Serei brutalmente franco logo de cara: o título desse artigo é apelativo, quase um click bait, e eu teria vergonha de me usar de tal técnica se o artigo em si não tivesse um conexão com o que o título promete.
De fato, o que você está prestes a ler vai ser educativo de certa forma – caso tenha estômago para chegar até o final da leitura – e você vai entender quais os maiores problemas quando falamos de conservação de whisky.
Finalmente, antes de iniciarmos, a Academia tem sentimentos muito fortes e concretos com termos como “colecionador”, “investidor” ou qualquer outro que crie a ideia de que um whisky não bebido tem um valor maior do que aquele que você conhece o gosto. Sabemos que nem sempre é possível beber tudo o que compramos – graças a Deus – ou que um ou outra garrafa guardamos para alguma ocasião especial, mas nosso objetivo aqui é te ajudar a fazer seu whisky manter a qualidade original por mais tempo, para ser apreciado por mais tempo e não a criar uma hangar cheio de garrafas que nunca serão abertas.
Todos prontos? Vamos lá.
Para o álcool e avante!
Que atire a primeira pedra de gelo quem nunca se preocupou quanto tempo um whisky dura dentro de uma garrafa – fechada ou aberta – e sofre um pouco quando pensa no futuro de seus exemplares adquiridos. Aqui na academia dedicamos um artigo sobre o assunto – você pode lê-lo aqui – e depois disso já foram inúmeras conversas tentando explicar que não, seu whisky não vai apodrecer depois de um ano aberto.
Em uma recente live no instagram do Barman de Apartamento, bebemos um Bunnahabhain An Cladach que ficou por um ano com o nível abaixo da metade da garrafa, seguido por uma finalização de mais um ano na garrafa com apenas 2 ou 3 dedos de whisky no fundo. Ele estava muito bem, obrigado – se quiser assistir a todo o episódio do whisky figther, é só clicar aqui.
Mas apenas falar e mostrar não tem resultado, as dúvidas voltam e então chegamos ao cerne da questão, ao coração da incerteza e ao título original deste artigo. Nós sabemos que se cuidar do seu whisky ele vai longe – tirando pequenos acidentes que possam acontecer envolvendo vedação ou contaminação da bebida – mas o que aconteceria se ao invés de tentar preservar seu whisky você resolvesse judiar dele, mas judiar muito?
Se conversar sobre o jeito certo de fazer as coisas não acalma o coração do apaixonado, vamos falar sobre o jeito MUITO errado.
Entra em cena Mattias Klasson
Um entusiasta sueco de whisky que resolveu descobrir o que acontece com o destilado se, ao invés de tentar preservá-lo, você resolve se tornar um psycho killer qu’est-ce que c’est.

Ele arranjou várias garrafas de Bowmore Laimrig 15 anos Batch 3 e decidiu castigá-las de uma forma que embrulharia o estômago dos maiores sádicos de filmes gore de terror que você já viu.
Uma das garrafas foi guardada no freezer, a -18C.
Outra foi deixada no quintal, exposta à luz do sol e variações de temperatura e do clima.
A terceira garrafa foi presa com fita na parte de trás de uma máquina que ficava constantemente ligada a uma temperatura de 45C.
Outra delas, ela colocou em um ambiente que mudava bruscamente de temperatura, ultrapassando os 40C duas vezes por dia.
A quinta garrafa ele abriu e dividiu em duas garrafas de plástico pet das mais baratas que achou.
A sexta ele esvaziou, deixando apenas 100ml da bebida.
A sétima ele esvaziou pela metade.
E, finalmente, a oitava ele usou como whisky de referência, a guardando como supostamente se deve.
E por quanto tempo esse inferno etílico se prolongou para as garrafas? Por 2 anos.
Passado esse tempo, ele recolheu as garrafas e levou para uma banca de juízes provarem às cegas e descrever o que havia nas taças.
Como você acha que cada whisky saiu de dentro da garrafa?
But it’s been two years of silence, it’s been two years of pain

Para começo de conversa, era difícil dizer que todas aquelas amostras eram o mesmo whisky. O sabor e aroma da maioria se perdeu, os juízes tiveram que cavar fundo a taça com o nariz para conseguir descrever o que estavam bebendo.
O whisky deixado no quintal, exposto ao sol e às intempéries climáticas empalideceu. Mais claro que um vinho branco. Os juízes encontraram notas de grapa estragada, cola e limões apodrecidos com toques de gasolina e roupas sujas.
O sabor era o de plástico morno amargo e especiarias alienígenas envoltas com sabão. Todos concordaram que era imbebível e o classificaram como “especialmente repulsivo” e “mas que desastre!”, irreconhecível como whisky.
A garrafa meio cheia e a deixada no freezer mostraram diferenças do whisky de referência, mas diferenças pequenas – chegaram a ser referidas como marginais – alguns juízes afirmaram que o whisky tinha algumas falhas mínimas.
A garrafa com 100ml se revelou apenas uma sombra de sua glória passada.
A maior surpresa, entretanto, veio da garrafa que sofreu de calor durante os 2 anos, presa atrás da máquina. Os juízes a classificaram como o melhor whisky da mesa, perdendo apenas para a amostra de referência. O descreveram como sendo mais doce e com mais presença de carvalho – todos concordaram que aquele whisky deveria ter bem mais de 15 anos.
O whisky que sofreu as variações drásticas de temperatura também surpreendeu, exibindo características similares, com um dulçor mais marcante do que o whisky de referência. Mas seus aromas haviam desaparecido quase totalmente.
O whisky que passou os 2 anos nas garrafas pet não saiu bem da experiência. Na verdade, seria correto dizer que ele virou uma coisa sinistra e sequelada. No nariz parecia ter aromas de cinzas e algum amargor, até ai tudo bem, ainda parecia ser um whisky. Quando ele foi bebido é que a coisa mudou de figura, o plástico transformou a bebida em suco de aparas de lápis.
Apesar de, entre si, algumas das garrafas terem se saído melhor que outras, o whisky referência se destacou de todas. Os juízes o descreveram como uma adorável combinação de dulçor, frutas, caramelo e aquele estilo leve e equilibrado de turfa defumada que é a marca registrada do Bowmore.
Por comparação, até o whisky deixado pela metade na garrafa havia perdido intensidade.
Resumo da ópera
1- Coitada do freezer a -18C: Pequenas falhas, aromas e paladar enfraquecidos.
2- Deixada no quintal tomando sol e chuva: Imbebível e irreconhecível como whisky.
3- Presa na máquina a 45C: Bom whisky, mais doce, mais pesado no carvalho, mais “velho”.
4- Exposta a mudanças de temperatura: Similar a garrafa 3, dulçor destacado mas fraca de aromas.
5- Deixada em garrafas PET vagabundas: Amargo, cinzas, “completamente destruída no paladar.
6- Garrafa de 700ml com 100ml de whisky dentro: Oxidada, ‘um sombra pálida de sua glória passada”.
7- Garrafa de 700ml cheia até a metade: Similar à garrafa 1, pequenas falhas na bebida, aromas e paladar enfraquecidos.
8- Whisky de referência guardado como se deve: Mais intenso, dulçor maravilhoso, furtada, caramelo e fumaça turrada delicada.
Considerações finais
Você pode guardar uma garrafa de whisky, seguindo todos os protocolos do mundo e, se não tiver azar, o whisky vai se preservar por um bom tempo.
Ou você pode simplesmente abrir a garrafa e beber.
Se está na dúvida entre abrir ou não uma garrafa: abra.
É pra isso que aquele whisky foi feito e você nunca sabe quando vai infartar, ser vítima de atropelamento ou de um desastre natural. Se lembre que apenas nos tornamos a raça dominante ano planeta porque um meteoro matou todos os dinossauros – os tiranossauros achavam que iriam viver para sempre.
Se tomou coragem e abriu a garrafa: beba.
“Mas os juízes acharam a garrafa que ficou pela metade inferior!”
Sim, caro amigo. Um whisky aberto entra em uma batalha que só pode ser descrita neste artigo aqui. Mas na prática, a não ser que você tenha uma garrafa de referência para provar lado a lado na hora, qualquer mudança não comprometerá o whisky que você está bebendo. Um Highland Park que você abrir hoje vai ser o mesmo que você vai beber daqui a 4 meses, mesmo sem lacrar a garrafa – isso sem contar as mudanças que já rolam no whisky naturalmente, algumas para melhor outras para pior, mas a sua bebida é algo dinâmico e ela existe em um universo entrópico, ela vai mudar.
Moral da história
Deixe seu whisky protegido do sol e vamos banir garrafas pet – elas matam bebês tartaruga e sua bebida.
Qualquer lugar fechado que minimize as variações de temperatura, como um armário, também ajuda e, por fim, beba a p*rra do seu whisky.

Excelente artigo. Parabéns!!!
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