Houve uma época que, curiosamente, não se passava um mês sem ouvir alguém dizendo “você sabia que a palavra arigatô, em japonês, nasceu da palavra obrigado, em português, da época que os portugueses tinham negócios com os japoneses séculos atrás?”.
Não sei se algum Jô Soares ou alguma outra fonte pop de cultura citou isso em algum momento, mas era um comentário popular. Com o tempo ele sumiu, mas a informação pareceu se entranhar na mente das pessoas, comece a falar de palavras japonesas que se derivam de outras estrangeiras – kēki, por exemplo que se deriva do cake inglês – que alguém puxa o causo do arigatô da manga.
Na verdade, a palavra japonesa para “obrigado” é de origem japonesa mesmo, os registros mais antigos dela surgindo no “Kojiki” e “Nihon Shoki” – textos considerados as mais antigas fontes escritas da língua japonesa e datam do século VIII.
Originalmente a palavra era “arigatashi”, que significa “valor” ou “meritório”, que evoluiu para “arigatai” que expressa gratidão.
Mas essa confusão bem-intencionada é, de certa forma, um resumo das relações públicas do Japão com o mundo.
Durante muito tempo o Japão tinha um comércio ativo com países vizinhos, como a China e a Coreia, além de relações com nações ocidentais, como Portugal e Espanha, durante o século XVI – de onde recebeu influências culturais, como a introdução do cristianismo e o intercâmbio de conhecimentos científicos e tecnológicos.
Então veio a época em que o shogunato Tokugawa assumiu o controle do país, colocando o xogum Tokugawa Ieyasu como seu líder supremo. Esta época, 1603 a 1868, ficou conhecida como período Edo, quando o Japão foi governado por uma forma de governo militar conhecida como bakufu e a capital do país foi transferida de Kyoto para Edo – atual Tóquio.
Uma das ações do shogunato foi a instituição da política do Sakoku, que literalmente significa “país fechado” e estabeleceu restrições rigorosas ao comércio e aos contatos com o exterior.
Seu objetivo foi fortalecer o controle interno do país, preservar a estabilidade e evitar influências externas que pudessem perturbar a ordem social e política estabelecida pelo governo. As autoridades japonesas proibiram a saída de cidadãos japoneses do país e restringiram o acesso de estrangeiros ao Japão, fazendo algumas exceções muito limitadas. Apenas algumas rotas comerciais específicas, conhecidas como os “portos do comércio exterior” (Nagasaki, Hirado, Kagoshima), eram autorizadas a lidar com o comércio com países estrangeiros, principalmente a China, Holanda e Portugal. As atividades missionárias estrangeiras foram proibidas e o cristianismo foi perseguido devido a preocupações políticas e religiosas.
O período Sakoku finalmente chegou ao fim em 1853, com a chegada de um presente inesperado às terras do sol nascente.
A alvorada do whisky japonês
Era o ano de 1853 quando o whisky chegou ao Japão pela primeira vez. O Comodoro Matthew Perry, da Marinha dos Estados Unidos, visitou o país com o objetivo de persuadir o Bakufu Shogunate (governo feudal japonês) a abrir as portas – comerciais – de seu país para o mundo – Estados Unidos – e foi a bordo de seu navio que whisky foi servido aos oficiais japoneses.
No ano seguinte, Perry presenteou as famílias imperiais japonesas e seus auxiliares com um barril de whisky – existe uma pintura retratando o desembarque dos presentes trazidos podemos ver o dito cujo, à esquerda, logo abaixo daquilo que parece uma pequena locomotiva preta.

Não é possível dizer se o whisky foi um sucesso imediato, mas algumas pessoas que trabalhavam na indústria farmacêutica no Japão ficaram fascinadas com seu sabor e começaram a produzir bebidas com sabor de whisky adicionando essência artificial a destilados incolores.
Em 1918 entram em cenas três personagens:
- Kihei Abe, um empresário japonês
- Settsu-Shuzo Co. em Osaka, a empresa de bebidas de Abe
- Masataka Taketsuru, um jovem funcionário técnico
Masataka Taketsuru, o terceiro filho de uma família de produtores de saquê na cidade de Takehara, na província de Hiroshima, nasceu em 1894. Dos 3 filhos, apenas ele tinha interesse em tocar o negócio da família. Assim, ele decidiu estudar produção de saquê na Escola Técnica de Osaka, a única universidade do Japão a oferecer tal programa na época.
Mas não estamos sendo sinceros aqui, na verdade a verdadeira paixão de Taketsuru era o álcool produzido no ocidente, especialmente o whisky.
Assim, mesmo se preparando para trabalhar na indústria de bebidas ele estava com um certo dilema, adorava àlcool, amava whisky, mas estava destinado a trabalhar na empresa de saquê da família e pronto.
Para escapar dessa realidade, ele decidiu ingressar no serviço militar por um ano, para evitar a temporada de produção de saquê daquele ano, assim, teria alguns meses para experimentar a produção de bebidas alcoólicas ocidentais antes de retornar aos negócios da família.
Mas havia um probleminha em seu sonho. Embora houvesse se passado mais de 60 anos desde que o Japão tivera seu primeiro contato com o whisky, o país ainda não tinha uma indústria de bebidas alcoólicas ocidentais desenvolvida. Isso se devia, em grande parte, às baixas taxas sobre os whiskies importados, graças a um tratado com os Estados Unidos.
Além disso, a produção no Japão era limitada, eles simplesmente não tinham o conhecimento necessário para produzir algo além de imitações.
Foi então Taketsuru encontrou uma oportunidade tão única que nos dá a impressão de ter sido provocada pelas musas do whisky. Um de seus colegas de universidade, Kiichiro Iwai, que mais tarde se tornaria famoso pelo Mars Whisky, tinha conexões em uma Empresa chamada Settsu Shuzo.
Iwai-san havia desenvolvido um método para melhorar o sabor das imitações de whisky da empresa, removendo o odor alcoólico desagradável e, impressionado com a paixão de Taketsuru, Iwai-san o apresentou ao presidente da empresa, Kihee Abe, que o contratou imediatamente.
Na Settsu Shuzo, Taketsuru se destacou rapidamente e assumiu um papel de liderança na produção de bebidas alcoólicas ocidentais. Foi lá que ele conheceu Shinjiro Torii, fundador da Kotobukiya, empresa que tinha contratos com a Settsu Shuzo para produzir seus primeiros produtos. Embora os rótulos levassem o nome da Kotobukiya, era a Settsu Shuzo que produzia o líquido dentro das garrafas. A relação entre Taketsuru e Torii, e o posterior desentendimento entre eles, teriam um impacto significativo na história do whisky japonês nas décadas seguintes.
Taketsuru foi então enviado para a Escócia em 1918 a fim de aprender as técnicas de produção de whisky escocês e, após receber treinamento em diversas destilarias – Longmorn e Hazelburn entre elas – retornou ao Japão em 1920, apenas para descobrir que a Settsu Shuzo havia abandonado seus planos de produzir whisky no Japão.
Por uma dessas coincidências da vida, na mesma época, Shinjiro Torii, o fundador da Suntory Holdings, Ltd. – uma curiosidade, o nome se deriva de Torii san, apenas invertendo as palavras e tirando o “ï” repetido do nome do fundador e substituindo o “a” por um “u” – estava considerando lançar um negócio de whisky no Japão. Era um momento em que o povo japonês estava começando a aceitar a cultura ocidental, e Shinjiro Torii previa que o whisky logo se tornaria popular em seu país.
Quando decidiu construir a sua destilaria de whisky, ele inicialmente planejou convidar um especialista em whisky da Escócia para vir ao Japão. No entanto, ao saber que Taketsuru havia retornado recentemente, depois de já ter aprendido tudo o que havia para se aprender sobre a produção de whisky na Escócia, Torii o contratou e escolheu Yamazaki como o local para construir a destilaria. A primeira destilaria japonesa – Suntory Yamazaki Distillery – foi inaugurada em novembro de 1924 – sete décadas depois da chegada do Comodoro Perry.

Torii começou a vender o primeiro whisky produzido no Japão, o Shirofuda – literalmente “Rótulo Branco” – em 1929. Infelizmente, não teve um bom desempenho, pois, de modo geral, o povo japonês naquela época não apreciava o sabor defumado – característico de alguns whiskies escoceses – presente no Shirofuda. Após inúmeros testes de degustação, foi decidido que o que os japoneses desejavam era um whisky saboroso, com menos defumação. Torii criou um novo blend, o Kaku-bin, que foi lançado em 1937 e bem recebido no mercado.
Após cumprir seu contrato de 10 anos com a Suntory, Taketsuru mudou-se para Hokkaido e abriu a Destilaria Yoichi. Ele acreditava que o clima da ilha se assemelhava muito ao da Escócia. O primeiro whisky produzido em sua destilaria foi destilado em 1936.
Se antes da Segunda Guerra Mundial o povo japonês começava aceitar a cultura e o estilo de vida ocidentais, em 1945 com o fim da guerra, ele os celebravam e o whisky se tornou um símbolo desse blend cultural. O crescimento do desejo de adotar a cultura ocidental se refletiram no aumento das vendas do destilado.
Por volta de 1965, o mizu-wari – whisky misturado com gelo e água – foi aceito como uma bebida adequada para acompanhar pratos japoneses. Ao mesmo tempo surgia uma nova mania nos bares. Servir bebidas uns aos outros é um costume japonês e os estabelecimentos tiveram a ideia de, ao invés de pagar por dose, os clientes podiam comprar a garrafa de whisky para compartilhar, bastava escrever o nome na garrafa e o bar a guardava para a próxima visita.
O mizu-wari e o sistema de “guardar a garrafa” contribuíram muito para o aumento do consumo de whisky.
O mercado de whisky japonês manteve um crescimento constante até 1983, impulsionado por estratégias de marketing habilidosas. Em todo o Japão, bares de whisky serviam highballs – whisky misturado com bebidas gaseificadas – no verão e oyu-wari – whisky misturado com água quente – no inverno.
O Whisky Loch Japonês
E então, a partir de 1983, o whisky japonês literalmente começou a afundar. Novamente entram em cena três personagens:
- O whisky loch escocês, você pode ler mais sobre ele aqui
- Altos impostos cobrados pelo governo japonês sobre o whisky produzido no país
- Shochu
De novo, vamos dar um moonwalk.
Shochu é um destilado japonês com teor alcoólico que varia entre 25% e 45%. É feito através da fermentação e destilação de ingredientes como batata-doce, arroz, cevada, trigo ou açúcar mascavo. Sua história remonta ao século XVI, quando monges budistas começaram a produzi-lo em templos para uso medicinal. Ao longo dos séculos, o shochu evoluiu e se tornou uma bebida popular entre os agricultores e pescadores locais e, com o tempo, diferentes regiões do Japão desenvolveram suas próprias variações de shochu, cada uma com características únicas.
Imagine o que a caipirinha faz pela indústria da cachaça aqui no Brasil, o Highball fazia o mesmo pelo whisky. Em 1980 a popularidade do shochu cresceu muito por causa do do chu-hai, um tipo de highball que usava shochu como base. Além disso ele é uma bebida mais doce que atraia muito o público mais jovem
Em paralelo, revisões consecutivas da legislação de impostos sobre bebidas alcoólicas em 1981 e 1984 resultaram em um aumento de mais de 25% no preço do whisky japonês.
E, finalmente, houve o whisky loch escocês.
No Japão, os cortes na indústria do whisky foram, em certa medida, consequência dos aumentos significativos de impostos sobre o whisky nacional. Agora imagine adicionar a isso o excesso de oferta de whiskies escoceses e irlandeses baratos que inundaram o mercado japonês causada por empresas que haviam sofrido redução de suas principais áreas consumidoras, principalmente nos Estados Unidos – para saber sobre o que estamos falando, clique aqui.
Em uma tentativa desesperada de evitar o fechamento de destilarias na Escócia, o whisky foi oferecido a preços altamente competitivos – fuck! ele era praticamente despejado no Japão. Essa “estratégia”, combinada com o prestígio ainda atribuído às bebidas importadas, foi como um prego no caixão da indústria doméstica no Japão.
A ironia, é claro, é que essa tática não funcionou. Na verdade, só gerou mais problemas. Além de não evitar o fechamento de destilarias na Escócia, ela resultou no encerramento de locais de produção no Japão, como Kagoshima e outras.
Curiosamente, como na Escócia, o preço pelo whisky produzido por essas destilarias que fecharam chega a patamares astronômicos hoje em dia. Em março de 2020 uma garrafa de um Karuizawa de 52 anos atingiu o valor de £363,000 em um leilão da Sotheby’s em Londres.

Apesar das tentativas de equilibrar as disparidades fiscais entre shochu e whisky em 1989 e 1998, a impopularidade do whisky japonês entre os consumidores japoneses persistiu e seu consumo continuou a cair até 2008.
A Fênix renasce
Apesar do ambiente desafiador, as empresas de whisky continuaram seus esforços de marketing e pesquisa e desenvolvimento, o que resultou em um aumento sólido no consumo de single malts nacionais a partir de cerca de 2005 e ajudou a redirecionar gradualmente os consumidores de volta ao consumo de whisky.
Mas um pouco antes disso Hollywood deu uma mãozinha nesse impulsionamento. Em 2003 foi lançado o filme Lost in Translation – Encontros e Desencontros – de Sofia Coppola. Nele Bill Murray interpreta o ator Bob Harris, contratado pela equipe da Suntory para promover seu whisky.

Gardner Dunnn, embaixador da Beam Suntory, disse que quando Encontros e Desencontros foi lançado nos cinemas, “todo mundo nos Estados Unidos pensava que [Suntory] era uma empresa fictícia, as pessoas achavam que era um nome criado para o filme”
Mas a frase de Bill Murray pegou. Dunn se lembra que em 2013 “eu estava em Los Angeles no Quartel General. As pessoas escondiam seu whisky – não sei por quê – então perguntei se eles estariam interessados em experimentar o meu: um Yamazaki. Eles responderam: ‘Ah, temos isso.’ Você só precisava dizer ‘Suntory time’ e eles corriam pegar as garrafas de trás do balcão”.
O Yamazaki 12 anos ter sido o primeiro whisky japonês a vencer medalha de ouro no International Spirits Challenge também ajudou a expandir a consciência da marca no mercado e entre os entusiastas, mas Bill Murray fez isso de um jeito mais legal.
Em 2008 houve um investimento pesado em uma campanha promovendo highballs que se tornou um sucesso e, em 2015, a Yamazaki foi catapultada para o centro do palco do mundo do whisky quando o Yamazaki Sherry Cask ganhou o título de whisky do ano na Whisky Bible de Jim Murray – a primeira vez que um whisky escocês não ganhava o título.

Hoje o whisky japonês está desfrutando de um boom de popularidade em todo o mundo, o Japão ocupa o quarto lugar como produtor de whisky mundial.
Uma das coisas interessantes sobre as destilarias japonesas é a valorização dos Master Blenders, pois consideram o blend como a verdadeira arte. Além disso, os whiskies japoneses colecionam prêmios internacionais, que as garrafas recebem ano após ano, incluindo o “Melhor Whisky de Grão do Mundo” e “Melhor Produtor de Whisky do Mundo” em várias competições nos Estados Unidos e Reino Unido.
Entre alguns dos outros fatores-chave que impulsionaram a demanda e o consumo de whisky japonês estão as crescentes inclinações para a cultura dos coquetéis e a mixologia experimental.
Obviamente, a crescente demanda por whisky japonês acabaria influenciando seus preços e, garrafas como o Yamazaki 18 Anos, que uma vez foram vendidas por U$100, agora são vendidas por cinco vezes o preço e se tornaram difíceis de encontrar no mercado.
Com a demanda e os preços das renomadas garrafas de whisky japonês aumentando, a Japan Spirits & Liqueurs Makers Association (JSLMA) decidiu regular sua produção. Em fevereiro de 2021, a associação estabeleceu novos padrões de rotulagem para whisky japonês, que entraram em vigor em 1º de abril de 2021 – embora as garrafas que já estavam em produção e à venda tivessem a opção de cumprir o mandato até 31 de março de 2024. Essas diretrizes não são legalmente vinculativas para os produtores, embora tenham sido aceitas pela indústria japonesa como um todo. Com essas leis em vigor, a produção de whisky japonês agora está restrita ao Japão e é mais autêntica. Além disso, há menos espaço para falsificações. Para que um whisky seja rotulado como whisky japonês, ele deve cumprir as seguintes diretrizes:
– Deve sempre usar grãos maltados, mas também pode incluir outros grãos cereais.
– A água usada para fazer o whisky deve ser extraída no Japão.
– A sacarificação, fermentação e destilação devem ocorrer em uma destilaria japonesa.
– Deve ser envelhecido em barris de madeira armazenados no Japão por pelo menos três anos.
– O engarrafamento deve ocorrer no Japão, com uma força mínima de 40% ABV.
– Pode ser utilizado um corante de caramelo simples.
– Um whisky que não esteja em conformidade com as diretrizes acima não pode usar os nomes das localizações geográficas do Japão, a bandeira japonesa ou o nome das pessoas que evocam o país em seus rótulos.

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