a perda pelo direito de ter a sua bebida considerada como o único whisky legítimo não foi o último golpe na Indústria irlandesa.
De maneira resumida o whisky irlandês teve que enfrentar o Movimento de Temperança – que atingiu duramente a Irlanda – seguido pela Grande Fome – que dizimou as plantações, a população e a economia. A isso se seguiu a Primeira Guerra Mundial, o Levante da Páscoa, a Guerra de Independência da Irlanda – e restrições à exportação – a Lei Seca na América – seu maior mercado de exportação -, a Guerra Civil Irlandesa, a Guerra Comercial Anglo-Inglesa – onde foi essencialmente bloqueado nos mercados da Commonwealth – e a Grande Depressão.
No final da década de 1930, cada item desse índice de desgraças era como um novo prego no caixão da indústria irlandesa de whiskey. Apenas um punhado de destilarias foram deixadas abertas, em 1966, o número de destilarias operando na Irlanda havia caído para quatro.
Sob pressão do Estado irlandês, esse número passou para dois, quando as destilarias Jameson, Powers e Cork se fundiram para formar a Irish Distillers, então conhecido como United Distillers of Ireland – em 1977, a destilaria Bushmills tornou-se parte do grupo.
No entanto, a maré começou a virar quando, em 1975, uma nova destilaria foi encomendada pela Irish Distillers em Midleton, Cork, operando tanto com pot stills e alambiques de coluna, a New Midleton Distillery.
Em 1987, a Destilaria Cooley foi fundada e, em 1989, a Irish Distillers foi adquirida pela empresa francesa Pernod Ricard. A industria, nos últimos tempos, passou por novas mudanças com a marca Tullamore Dew sendo comprada pela C&C em 1994 e posteriormente pela William Grant & Sons em 2010.
Em 2005, a Diageo entrou em cena com a compra da destilaria Bushmills e em 2011 a americana Beam, Inc., comprou a Cooley Distillery e suas marcas.
A partir de 2020, o whiskey irlandês se tornou a categoria de bebidas destiladas que mais cresce no mundo, aumentando seu volumes em 140%, com as vendas globais disparando de 60 milhões de garrafas em 2010 para 144 milhões de garrafas em janeiro de 2020.
A Irlanda encerrou 2022 com 40 destilarias que, juntas, produzem mais de 100M de litros juntas, com mais de 3,5 milhões de barris amadurecendo seu Destilado por toda a ilha.
Quer se aprofundar?

Grande Mestre, ótimo texto (para um apaixonado por história). Eu destacaria o grande incêndio em Dublin – 18/06/1875 (the great Dublin whiskey fire), por ser um fato histórico na jornada do whisky na Inglaterra. Lembro de ter lido há algum tempo que por um período foi proibido armazenar whisky naquela região como resultado desse incêndio (não sei se um Dublin ou Liberties)… Enfim, não acho mais nenhuma referência a essa proibição. Sabe se ocorreu mesmo? Grande abraço. (Robson Ribeiro gastronomia).
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Salve Robson,
de fato o whisky fire é um ponto alto da história etílica (sem contar aquele rio de whisky com mais de 400 metros de. extensão e quase 15 cm de profundidade, cercado de pessoas com panelas, potes, jarros – e até botas – recolhendo e bebendo o destilado).
Eu ia responder antes, mas fui procurar alguma evidência de uma proibição de armazenamento na região, mas não achei nada.
Existem documentos que mostram que o fogo que o whisky causou acabou servindo para o desenvolvimento de um departamento de controle de incêndios muito mais efetivo do que os “bombeiros” que haviam na época, a criação de brigadas de incêndio, etc… mas nada de proibições.
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Andei mudando minha opinião sobre whisky irlandês após uma degustação… é um estudo de caso que vale a pena beber com mais profundidade. hehe
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Salve Tárcis,
Com certeza. A imagem que whiskies como Jameson (mesmo as versões de mais idade), bushmills, Teeling e até novidades como Writer’s Tears e Saxon deixam são meio horríveis de um “whiskey leve, fácil de beber e totalmente sem graça”.
Mas fugindo deles a Irlanda está produzindo whiskies cada vez mais geniais. Vale muito a pena ir atrás.
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mudei meu conceito de whisky irlandês, após a degustação de rótulos além do Jameson, estes whiskies tem o seu perfil e o seu valor.
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