Regiões Produtoras de Whisky

Você sabe o que são as regiões produtoras de whisky da Escócia?

A Escócia é dividida hoje em 5 (ou 6) regiões produtoras de whisky. A ideia que isso passa é que o whisky de cada região tem características, físicas e sensoriais, semelhantes, afinal se não fosse assim, por que tal divisão?

Tudo começou em 1784, quando a principal divisão do país era entre Highlands e Lowlands – as terras altas e baixas – que sofriam diferentes regimes de tributação aplicados à destilação. Como resultado as destilarias das highlands eram pequenas, escondidas e ilegais, nas lowlands prosperaram inundando a Inglaterra e o mundo com seus destilados.

Em 1823 criaram um imposto único para destilarias, o que fez com que elas brotassem oficialmente por todo o pais e na segunda metade do século XIX o Coffey Still foi responsável pelo nascimento dos blends.

Os blenders tinham como objetivo criar um Whisky de sabor consistente combinando vários whiskies de malte, que eram mais pesados ​​e robustos, com whisky de grãos, as receitas variavam com base na disponibilidade de single malts, mas o sabor tinha que permanecer o mesmo, assim começaram a agrupar maltes que poderiam ser trocados e substituídos.

Os registros do século XIX mostram que havia certas áreas populares para se conseguir os maltes e o whisky adquirido lá era registrado baseado em seu local de origem, como Islay ou Campbeltown, em vez do nome de destilaria que o produzia.

Na época em que Alfred Barnard, um dos primeiros escritores de whisky, visitou todas as destilarias do Reino Unido em meados da década de 1880, a ideia de agrupar single malts por local de origem estava aparentemente bem estabelecida, se não consistente. Barnard observou uma variedade de tipos de malte – Islay, Campbeltown, Highland, Lowland, até mesmo Strathisla e Mull.

Em seu World Guide to Whisky – “Guia Mundial do whisky” – de 1987, o. Escritor Michael Jackson montou sua própria organização de regiões para organizar os single malts que apresentava – tomando o cuidado de apontar que, embora algumas áreas possam ter várias destilarias produzindo whisky com características comuns, o modelo não pode ser aplicado uniformemente em todos os lugares.

A United Distillers & Vintners (UDV), predecessora do conglomerado de bebidas Diageo, pareceu gostar da ideia e, em 1988, lançou uma linha de seis single malts batizada de Classic Malts of Scotland, cada um selecionado de uma região diferente, claro que isso foi movido mais pelo marketing do que pela geografia, já que havia 3 whiskies das Highlands, nenhum de Campbeltown:

  • Glenkinchie (Lowlands)
  • Cragganmore (Speyside)
  • Lagavulin (Islay)
  • Dalwhinnie (Highlands)
  • Oban (West Highlands)
  • Talisker (Ilha de Skye, que tecnicamente é nas highlands)

Embora as regiões selecionadas tenham sido escolhidas com base em onde a UDV tinha destilarias, a ideia pegou e parece que todos adoraram começar a enxergar a Escócia como um país dividido em diferentes regiões produtoras de whisky.

O reconhecimento oficial dessa divisão veio em 2009 com a aprovação da nova Scotch Whisky Regulations, que dividiu a Escócia em 3 regiões e 2 localidades produtoras de whisky em seu 10º capítulo, que obviamente vamos colocar aqui para sua aprecição:


10. Indicações geográficas de localidade e região

(1) Um whisky ou bebida à base de whisky não deve ser rotulado, embalado, anunciado ou promovido de forma que inclua o nome de uma localidade ou região protegida, a menos que—

(a) no caso de whisky, o whisky seja um whisky escocês – scotch whisky – destilado naquela localidade ou região; ou

(b) no caso de uma bebida à base de whisky, o único whisky presente na bebida é o whisky escocês que foi destilado naquela localidade ou região.

(2) Mas o parágrafo (1) não se aplica nas circunstâncias especificadas no Anexo 3.

(3) Um whisky ou bebida à base de whisky não deve ser rotulado, embalado, anunciado ou promovido de forma que inclua qualquer referência a um nome semelhante ao nome de uma localidade protegida ou região protegida se, tendo em conta a apresentação do produto como um todo, a referência possa criar um risco de confusão por parte do público quanto ao local de destilação do whisky ou da bebida à base de whisky.

(4) Uma pessoa não deve rotular, embalar, anunciar ou promover qualquer whisky ou bebida à base de whisky de forma que viole o parágrafo (1) ou (3), ou vender qualquer whisky ou bebida à base de whisky que tenha sido rotulado ou embalado dessa forma.

(5) As localidades protegidas são—

(a) “Campbeltown”, compreendendo a região de South Kintyre do município de Argyll e Bute, uma vez que essa região faz parte da Ordem de Argyll e Bute (colégio eleitoral) 2006; e

(b) “Islay”, compreendendo a Ilha de Islay em Argyll.

(6) As regiões protegidas são—

(a) “Highland”, compreendendo a parte da Escócia que fica ao norte da linha que divide a região Highland da região Lowland;

(b)“Lowland”, compreendendo a parte da Escócia que fica ao sul da linha que divide a região Highland da região Lowland; e

(c) “Speyside”, compreendendo—

(i) os distritos de Buckie, Elgin City North, Elgin City South, Fochabers Lhanbryde, Forres, Heldon e Laich, Keith e Cullen e Speyside Glenlivet do município de Moray, pois esses distritos são constituídos na Ordem de Moray (colégio eleitoral) de 2006; e

(ii) a região de Badenoch e Strathspey do Highland Council, uma vez que essa região é constituída na Ordem das Highlands (colégio eleitoral) 2006.

(7) Neste regulamento, “a linha que divide a região das Highlannds da região das Lowlands” significa a linha que começa no Canal do Norte e corre ao longo da costa sul de Firth of Clyde até Greenock, e daí até a Estação Cardross, depois para o leste em uma linha reta até o cume de Earl’s Seat em Campsie Fells, e depois para o leste em linha reta até o Wallace Monument, e de lá para o leste ao longo da linha das estradas B998 e A91 até que a A91 encontra a estrada M90 em Milnathort, e depois ao longo da M90 em direção ao norte até a Ponte de Earn, e depois ao longo do rio Earn até sua confluência com o rio Tay, e então ao longo da costa sul desse rio e do Firth of Tay até chegar ao Mar do Norte.


Resumindo:

Obviamente, o que parecia ser a oficialização de uma ideia para organizar e resolver de uma vez por todas as discussões sobre as tais regiões do whisky, não foi o ponto final da conversa.

Além de sua área continental, penínsulas e Islay, a Escócia tem cerca de 800 ilhas, das quais 95 são habitadas por cerca de 100.000. Por mais que essas ilhas possam ser associadas às regiões continentais – oficialmente elas fariam parte das Highlands – elas não se encaixam muito bem nelas, assim criou-se uma sexta região “não oficial”: as ilhas, ou Islands. Essa nova “região” engloba Skye, Arran, Mull, Jura, Lewis e Orkney.

Alguns entusiastas a aceitam, outros não.

Mas e o whisky?

Ao invés de entrar no mérito dos diferentes climas e terrenos de cada região e como isso influenciaria o whisky vou propor uma experiência interessante:

Beba lado a lado uma dose de Benromach 10 anos, uma de Balvenie 12 anos e uma de Craigellachie 13 anos.

Spoiler: parecem whiskies de planetas diferentes embora suas destilarias sejam todas de Speyside.

Mesmo em Islay, famosa pela turfa, encontramos whiskies não turfados e estilos diferentes, faça um novo line up só que um pouco diferente: Bruichladdich Classic Laddie, Port Charlote 10 e algum Octomore de sua escolha.

3 whiskies completamente diferentes, mas todos da mesma destilaria de Islay.

Existem ainda algumas “aberrações” como a Macallan que se localiza em Speyside mas rotula seu Whisky como Highland Single Malt – e ela não é a única a fazer isso.

Terroir

Essa divisão de regiões ainda serve como combustível para outra discussão que parece nunca chegar a um consenso: whisky teria terroir?

Terroir é um termo que veio do mundo do vinho, uma palavra francesa sem tradução em nenhum outro idioma que significa a relação mais íntima entre o solo e o micro-clima particular, que concebe o nascimento de um tipo de uva, que expressa livremente sua qualidade, tipicidade e identidade em um grande vinho, sem que ninguém consiga explicar o porquê. Ou seja, uma série de fatores que faz com vinhos de uma mesma região tenham características semelhantes.

Com o whisky existem argumentos prós e contras dessa noção.

Em primeiro lugar vamos ver quantidade de destilarias em uma região: Islay, Campbeltown e as Lowlands tem poucos destilarias em relação às outras duas regiões. Além disso muitas delas próximas. Os whiskies, assim, parecem ter características semelhantes.

Mas vamos pegar o exemplo de Islay. Muitas destilarias usam malte vindo da mesma empresa e turfa da região. Acontece que a Kilchoman é exceção, eles plantam parte da própria cevada. A Bruichladdich é exceção, entre outras coisas sua turfa vem das highlands. Laphroaig é exceção, a Lagavulin, certa vez, montou uma mini Laphroaig em sua destilaria, copiando os alambiques, usando a mesma matéria prima, copiando os mesmos processos e, apesar se serem praticamente vizinhas, o whisky produzido era completamente diferente.

Outro exemplo: existem certas similaridades sub-reptícias entre os whiskies da Macallan (Speyside) e Highland Park (Highlands/Islands), mas isso provavelmente vem do fato de, por ambas fazerem parte do grupo Edrington, usarem barris do mesmo fornecedor – da Espanha.

Assim a ideia de Terroir é bem mais complexa do que simplesmente linhas imaginárias unindo destilarias.

No fim as regiões da Escócia funcionam mais como uma forma de organizar whiskies ou programar viagens às destilarias do que como forma de agrupar whiskies com um mesmo perfil, mas são um ótimo ponto de partida quando estamos começando a conhecer os single malts escoceses e não sabemos exatamente como começar: escolha uma região e saia explorando suas garrafas.

2 comentários sobre “Regiões Produtoras de Whisky

  1. Comece por Speyside e depois conheça os Guris. Aí a Escócia ficou muito grande!!! Um universo magnífico repleto de surpresas que farão suas escolhas preferidas oscilarem de tempos em tempos…

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