Benromach 10: a reencarnação de um clássico que nunca existiu

A Benromach é o que se pode chamar de uma nova velha destilaria. Fundada em 1898 ela passou de mão quatro vezes até chegar ao portfólio da Distillers Company Ltd. – também conhecida como DCL e que é parte do que que conhecemos hoje como Diageo – em 1953. Até que, em meio ao Whisky Loch, a destilaria é fechada permanentemente e, para. terem certeza que não voltaria dos mortos, a desmantelam completamente em 1983. 

Exatos 10 anos depois, a renomada engarrafadora independente Gordon & MacPhail (G&M) decide dar uma chance ao passado e traz a Benromach de volta à vida… quer dizer… bem, na verdade eles trouxeram o nome da destilaria de volta à vida.

Isso pode parecer bastante esquisito, mas isso fazia bastante sentido para o grupo, que não queria uma marca com herança ou legado, mas um terreno onde pudesse construir seu próprio caminho. 

Durante o início dos anos 1980, os grandes grupos estavam em busca de liquidez, grana em caixa mesmo e, diferente do que se fazia até então, quando uma destilaria fechava, faziam de tudo. para conseguir o máximo de dinheiro que conseguissem: vendiam todo seu estoque, tudo o que fosse feito de cobre e o que mais onde conseguissem colocar uma etiqueta de preço. 

No caso da Benromach todos os alambiques foram vendidos e prédio demolido, o que vemos hoje é uma destilaria totalmente nova, que usa o mesmo nome de uma destilaria fundada no século XIX. 

Claro que em um mundo onde dificilmente passamos por 6 meses sem o anúncio do reboot de um filme clássico, reboot esse que dificilmente chega aos pés do original, a ideia de uma destilaria nova “homenageando” uma antiga pode parecer uma afronta, uma oportunidade comercial de lucrar em cima de algo.

Mas, apesar de parecer uma comparação pejorativa a princípio, a “nova” Benromach surpreendeu.

Mesmo causando uma certa revolta hoje nos meios entusiastas, temos que ter em mente que as destilarias fechadas naquele momento da história do whisky – muitas com status cult hoje – foram as que tinham menor valor estratégico ou eram consideradas de caráter menos importante, ou ainda seu produto não atendia a qualidade exigida pela DLC, que os utilizava em seus blends.

Então, podemos dizer que a G&M, na verdade, está atribuindo à Benromach uma importância que, provavelmente, ela jamais teria em um grande conglomerado econômico, mesmo se houvesse sobrevivido.

Eles assumem a missão e, mais importante, tem a liberdade de produzir um destilado com característica de “Old School Speyside”. E o que isso quer dizer? 

Ao invés de aderir aos fermentos típicos de destilação, selecionados para uma fermentação mais rápida e limpa, eles aderem à levedura cervejeira, que tem uma fermentação mais demorada, com mais congêneres e produzindo um mosto mais turvo, todas características comuns do século XIX na região. Além disso, trabalham hoje com malte levemente tufado (12ppm) para a sua linha principal (core range), coisa que sua encarnação anterior não fazia. Esse nível de turfa se assimila ao que se encontra nos whiskies da Springbank, Talisker e Highland Park. 

Mas, apesar de levantar a bandeira do tradicionalismo, a Benromach não tem medo de tenntar coisas novas com uma grande oferta de variantes. Seu core range é formado pelas expressões 10, 15 e 21 anos e é complementado pela linha “Contrast”, que traz variações nos maltes usados, nas maturações e até mesmo versões triplamente destiladas. Edições limitadas do Benromach Cask Strength também são frequentemente disponibilizadas e uma grande variedade de engarrafamentos Single Cask é lançada todos os anos. 

Um dos lançamentos mais interessantes e exclusivos da Benromach é a versão maturada por 40 anos. E o que faz essa expressão da destilaria tão impressionante não é a idade avançada nem a enxurrada de prêmios e medalhas que ele recebeu nas versões lançadas em 2021 e 2022. Na verdade, o Benromach 40 anos é, literalmente, história liquida engarrafada, pois ele é um whisky destilado numa Benromach que não existe mais, uma destilaria que, como falei no início desse artigo foi totalmente desmontada para, 30 anos depois, renascer como uma das destilarias mais brilhantes de Speyside. 

Um Benromach pré 1993, não defumado, o que torna a experiencia de vislumbrar o passado ainda mais interessante. Apesar disso, na opinião desse entusiasta que escreve para a Academia, o caráter atual da destilaria faz com que ela tenha mais personalidade, com um destilado muito característico e que, provavelmente, se destacará ainda mais que esse barris herdados de seus antepassados. 

Mas vamos à degustação…. 

Benromach 10 

Categoria: Single Malt 
País: Escócia 
Região: Speyside (Elgin)  
Idade: 10 anos 
Barris: ex-bourbon de primeiro uso e sherry 
ABV: 43% 
Filtragem à frio: sim 
Corante: não

Aroma:

Um defumado leve aparece logo no início, acompanhado de uma sensação de lenha queimada e grama molhada. Um aroma que lembra canfora, mofo e couro molhado. Algum frutado aparecem depois de algum tempo, escondidas em meio à fumaça e notas do “funky” típicas da destilaria. Cerejas, ameixa aparecem como frutas em calda.

Sabor:

No paladar o primeiro impacto é de um leve dulçor, que logo do espaço para o defumado levemente medicinal/iodado, as frutas escuras continuam presentes e ganham a companhia de frutas tropicais, que lembram abacaxi e manga grelhados. A textura é agradável apesar do baixo ABV.

Finalização:

Uma finalização média, tendendo para longa, e com complexidade compatível com o aroma e paladar. Uma leve picância deixa o gole agradável e traz uma leve salivação que faz com que os próximos goles sejam inevitáveis. A sensação turfada predomina e é complementada de forma sutil pelo defumado e frutado.

Nota: 84
Um whisky ótimo, mas com gostinho de “poderia ser muito melhor
Quer detalhes sobre as notas? Clique aqui.

Mas e aí?

O Benromach 10 é um dos melhores representantes dos whiskies com teor alcoólico entre 40 e 43%. Tem complexidade, textura agradável, leve oleosidade e acende a boca como qualquer bebida destilada deveria fazer sempre.

Mas essa ótima impressão não deixa nenhum entusiasta sem a pergunta: “como seria esse whisky com 46% e sem filtragem a frio?”. Aí vem a versão cask strength (que também tem aproximadamente 10 anos de maturação) e solta um direto de direita no seu queixo e te deixa querendo mais!

Tendo a chance de beber o 10 anos normal e o CS você vê como esse whisky pode ir de 0 a 100 kh em menos de dois segundos e nos mostra que a versão do core range é um whisky ótimo… mas que poderia ser excepcional e estar na liga de lendas como Ardbeg 10, Springbank 10 e Port Charlotte 10.

Links:

Entrevista com Keith Cruickshank, Disitllery Manager da Benromach

Deixe um comentário