A história do whisky, contada pelos impostos – parte 1

De sua origem ao século XVI

A primeira menção registrada de whisky na Escócia data de 1494 e pode ser encontrada nos registros dos “Exchequer Rolls of Scotland“:

“…para o Frei John Cor, por ordem do Rei, para fazer aqua vitae com oito bolls de malte.”

Frei Cor era um monge na Abadia de Londores, um mosteiro que produzia whisky no condado de Fife e em seus arredores. É improvável que essa ordem para produção de whisky – aqua vitae – tenha sido a primeira, pois os monges teriam que ter uma reputação como destiladores já estabelecida para chamar a atenção do Rei e, para alcançar tal reputação eles, provavelmente, estavam trabalhando com a destilação há anos, se não décadas.

E aqui, logo no início do texto, nos deparamos com um ponto interessante sobre a história das origens do whisky.

Por um lado, é uma crença comum que os monges eram os produtores exclusivos de whisky até o século XVI, mas quando em 1545 Henrique VIII dissolveu os monastérios ingleses e a Escócia seguiu seu exemplo na década de 1560, o conhecimento da destilação se espalhou e cada fazenda e casa grande passaram a possuir seu próprio alambique para preservar o excedente da colheita de cereais.

Por outro, existem evidências de que a fabricação legítima de whisky para ‘fins medicinais’ passou do mundo secular para o eclesiástico através dos profissionais médicos da época: a Guilda de Cirurgiões Barbeiros. Por exemplo, a Cidade de Edimburgo concedeu um monopólio de destilação de whisky à Guilda em 1505, e isso foi aprovado pela Coroa Real por meio de um Selo de Causa em 1506. Seguindo a lógica apresentada no 3º parágrafo, dificilmente um grupo de médicos receberia um monopólio de destilação se já tivessem experiência com isso.

Deixando essa origem de lado, os escoceses usavam whisky como remédio para curar dores de cabeça, febres, cortes e erupções cutâneas. Barbeiros-cirurgiões o utilizavam para esterilizar equipamentos e feridas, os pacientes recebiam doses do destilado antes de amputações.

Podemos, então, considerar a produção de cerveja e a destilação como atos corriqueiro na época e isso fica evidente entre os anos de 1550 e 1570, quando uma série de condições climáticas adversas causaram grave escassez de alimentos, inclusive grãos.

Após uma colheita especialmente ruim no oeste da Escócia em 1555, o Parlamento Escocês decretou que os grãos só deveriam ser usados nos burgos de Ayr, Irvine, Glasgow e Dumbarton para ‘assar pão e fabricar cerveja e aqua vitae’ – isso mostra que essa aqua vitae mencionada estava sendo destilada não apenas em comunidades agrícolas, mas também nos centros urbanos em crescimento.

Aquela concessão de monopólios a cirurgiões e boticários foi uma tentativa de controlar a destilação de whisky apenas para ‘fins medicinais’, mas a ideia não deu muito certo, em parte por causa das crescentes pressões comerciais. Assim, não é surpresa alguma que existam exemplos históricos de alguns burgueses de bem de Edimburgo, especialmente uma certa Besse Campbell, regularmente batendo de frente com esses cartéis etílicos.

Os Registros do Conselho Municipal de Edimburgo de 1556 afirmam que Besse deveria “desistir e sessar, de agora em diante, de produzir aqua vitae ou vendê-la neste burgo, exceto no dia do mercado’ e também ‘conformar-se com privilégio concedido aos (cirurgiões) barbeiros sob o Selo de Causa”.

No original:

“desist and ceis fra ony forthir making of aqua vitae within this burgh in tyme cumyng or selling of ony therein except on the market day […] to conform to the privelge granted to the (surgeon) barbers under the Seill of Caus”.

Além de deixar claro que o escrivão da cidade tinha sérios problemas ortográficos, o registro demonstra claramente que, embora a Besse não pudesse destilar seu whisky, ela poderia vendê-lo no mercado da cidade como uma espécie de comerciante licenciada da época.

Um outro ponto mais sutil é que havia um mercado local em crescimento, já que Besse percebeu que o fornecimento “oficial” não estava dando conta da demanda e decidiu produzir seu próprio whisky para lucrar um pouco. Se Frei John Cor foi o primeiro produtor oficial de whisky da história da Escócia, então Besse foi a primeira empreendedora registrada e a primeira destiladora oficial independente de whisky também.

Este foi o período em que o consumo da aqua vitae estava crescendo entre os escoceses. Além de seu uso medicinal, ele se tornava cada vez mais popular em eventos sociais, como casamentos, funerais e batizados, sendo necessário produzir quantidades suficientes para atender às necessidades familiares e sociais.

Neste ponto, as mulheres desempenhavam um papel crucial na sua produção, sendo julgadas por sua habilidade em produzir o suficiente para manter sua família e convidados abastecidos durante o ano. Em casamentos, se esperava que as donas de casa fornecessem whisky suficiente para a noite toda. Se não houvesse o suficiente para a celebração, as mulheres da comunidade eram consideradas más esposas.

Claro, a cerveja também era consumida nesses eventos, sendo a bebida mais popular entre as classes mais baixas na Escócia até o século XVIII, quando foi substituída em popularidade pelo whisky.

Mas a cerveja possuía uma desvantagem, assim como as outras bebidas fermentadas da época: seu prazo de validade. A vida útil reduzida da cerveja significava que as donas de casa precisavam fazer pequenos lotes de cerveja a cada poucas semanas. As cervejarias tentavam disfarçar o gosto de cerveja azeda adicionando ervas e especiarias, como gengibre e cúrcuma, mas a cerveja continuava a se deteriorar, o que não podia ser disfarçado.

A invenção da destilação, significava que os mesmos ingredientes poderiam ser destilados e mantidos indefinidamente. A cerveja também enfrentava problemas de transporte, uma vez que “o agito, malabarismo e mudança de temperatura durante o transporte por navio, cavalo ou carroça” aceleravam o processo de deterioração. Assim, a cerveja era vendida apenas na região em que era produzida, ao contrário do whisky, que não mudava, envelhecia ou azedava após ser fabricado e podia percorrer longas distâncias para aser comercializado ou consumido.

Mas a escassez de alimentos continuava e, em 1569 e 1574, a cidade de Inverness proibiu a destilação de bebidas alcoólicas maltadas para preservar os grãos para consumo alimentar. Outras regiões da Escócia seguiriam o exemplo de Inverness e proibiriam a destilação durante períodos de escassez de grãos.

Em 1579, o Parlamento Escocês promulgou legislação para restringir a destilação de grãos, a fim de não desviar cevada, milho e trigo colhidos para longe do consumo alimentar. O estatuto declarava:

“Considerando que parece que os mantimentos serão escassos no presente ano, e entendendo que há uma grande quantidade de malte consumida em todas as partes deste reino pela fabricação de aquavitae… nenhuma pessoa dentro do burgo ou fazendas, nem ninguém mais, poderá fazer, fabricar ou destilar aquavitae a partir de 1 de dezembro de 1579 até 1 de outubro de 1580, sob pena de confisco da referida aquavitae e destruição de todos os equipamentos dos fabricantes, produtores e destiladores da mesma; deixando claro, sempre, que é permitido a cada conde, senhor, barão ou cavalheiro, ou outro de tal grau, fazer, fabricar e destilar a referida aquavitae de seu próprio malte e matéria-prima dentro de suas próprias casas, para seu próprio uso”.

No original:

“Forasmuch as it appears the victual shall be scant this present year, and understanding that there is a great quantity of malt consumed in the whole parts of this realm by making of aquavitae…no manner of person within burgh or land, nor others whatsoever, make, brew nor distill aquavitae from December 1, 1579 until October 1 1580, under the pain of confiscation of the said aquavitae and breaking of the whole equipment of the makers, brewers and distillers thereof; providing always that it shall be lawful to every earl, lord, baron or gentleman, or other such degree, to make, brew and distill the said aquavitae of their own malt and stuff within their own houses, for their own use”.

O objetivo de evitar a fome era claro, mas novamente há um ponto interessante nessa lei. Não temos como saber se o consumo de whisky pelas classes altas era baixo o suficiente para não afetar a escassez de grãos ou, se por algum motivo ou outro menos humanitário, os legisladores não viam a necessidade de regular seu consumo, mas podemos ver que mesmo entre os. mais favorecidos econnomicamente, o whisky estava sendo consumido em quantidades suficientes para chamar a atenção do governo, ele havia se tornado uma parte essencial da dieta escocesa.

Por mais de um século barbeiros-cirurgiões, monges e donas de casa souberam que o whisky possuía valor e o vendiam ou trocavam seu excesso para sustentar suas famílias, prática médica ou mosteiros. Era possível se conseguir um lucro maior vendendo whisky do que cevada nos mercados, mas até então não havia uma tributação governamental para ele.

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