Se esqueça da oxidação: o que acontece com o whisky dentro da garrafa

E então, chega aquele ponto da vida em que você está comprando mais garrafas de whisky do que consegue beber em um fim de semana. É neste momento que começa a ser assombrado por dúvidas pavorosas:

  • Devo abrir todas as minhas garrafas, mesmo sabendo que não conseguirei beber todo o whisky e elas ficarão abertas na minha estante?
  • Por quanto tempo uma garrafa aberta dura, antes que o whisky fique ruim?
  • E se eu deixar as garrafas fechadas, quanto tempo o whisky demora para ficar ruim?
  • Olha! Alguém vendendo whiskies em promoção, vou comprar alguns.
  • Meu Deus! O que estou fazendo comigo?

Parabéns, você se tornou um acumulador da melhor espécie – afinal, está acumulando whisky e não caixas usadas de pizza e jornal velho.

Gabba gabba, we accept you, we accept you, one of us.

Mas voltemos a seus anseios e temores, o que acontece dentro de uma garrafa e quanto tempo dura um whisky depois de aberto (ou mesmo fechado)?

Este artigo foi escrito para ajudar a acabar com alguns de seus pesadelos infundados e, talvez, plantar a semente para alguns novos. Se prepare e encha seu copo, vem aí uma tempestade em forma de texto.

Oxidação, muito prazer

Dizem que uma mentira repetida muitas vezes se torna uma verdade. Embora seja, de certa forma, um exagero essa crença tem seu fundo de verdade.

“Ler no escuro estraga a vista”

Atire a primeira pedra de gelo quem nunca ouviu isso. E embora, na pior das hipóteses, isso cause fadiga ocular e dor de cabeça, esse hábito não irá se transformar em miopia. Mas o alerta continuará a ser repetido por avós e pais por eras e mais eras. Assim, uma “mentira” repetida não se torna uma verdade, mas passa a ser considerada uma verdade absoluta.

A oxidação do whisky é um desses casos e para entendê-la vamos voltar às aulas do ensino médio.

Oxidação é um processo químico onde os átomos de uma substância perdem elétrons. Isso faz com que ela:

a) aumente sua carga – fica positiva e

b) sofra uma mudança em suas propriedades físicas e químicas.

Um exemplo muito simples e famoso disso é o que acontece quando o ferro (Fe) reage com a água (H2O) e o oxigênio (O2) presente no ar para formar o hidróxido de ferro:

Fe + H2O + ½O2 -> Fe(OH)2

Ou em outras palavras:

isso vira isso

Por ser um fenômeno que envolve a perda de elétrons, é possível evitar essa oxidação com alguns truques. Um deles é fazer uso de um metal – ou ânodo – de sacrifício: um metal menos nobre ou mais reativo, como o zinco, colocado junto de um metal mais nobre ou menos reativo para que ele perca os elétrons e sofra as consequências no lugar do metal nobre.

Confuso? Olhe a imagem abaixo, no casco do navio colocam as pequenas peças metálicas para que elas enferrujem no lugar do casco e da hélice. Depois de um tempo, basta tirar as peças oxidadas e colocar novas em seu lugar e a proteção continua.

A oxidação tem esse nome porque acreditava-se que ela ocorresse graças à presença do oxigênio, mas hoje sabemos – ou deveríamos saber – que ela também ocorre sem ele. Cloro, flúor, permanganato e peróxido de hidrogênio são, também, agentes oxidantes que podem participar de reações de oxidação sem que haja a presença de oxigênio.

Resta responder à pergunta: mas o whisky não sofre oxidação?

Back to basics

Vamos aproveitar que falamos de química e voltar também ao básico da fabricação de whisky para entender direitinho a vida e as peripécias que ele vive.

Assim que é um New Make, sendo regurgitado de um alambique para dentro de um tambor de aço inox, o destilado passou por inúmeros processos químicos e está pronto para ser colocado em seu sono de beleza dentro do barril.

Muitos dizem que é agora que o whisky começa a envelhecer, nós preferimos o termo maturar ou amadurecer e vamos explicar por quê.

Se olharmos rapidamente para o tempo que o whisky passa no barril, podemos identificar essencialmente quatro efeitos que ocorrem:

Efeitos aditivos do carvalho: o líquido extrai componentes do carvalho, como compostos aromáticos voláteis como aldeídos, lipídios, taninos, lactonas, etc.

Efeito subtrativo do carvalho: a camada carbonizada no interior funciona como uma espécie de filtro de carbono e absorve compostos do líquido.

Efeitos interativos: o carvalho inibe reações cruzadas entre substâncias no líquido e na madeira, criando novos compostos.

Oxidação: o fato de a madeira não ser hermética permite que o líquido respire e o contato com o oxigênio leva à evaporação e à oxidação.

A maturação do whisky é uma combinação de todos esses quatro processos e aqui existe um terreno sinistro explorado por pessoas tenebrosas: a terra do barril pequeno.

Diz a ciência que maturar whisky em um barril menor, por exemplo de 20 ou 5 litros, faz com que ele interaja mais rápida e intensamente com a madeira e muita gente sai por ai dizendo que por isso ele “envelhece mais rapidamente”. Cuidado crianças, um barril não é um DeLorean.

De fato ocorre uma maturação “acelerada” em um barril de 5 litros em comparação a um barril de 200 litros.

Primeiramente, o tamanho do barril influencia a proporção entre a superfície de contato com o líquido e o volume total do barril. Em um barril menor, a área de superfície em relação ao volume é maior, o que aumenta a interação entre o whisky e a madeira e isso pode resultar em uma maior extração de compostos da madeira, incluindo sabores, aromas e taninos.

O problema é que esse período mais curto pode resultar em uma intensidade maior de interação que não será tão equilibrada ou refinada quanto em um barril maior, onde o whisky tem mais tempo para desenvolver uma complexidade de sabores e aromas.

Em barris menores a oxigenação ocorre mais rapidamente e resulta em uma evolução de sabores e aromas diferentes, que podem não ser desejáveis ou harmoniosos.

Assim, você não consegue um whisky mais velho mais rápido, apenas cria um monstro desequilibrado que passa longe da complexidade, suavidade e harmonia dos sabores e aromas desenvolvidos durante a maturação em um barril maior – basta pensar que se barris menores fizessem whisky bom muito mais rápido as destilarias estariam fazendo isso há séculos.

Enfim, voltando aos barris e à maturação normal, o whisky sofre oxidação, junto com outros processos, mas quando é colocado em um recipiente inerte, hermeticamente fechado e impermeável – como tanques de plástico, aço, garrafas de vidro ou porcelana para citar alguns – esses processos terminam. Por isso o whisky para de envelhecer assim que sai do barril. Não, aquele Ballantines 12 anos que está há 40 anos no bar da sua casa não tem 52 anos, não importa o que o Mercado Livre te diga.

Mas se o whisky para de envelhecer, isso quer dizer que não ocorrem mais reações químicas? E o ar que existe dentro da garrafa, é ele que oxida a bebida?

Pois é, caro entusiasta, é aqui que as coisas começam a ficar assustadoras, mas te adianto algo, tire a oxidação da sua mente.

A ciência do pega, estica e puxa

Quando era pequeno e meu pai me levava para assistir a algum show de mágica, ele sempre dizia: “Presta atenção. Quanto mais você olha, menos vê. Não fique olhando para as mãos do mágico, elas estão lá para te distrair”.

Ao falarmos de whisky, estamos nos referindo a um recipiente impermeável – uma garrafa – o líquido no interior – basicamente água e álcool – o ar que existe entre o líquido e a tampa e a tampa em si – de rosca ou uma rolha.

Existe também a sua casa inteira ao redor da garrafa, na forma de um espaço enorme cheio de ar.

Antes de prosseguir, vamos destacar algumas características de cada um desses elementos:

O Álcool é mais volátil do que água: (volatilidade é a tendência de uma substância em se transformar em vapor ou gás em condições normais de temperatura e pressão)

O álcool do whisky, ou etanol, é uma molécula higroscópica: tem capacidade de absorver umidade do ambiente através de ligações químicas, geralmente são solúveis em água e podem sofrer mudanças físicas e químicas ao absorver água do ar.

  • Gases se dilatam e se contraem
  • Líquidos se dilatam e se contraem
  • Vidro e porcelana se dilatam e se contraem

Mas a dilatação é mais intensa nos gases, em seguida nos líquidos e, de forma mais simples, nos sólidos.

Todos prontos? Vamos começar o show de mágica.

Assim que você compra uma garrafa nova, existe mais whisky do que ar dentro dela e, como em qualquer relacionamento, o alpha dita as regras. Assim que chega na sua casa, o whisky é o alpha.

Quando você abre a garrafa para ir se servindo, o ar começa a ocupar mais espaço, as regras do jogo começam a mudar.

O etanol dentro da garrafa evapora mais rápido que a água, o espaço “vazio” dentro da garrafa está cheio de vapores de álcool. Cada vez que você a abre, esse álcool se perde no ar da sua casa. De maneira simples, você está reproduzindo o Angel’s Share do barril – lentamente o abv do seu whisky vai diminuindo conforme ele vai evaporando.

Lembre-se também que o whisky é uma mistura de água e álcool temperados (com todas as substâncias químicas que dão aromas e sabores à sua bebida). Parte desses temperos se diluem com o álcool, parte deles se diluem com a água. Quando você perde álcool – e água também, que vai se evaporando lentamente – você vai perdendo esses sabores e aromas.

Além disso, quanto mais ar entra na garrafa – e ar tem umidade – mais o etanol absorve a água que entra junto e começa a se diluir, e essa água nova não tem os “temperos” do whisky, é só água sem graça.

Em resumo, a cada dose servida, seu whisky vai se tornando mais aguado e sem sabor. Começando a entender o que acontece?

Mas calma, “não fique olhando para as mãos do mágico, elas estão lá para te distrair”, você deveria estar olhando para outro lugar: a tampa da garrafa.

Por mais impermeável que a sua garrafa seja – e porcelana é tão boa ou melhor do que vidro nesse sentido – ela tem um buraco enorme por onde entram e saem coisas, esse buraco é vedado pela tampa e essa tampa não é hermética.

Acredite que tampas de rosquear costumam ser mais eficientes do que rolhas – apesar de não impressionarem tanto – mas mesmo elas não são perfeitas e permitem que hajam trocas, mesmo a nível molecular, entre o interior e o exterior da sua garrafa.

Quando a temperatura muda, e não estou falando apenas de “inverno e verão” mas de “dia e noite”, começa o estica e puxa. De manhã está mais frio, quando a temperatura do dia aumenta os gases – vapores de álcool e ar – se dilatam. O whisky se dilata. A garrafa se dilata. Mas os gases e o whisky muito mais do que a garrafa e isso força a saída dos elementos no estado gasoso.

Chega a noite e a temperatura cai. O líquido e os gases se contraem, puxando para dentro da garrafa o ar de fora, cheio da umidade que o etanol começa a absorver. Assim, mesmo em garrafas lacradas, com cera ou parafilme no gargalo, essas trocas acontecem.

Assim, não é oxidação que está tomando lugar é outra coisa que chamamos simplesmente evaporação ou dissipação – inclusive porque, por ser higrófilo, o etanol absorve o oxigênio de dentro da garrafa, se por um lado isso é ruim porque ele se dilui, por outro isso reduz ainda mais o catalisador dos efeitos oxidativos então meio que protege o whisky da oxidação.

Mesmo deixando a garrafa parada, lacrada na sua estante, o seu whisky irremediavelmente vai perdendo aromas e sabores para o ar da sua sala.

garrafa do Black Bowmore de 1964, vendida em leilão em março de 2020

Começando a sentir calafrios na espinha?

Pois é, nessa vida podemos ter três certeza: a morte, os impostos e a evaporação lenta e constante de todos os seus whiskies, mesmo os lacrados ainda. Mas essas mudanças não acontecem no nível molecular – onde a oxidação age.

Seu whisky segue perdendo as cadeias curtas de álcoois e as cadeias curtas de ésteres – já que eles também são bem voláteis. E ésteres são os responsáveis por muitas das notas frutadas, entre outras, que percebemos no whisky. Além disso ele vai ficando com o abv cada vez menor. Isso pode ser percebido em garrafas antigas que tem um nível mais baixo de bebida em seu interior.

Brincando de criar monstros

Mas você não precisa acreditar em tudo o que lê, você pode fazer um experimento para ver isso acontecendo na prática.

Para isso você vai precisar de 3 garrafas do mesmo whisky comprado no mesmo dia e um pouco de paciência. Para te ajudar a explicar essa compra caso as pessoas ao seu redor costumem saudar cada garrafa nova que você leva para casa com um “O QUÊ, MAIS WHISKY?”, diga que está realizando um

TESTE DE DEGRADAÇÃO DO WHISKY EM ARMAZENAMENTO A LONGO PRAZO!

1- Compre três garrafas iguais de whisky do mesmo fornecedor no mesmo dia, garantindo que sejam do mesmo lote de produção.

Evite garrafas coloridas como J&B, Double Black, Black and White. Você quer poder ver a cor da bebida facilmente.

Você pode fazer isso com dois lotes diferentes, um com garrafas de tampa de rosca e outro com garrafas de rolha.

2- Abra a primeira garrafa e beba de 200ml, até que o nível da bebida fique abaixo do ombro da garrafa. Coloque a tampa/rolha de volta.

3- Abra a segunda garrafa e beba 80% do conteúdo, deixando apenas 20% na garrafa. Coloque a tampa/rolha de volta.

“Mas eu não vou. conseguir beber tudo isso na mesma noite!”

Despeje em uma garrafa vazia e limpa e aproveite para ir bebendo dela enquanto a experiência ocorre.

4- Deixe a terceira garrafa fechada, ela será a sua referência.

5- Agora guarde as três garrafas em algum lugar para armazenamento de longo prazo. E de quanto é este prazo? Isso depende da sua paciência e curiosidade. Um ano pode parecer muito, mas para um experiência que se baseia em variações entre verão e inverno é, geologica e climaticamente, curto.

Algo entre 18 e 36 meses começa a ficar interessante, pense que só dentro do barril, o seu whisky fica ao menos 3 anos.

6- Depois de decorrido o seu período de tempo pré-determinado – ou sua paciência acabar e a curiosidade levar o melhor de você – Abra as três garrafas, sirva uma dose de cada uma e compare lado a lado como elas diferem umas das outras.

Claro que ainda existe uma versão “James Bond dos Pobres” para essa experiência. Pegue um whisky qualquer e sirva uma dose às 7 da manhã, deixe intocada no copo. Meio dia sirva uma outra dose e deixe em outro copo, guarde-o junto com o primeiro. Às 17 horas sirva uma dose em um terceiro copo, pegue os outros dois e cheire e beba os 3, do que ficou exposto ao que você acabou de servir.

O que você pode esperar de uma experiência dessas?

Em um teste como este, realizado com 3 whiskies diferentes entre 2005 a 2007 e 2013 a 2015 – Glenlivet 12yo, Lagavulin 16yo e Glenmorangie “The Original” – os resultados foram:

Consistentes nas 3 marcas. Em todas havia uma diferença não apenas perceptível, mas marcante no aroma, caráter e sabor.

Tanto o Glenlivet 12yo quanto o Lagavulin 16yo exibiram perdas consideráveis a ponto das garrafas com 20% de whisky serem bem diferentes de suas respectivas garrafas de referência.

O Glenlivet 12yo, em particular, se tornou imbebível, com uma nota particularmente amarga/azeda no palato.

O Lagavulin 16yo, embora ainda defumado e medicinal, se tornou fraco, fino e tinha desenvolvido um sabor metálico de sabão.

Em cada taça, uma versão mais pálida do Glenmorangie.

“MAS ISSO NÃO É APENAS EVAPORAÇÃO! ISSO É DE FATO OXIDAÇÃO!” Eu escuto muitos de vocês gritando.

Hello darkness, my old friend

De fato em alguns casos a oxidação toma lugar dentro de sua garrafa e, geralmente, quando ela acontece você pode apostar os dedos da sua mão esquerda que existe enxofre e turfa envolvidos.

Muitas pessoas notam que suas bebidas desenvolveram notas sulfurosas depois de um tempo na garrafa, quando passa um tempo esquecida na prateleira. Isso acontece quando os complexos organosulfurados no destilado são oxidados e se transformam em SO2, o dióxido de enxofre, popularmente conhecido como anidrido sulfuroso. Ele é um gás denso, incolor, não inflamável e altamente tóxico, cuja inalação pode ser fortemente irritante – mas não se assuste, seu whisky não virou veneno. Esse gás é o responsável pelo cheiro de fósforos queimado.

Além disso quando um whisky é turfado ele se enche de fenóis – o próprio fenol, guaiacol, cresol e outros – que funcionam como o metal de sacrifício que falamos lá em cima. Eles reagem com o oxigênio muito mais rápida e intensamente do que a maioria dos outros compostos do seu whisky. Por um lado isso é legal porque quando se oxidam os fenóis evitam a oxidação dessas outras substâncias – lembra-se do metal de sacrifício? – por outro lado isso é um saco porque quando você vai beber não tem como tirar só os fenóis oxidados que estão na garrafa e aproveitar o restante intocado do whisky.

Curiosamente, whiskies amadurecidos em barris de jerez parecem começar a se deteriorar mais rapidamente do que os amadurecidos em barris de bourbon.

Então de fato seu whisky pode oxidar, mas isso é mais raro do que a simples evaporação – especialmente se você não for um maníaco que guarda suas garradas no meio gramado do quintal, o dia todo expostas à luz do sol.

Tenso? Pode se acalmar! Apesar de tudo estar perdido, nem tudo está perdido.

Há males que vem para o bem

Olhe para todas as suas garrafas. Seus conteúdos estão mudando e não há nada que você possa fazer, mas essa notícia não é tão ruim assim.

Em primeiro lugar, essas mudanças não são avassaladoras. Em condições normais essa evaporação – ou a oxidação – leva tempo, muuuuito tempo, para se tornar de fato prejudicial.

Na prática, se você abrir uma garrafa hoje, beber um terço do conteúdo, colocar na estante e se esquecer dela para só a reencontrar daqui a 3 anos, seu whisky vai estar ok. De verdade.

Outro ponto é a regra da meia garrafa: se você bebeu metade do seu whisky, tem mais ou menos 2 anos para continuar bebendo e você pode trapacear: compre garrafinhas de vidro com batoque de plástico e tampa de rosca de 300 ou 200 ml e as encha com o whisky. VOILÀ, o whisky voltou a ser o alpha na garrafa e ele vai durar muito mais anos na nova casa.

Em segundo lugar, existe uma chance do seu whisky melhorar com um tempo em uma garrafa com mais ar dentro.

Se você não passou por isso, com certeza conhece alguém que já passou, alguém que abriu uma garrafa, levou um susto com as impressões das primeiras doses, deixou a garrafa de lado por um mês ou dois e quando voltou a provar se surpreendeu com a mudança. “O whisky evoluiu!”

Acredite ou não, essa prática se tornou tão comum que tem nome: neck pour – ou a dose do pescoço. Após romper o lacre da garrafa a primeira dose é bebida como um sacrifício, e a garrafa volta para a prateleira por duas ou três semanas antes de ser re-aberta e devidamente aproveitada. Uma ótima maneira de se livrar naturalmente das substâncias voláteis mais “desagradáveis” ou violentas que o whisky pode ter.

Quer um exemplo ainda mais explícito para acalmar seus nervos?

O Barman de Apartamento, atravessou o véu e retornou com a sabedoria que adquiriu com duas garrafas de Johnnie Walker Gold Label Reserve:

É comum as pessoas não quererem abrir seus whiskies por medo que estraguem. O raciocínio é que no momento da abertura da garrafa ocorre uma invasão de moléculas malvadas de oxigênio que vão despir de aroma e sabor aquele whisky se o mesmo não for consumido em poucos meses.

Não que eu ache que oxidação não existe. Não sou louco. Só gosto de experimentar o que as destilarias produzem e acho que as pessoas também poderiam se dar o prazer de fazer o mesmo.

Tenho essa garrafa de Gold Label há pelo menos 4 anos. E não consigo lembrar a última vez que tinha bebido ou usado pra fazer algum coquetel, então é possível afirmar que faz anos que ela está no final.

Vi uma promoção de pontos do cartão de crédito e resolvi comprar algumas garrafas novas desse whisky. Eis que surge a oportunidade perfeita pra analisar os efeitos prolongados da oxidação em uma garrafa de whisky no seu terço final.

E adivinhem?! O whisky estava totalmente estragado! Que arrependimento de ter mais de 300 garrafas de whisky aberta…

Mentira ;P

Quase não dava pra perceber a diferença entre o whisky velho e o novo. Perdeu um pouco de potência aromática, ficou um pouquinho menos vibrante, mas só dava pra perceber isso pois tinha uma garrafa nova pra comparar.

Mas é sempre bom ficar de olho. Esses dias percebi que meu finado Glendronach 18 estava começando a ficar opaco. Coloquei ele em 3 ou 4 garrafas de dose e, ainda bem, ele retornou à coloração normal e pude aproveitar bem as últimas gotas.

Onde quero chegar com isso? Abra as suas garrafas pra experimentar! O whisky só vai oxidar quando chegar no fim. E aí é hora de chamar seus amigos e dar um fim digno para aquele whisky. Afinal de contas whisky é feito pra ser apreciado e, de preferência, em boa companhia.

Disclaimer: isso não é um experimento científico definitivo. Só um relato de caso. Que já pude comprovar outras vezes, com outras garrafas, inclusive um Glenfiddich 15 aberto desde 2016.

Não dá para ser mais prático e explícito do que isso. Você pode ver o post original clicando aqui.

Além disso existe outra coisa, quase sobrenatural, que pode estar acontecendo com o whisky, e vamos falar dela agora.

O que é o Old Bottle Effect?

Como tantas outras coisas, essa ideia chegou com força no mundo do whisky vindo diretamente do sistema planetário do vinho.

O “Efeito da Garrafa Antiga” é um fenômeno em que o sabor do vinho se transforma ao longo do tempo. Então quando muitos entusiastas começaram a dizer que suas garrafas de whisky mais antigas estavam com sabores diferentes daqueles presentes em suas garrafas atuais – um Glenmorangie 10 engarrafado na década de 1980 comparado à mesma versão engarrafada na década de 2010 por exemplo – nos apropriamos do termo também.

Então o que temos em mãos é um mesmo whisky, engarrafado em décadas diferentes, com sabores diferentes. Mas se o whisky é feito na mesma destilaria, da mesma forma, por que existe essa diferença?

Em tese a explicação simplista é que a principal causa é a oxidação, ou seja, a reação do líquido com o oxigênio. Tanto no vinho quanto no whisky, o oxigênio é transita lentamente através da rolha ao longo do tempo e isso muda a bebida.

Mas ninguém entendeu ainda se é isso que acontece, se é que de fato alguma coisa acontece. Embora seja incorreto afirmar que o whisky se comporta da mesma forma que o vinho, os princípios por trás dos dois são semelhantes.

Em garrafas de vinhos, fechadas com rolha, ocorre uma oxidação lenta do vinho. Quanto pior for a vedação da garrafa – uma rolha frouxa, por exemplo – uma quantidade maior de ar entrará em contato com o vinho, fazendo com que ele fique marrom e cada vez mais amendoado. Em casos extremos, você termina com uma garrafa de vinagre nas mãos – vale notar que as rolhas sintéticas costumam deixar mais ar do que as de cortiça natural.

Mas em um cenário normal, a oxidação suave e gradual proporcionada pela rolha pode ter efeitos desejáveis em muitos vinhos tintos e alguns brancos. A reação ocorre no espaço entre o líquido e a rolha e é mais intensa logo após o engarrafamento, diminuindo gradualmente à medida que o ar é consumido e continua em um ritmo muito mais suave à medida que pequenas quantidades de ar são trocadas entre o interior e exterior da garrafa.

Essa oxidação afeta o vinho de várias maneiras. Seus aspectos de frutas frescas diminuem, enquanto notas de baunilha, coco (causado pelas lactonas) e toques amendoados ou tostados podem se desenvolver. Os taninos se polimerizam e os níveis de fenóis diminuem, resultando em uma sensação menos adstringente, um vinho mais “aveludado”.

Nos vinhos tintos, a cor pode desbotar ligeiramente e desenvolver tons levemente amarronzados com o tempo.

Por outro lado, quando se usa uma tampa de rosca para selar a garrafa, ocorre o oposto. Nesses casos, a entrada de oxigênio é efetivamente bloqueada, mantendo o vinho “fresco”. Isso é especialmente desejável para vinhos brancos mais leves, onde a preservação das notas de fruta fresca é importante.

A ausência de oxidação proporcionada pela tampa de rosca pode resultar em um aumento na presença de notas frutadas e florais, ao mesmo tempo que pode contribuir para a formação de compostos de enxofre indesejáveis. A cor do vinho será mantida, embora haja evidências de que a polimerização dos taninos ainda ocorra.

Até agora falamos de vinhos e no caso do whisky pode-se esperar que ocorra um processo semelhante, dependendo do tipo de vedação utilizado: rolha (sintética ou natural) ou tampa de rosca. Tenha em mente que tampas de rosca preservam mais a bebida, seguidas por rolha natural e finalmente as sintéticas.

Também vamos ressaltar que existe uma grande diferença entre vinho e whisky: por ser destilado, o whisky tem um teor alcoólico mais elevado – e lembre-se que o etanol tem o poder de retardar o processo de oxidação.

Mas o que acontece com os whiskies que – supostamente – sofrem o efeito da garrafa antiga?

Quem os bebe, descrevem notas de frutas tropicais, pêssego, textura suave na boca, taninos baixos, toques cerosos e fumaça integrada – e é ai que o bicho pega.

Essas características surgem nos vinhos que tinham tampa de rosca ou seja, mudaram na ausência da oxidação.

E é ai que OBE – Old Bottle Effect – se confunde com OBE – Out of Body Experience, experiência fora do corpo também conhecida como viagem astral.

Não há como dizer com certeza se o whisky mudou nos 20 ou 30 anos em que ficou fechado em uma garrafa ou se essas notas “diferentes” são resultado de mudanças que ocorreram nos processos de destilação ao longo das décadas.

Pense nas possíveis variações que poderiam ter ocorrido em uma destilaria: diferentes tipos de turfa podem ter sido usados no passado, as variedades de cevada mudaram, as características do mosto podem ter sido alteradas se um mash tun tradicional foi substituído por um novo; é inevitável que neste período tenha havido mudanças em cepas de levedura e possivelmente em regimes de fermentação, fogo direto pode ter sido substituído por serpentinas a vapor e serpentinas de resfriamento por condensadores – e nem entramos no assunto dos tipos de barris usados, a qualidade da madeira e condições de armazenamento.

Apenas uma dessas mudanças poderia afetar o caráter distinto de uma destilaria e isso seria multiplicado quando começamos a levar em conta os blends.

E existe uma terceira linha de pensamento que diz que, por não estarmos lidando com um líquido que tenha sido feito de forma idêntica ao longo das décadas, é impossível dizer se o efeito OBE é impulsionado pelo envelhecimento na garrafa, mudanças na destilação ou uma combinação dos dois.

Impossível, na verdade, não é. Poderíamos testar isso pegando dois whiskies que estão sendo engarrafados hoje, abrir um para realizar uma análise de cromatografia gasosa e passar por análises sensoriais e deixar sua garrafa gêmea lacrada por 20 anos e então repetir os testes com ela para ver quais mudanças podem ter ocorrido, se é que ocorreram.

Portanto, se algo acontece, acontece lentamente. O que exatamente é? Ainda não temos certeza.

Finalmente, perto do encerramento deste artigo, chega a hora de entregar algo que prometemos no início do texto.

Welcome to my nightmare

Você pode guardar uma garrafa, seguindo todos os protocolos do mundo e, se não tiver azar, o whisky vai se preservar por um bom tempo. Ou você pode simplesmente abrir a garrafa e beber.

Se está na dúvida entre abrir ou não uma garrafa: abra.

Quando um whisky é produzido, seu propósito é ser consumido – a não ser que ele venha junto com esculturas de mãos sinistras que servem de aparador de garrafa, seu cristal seja feito com areia lunar vitrificada e as 10 garrafas produzidas custem quase o mesmo valor da dívida externa de alguns países do terceiro mundo.

Quando você o deixa fechado na estante está apenas preparando um presente para o futuro marido da sua viúva ou deixando algo que será apreciado com bastante gelo de coco e energético por seus filhos – ou pior, pelo cunhado – em uma festa de piscina, não estou brincando.

Encerro o artigo com um link inspiracional para aqueles que ainda tem dúvidas sobre se sair abrindo e provando seus whiskies é boa ou má ideia: Pai guarda vinho de R$ 18 mil por 17 anos, e filha o usa em para fazer sangria em, festa.

7 comentários sobre “Se esqueça da oxidação: o que acontece com o whisky dentro da garrafa

    1. Boa noite. Já tentou fechar as garrafas abertas com VaccumVin que retira o ar de dentro da garrafa com uma bombinha? Eu faço isso e também passo para garrafas menores.
      E deixar whisky na geladeira ou adega? Afinal beber whisky na temperatura ambiente de 25 ou 26 é difícil. Obrigado.

      Curtido por 1 pessoa

  1. Texto excelente! Será que o uso de bomba à vácuo (semelhante as usadas para garrafas de vinho) mais rolhas plásticas ou de silicone não teria eficiência preservativa em garrafas de whisky já abertas? Grato

    Curtido por 1 pessoa

    1. Provavelmente funciona, mas ainda será menos eficiente que injetar gás inerte. Mas a pergunta que não quer nos calar, pelo menos aqui na Academia, é o porque devemos evitar a oxidação no uísque? Por que não devemos abraçá-la?

      Após alguma centenas de garrafas de garrafas aberta, minha experiencia mostra que essa oxidação e o processo de evolução dos uisques é, majoritariamente, positiva. Até mesmo para os turfados…

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