O que a Macallan tem?

O que dizer sobre a Macallan que já não tenha sido dito centenas, milhares de vezes?

Talvez o fato de que uma de suas maiores qualidades seja o preço. Se não levarmos em conta o preço da garrafa, acabamos com um whisky comum em mãos. Melhor que alguns, pior do que outros. Só mais um zé na fila do pão.

Claro, existem histórias. Uma das minhas favoritas é uma contada pelos veteranos do Gillies Club, na Austrália. Dizem eles que, em 1979, um grupo de membros realizou uma peregrinação à Escócia, visitando cerca de 25 destilarias. Agora, tenha em mente que estamos falando de visitas a destilarias em 1979, alguns anos antes do Whisky Loch – quando o single malt ainda não fazia parte dos dicionários da maioria dos entusiastas, e “centro de visitantes” era praticamente ficção científica.

Bem, o grupo conseguiu visitar, de maneira bem íntima, 25 destilarias e, em cada uma delas, fazia questão de perguntar ao gerente que os recebia: “Em sua opinião, qual é o melhor malte produzido na Escócia?”
Vinte e quatro deles responderam “Macallan”. A única exceção foi Hector MacKenzie, gerente da Dalmore, que, com uma atitude que tiraria lágrimas dos olhos de Richard Paterson, respondeu: “Eu não sei – só bebo Dalmore.”

Então, por que razão alguém, em sã consciência, diria que Macallan é só mais um zé na fila do pão?
Vamos voltar no tempo novamente. Se você conhece algum entusiasta de whisky, aficionado por single malts nas décadas de 1980 e 1990, basta mencionar Macallan para vê-lo se afogar em elogios. E, de fato, o Macallan 12 anos era fabuloso e, talvez mais impressionante, custava basicamente o mesmo que quase todos os outros whiskies de 12 anos disponíveis no mercado. E, naquela época, ele era, de fato, melhor do que quase todos os outros whiskies de 12 anos – diabos, ele superava até mesmo vários 15 anos e alguns 18 anos.

Você acha difícil acreditar nas histórias dos seus pais e irmãos mais velhos… mas pense que houve uma época em que o Macallan era o herói do custo-benefício no mundo do whisky – se é que tal coisa existe.
E o que fazia o Macallan ser tão bom? Aí, teríamos que entrar em um mundo especulativo e nostálgico, repleto de achismos mais do que de fatos.

Será que era a cevada? A Macallan utilizava malte Golden Promise em seu mash. O Golden Promise, industrialmente falando, é uma desgraça: enquanto rende 2 toneladas por acre plantado, a concorrência rende 3. Cada tonelada produz 300 litros de álcool, contra 415 da concorrência, e ainda custa 20% mais caro. Em compensação, resultaria em um new make mais denso e maltoso. Hoje, só encontramos o Golden Promise em edições mais antigas da Macallan ou em algum engarrafamento muito específico. De resto, o malte foi abandonado pela destilaria.

Será que essa mudança no malte tenha afetado o whisky? Talvez seja a levedura. Antes, usavam levedura cervejeira, que foi substituída por leveduras específicas para destilação. Talvez tenham mudado o corte do destilado? Talvez… talvez… talvez…

O fato é que, até o fim da década de 1990 e início do novo milênio, Macallan era referência e competitivo financeiramente falando. Um ótimo exemplo disso foi a edição comemorativa da revista Private Eye, a publicação de atualidades e notícias número um do Reino Unido – ou pelo menos é assim que eles se denominam.

Em 1996, a Private Eye completou 35 anos de existência e, para comemorar, fez uma parceria com a Macallan. Essa parceria resultou em 5.000 garrafas de Macallan 35 anos – numeradas individualmente – cheias de whisky destilado no ano de lançamento da revista, 1961, que seriam vendidas para os leitores da publicação. O preço: £36 por garrafa – o equivalente moderno a aproximadamente £85. Imagine pagar R$630,00 por um Macallan 35 anos, destilado em 1961.

Não pare de ler agora para ir procurar o que aconteceu com essas garrafas – logo volto a falar delas.

Outro ponto importante é que, nessa época (décadas de 1980 e 1990), Macallan era sinônimo de Sherry. Se você tem alguma ideia sobre as mudanças na legislação espanhola na década de 1980, sabe o que isso significa. Caso não tenha ideia do que estou falando, pode ler este artigo que o Nardi escreveu para a academia.

Naquela época, comprar um Macallan significava adquirir um whisky 100% maturado em barris de Sherry – e estamos falando de barris utilizados para transportar Sherry de qualidade da Espanha, não os barris temperados que surgiram posteriormente (leia o artigo do Nardi). A Macallan também tinha alguns barris de carvalho americano, mas eles eram usados para maturar o whisky que terminaria sua vida como parte de blends.

Como tempero para essa história, o boom do mercado de single malts em nível mundial ainda estava começando. A busca por whiskies aumentava, mas ainda não havia se transformado na febre que marcaria as primeiras décadas do século XXI.

Nosso texto chega, então, a uma bifurcação. Um caminho nos leva a entender o que passou a acontecer com a “qualidade” do whisky, o outro, com o preço.

QUALIDADE EM PRIMEIRO LUGAR

Os barris de Sherry espanhóis originais começaram a se tornar mais escassos. A demanda por um whisky tão bom e acessível quanto o Macallan aumentava, e a produção começou a subir, priorizando a fabricação de mais whisky em menos tempo e de forma mais “eficiente”.

Chegamos ao ano de 2004, quando começaram a surgir novidades na destilaria. A primeira foi o lançamento do Macallan Elegancia, maturado em barris de Sherry Oloroso e Fino. Em seguida, veio a série Fine Oak, na qual o destilado era maturado em barris de Sherry e carvalho americano, resultando em um whisky “mais sutil e leve”. Daquele ponto em diante, podemos dizer que foi tudo ladeira abaixo.

Enquanto isso, na outra estrada, algo acontecia com os preços. O quê? Não há como saber exatamente.

O Macallan Private Eye foi lançado por £36 a garrafa. Onze anos depois, em 2007, era leiloado por £240; em 2017, por £1.500. Em outubro de 2018, uma garrafa foi arrematada por £4.000 – hoje, você pode comprar uma por £10.000 na Whisky Exchange (ou bem menos, se procurar em casas de leilões).

Outra garrafa de Macallan, muito mais famosa, é o Adami engarrafado em 1986. Apenas 40 garrafas produzidas com destilado que já estava há 60 anos no barril. Na época, o whisky mais velho já engarrafado.

Para que abrir a garrafa e beber o whisky se você pode ficar segurando ela usando luvas?

Em 1987, ela entrou para o Guinness World Records como a garrafa de whisky mais cara do mundo, depois de ter sido leiloada por £5.000. Em 1991, outra garrafa foi vendida por £6.375, e, em 1996, uma terceira atingiu £12.000. Em 2001, uma garrafa foi arrematada por £15.000, em 2002, outra chegou a £20.100, e, em 2007, pagaram £54.000 por ela.

De repente, em 2018, seis garrafas foram vendidas, com os seguintes valores: £615.062, £638.159, £816.983, £848.750, £886.112 e, finalmente, £1.200.000 – a primeira garrafa de whisky a ser vendida por mais de £1.000.000.

A loucura não parou por aí. Em 2019, outra garrafa foi vendida por £1.452.000 e, finalmente, em 2023, mais uma alcançou quase £2.2 milhões.

Enquanto isso, no mercado oficial, a Macallan começou, em 2012, a explorar novos lançamentos com a série 1824. Essa nova linha focava na cor do whisky, apresentando rótulos maturados em barris de carvalho americano e europeu temperados com Sherry. As garrafas da série eram Gold, Amber, Sienna e Ruby.

A novidade, que surpreendeu muitas pessoas, era o fato de que todas as garrafas vinham sem idade declarada, apenas organizadas em uma escala de preços ascendentes:

  • Gold: US$50
  • Amber: US$70
  • Sienna: US$120
  • Ruby: US$200

Em 2014 eles foram além, lançando a 1824 Master Series (a prima rica da 1824):

  • Rare Cask: US$300
  • Black: US$ 450
  • Reflexion: US$ 1.200
  • No6: US$4.000
  • M: US$6.000

Imagine a chance de pagar US$6.000 por um whisky cuja idade você nem faz ideia. Sempre existem os rumores “Há Macallans entre 40 e 60 anos dentro da garrafa… talvez até 70 anos…”, Mas rumores são como o amor: podem te deixar quentinho por dentro, mas não coloca comida na mesa.

Algumas dessas garrafas foram sucesso. O Rare Cask Black pirou muita gente por ser um Macallan defumado! Claro que, na prática, ele não era muito diferente de um Ruby, com aquele toque defumado discreto e quase imperceptível que você encontra em um Smoked Grouse.

Se você não voltou para fazer a conta mentalmente, eu faço agora: Macallan Ruby, US$200, versus Macallan Rare Cask Black, US$450.

Mas como eu disse, algumas dessas garrafas foram sucesso, fazendo seu valor no mercado secundário disparar e de certa forma endossando novos lançamentos “exclusivos” com o preço lá nas alturas.

TANTO BLÁ BLÁ BLÁ E QUAL A CONCLUSÃO?

Que hoje o mundo meio que espera que Macallans sejam lançados por um preço alto – insano se você preferir. As pessoas parecem querer olhar para uma garrafa e sentir o bolso doer, sonhando com o sabor do líquido que está lá dentro… mais ou menos o que fazemos quando compramos um bilhete da Mega Sena da virada para passar a última semana do ano imaginando o que vamos fazer com a bolada que podemos ganhar.

Essa é a graça da Macallan: a promessa que ela faz com garrafas que você, secretamente, se promete comprar um dia, para viver uma noite como um magnata árabe do petróleo.

E quando tiramos o fator preço da equação? Bem, você termina com um whisky comum, apenas mais um Zé na fila do pão. Quer ver?

Macallan 12 Sherry Cask

Categoria: single malt
País: Escócia
Região: Speyside (apesar de rolar um highlands no rótulo)
Idade: 12 anos
Maturação: barris ex-Sherry de carvalho espanhol
ABV: 40%
Filtragem a frio: sim
Corante: nunca

Aroma: de cara o doce levemente azedinho de um barril de sherry. Então uma mistura agradável de chocolate ao leite com baunilha e notas cítricas. O cereal lembra biscoitos assando. Imagine uma travessa com frutas e especiarias colocadas em um forno, você percebe um doce mas não distingue muito bem do quê, um cheiro delicioso de compota misteriosa. Procurando bastante servem uvas doces azedas, maçãs, favas de baunilha e aquele aroma químico oleoso marca registrada da destilaria que acaba puxando um pouco para nozes.

Paladar: mais fraco do que os aromas, levemente amargo e doce. Carvalho e vinho tinto. Frutas escuras. Álcool leve com chocolate. Imagine o aroma que você sente diluído. Ele evapora rápido e deixa sua língua com um fantasma de tudo o que seu nariz sentiu.

Finalização: curta para média, mas focando no curta. Ele parece evaporar rápido deixando um doce amargo. A parte doce vai desaparecendo primeiro e fica uma curiosa sugestão de fumaça. Não turfa, não defumado, apenas uma fumacinha de leve e então só um amargo muito gentil.

Nota: 79
Prêmio de consolação “pelo menos bebi um Macallan”
Quer detalhes sobre as notas? Clique aqui.

Macallan 18 Sherry Cask

Categoria: single malt
País: Escócia
Região: Speyside (apesar de rolar um highlands no rótulo)
Idade: 18 anos
Maturação: barris ex-Sherry de carvalho espanhol
ABV: 43%
Filtragem a frio: sim
Corante: nunca

Aroma: imagine o 12 muito mais denso. Tabaco, chocolate escuro e bolo de frutas assando. O Sherry aqui quase lembra um Cognac, cítrico de laranjas. O doce é de marmeladas, geléias de frutas escuras, cerejas. Ameixas, passas, um amargor de chá. As notas químicas lembram borracha. Aromas herbais e com o tempo o cítrico começa a puxar para o lado do mentolado. Se criassem um verbete no dicionário “whisky sério” provavelmente usariam a foto deste Macallan.

Paladar: assim que o bebe ele cobre a boca, oleoso e cremoso. O amargo do carvalho europeu abre para o doce de frutas escuras, cítrico. Picante e levemente químico. Assim que você sente o cheiro imagina que quando o colocar na boca vai conseguir mastigá-lo… mas isso não acontece. Novamente a intensidade dos aromas se perde aqui. Provavelmente a filtragem e o ABV baixo.

Finalização: média, o que decepciona um pouco. Você esperaria continuar sentindo o gosto do whisky por muito mais tempo, mas ele vai sumindo deixando algo de metálico na boca. Madeira e notas vínicas, amargo e doce, vão diminuindo o volume e intensidade. A picância pode lembrar um pouco gengibre o amargo tende às vezes para um chocolate escuro, folhas de chá.

Nota: 85
Um belo exemplar de maturação em sherry.
Quer detalhes sobre as notas? Clique aqui.

E o que aprendemos hoje?

Antes de mais nada, preste atenção: os dois Macallans escolhidos foram os Sherry Cask, aquelas garrafas que têm só um barrilzinho abaixo da marca.

Se Macallan era sinônimo de sherry, vamos tentar voltar às raízes. Nessa linha, quanto mais barris – Double Cask e Triple Cask – mais sem graça e “aguado” é o whisky.

Antes de entrar em detalhes sobre as bebidas, imagine a cena:

Você está indo para casa, quarta-feira à noite, depois de um dia de trabalho. Decide beber alguma coisa para relaxar. Para no mercado e vai até a gôndola de whiskies. Vê um Black Label por R$150 e pensa: “É isso que eu preciso.” Mas, ao pegar a garrafa, percebe ao lado um Macallan 12 por R$230. Pensa, olha para a outra garrafa, pensa de novo… “Eu mereço.” E leva o Macallan para tomar com gelo, vendo TV ou ouvindo uma musiquinha.

Você acabou de imaginar um mundo onde o Macallan 12 seria algo normal – claro que nesse mundo as pessoas que comprassem o Mac 12 não ficariam tão excitadas segurando a garrafa e deixando ela de molho na prateleira de cima do bar por 8 meses.

Dito isso, independentemente do preço cobrado pela garrafa – entre R$700 e R$900 –, é um whisky de 12 anos, com um sherry agradável, fraco em entrega de sabor, mas que vai bem naqueles copões de cristal com uma pedra de gelo do tamanho de uma laranja. (Tente reler esse parágrafo sem fazer cara feia ou engasgar.)

O 18 é bem mais interessante que o 12, mas decepciona um pouco quando você compara nariz e boca. Mais uma vez, a filtragem e o ABV baixo não ajudam o destilado. Mas, se você começa a beber por este – na casa dos R$4.000 –, pode se apaixonar pela Macallan. É um sherry whisky de respeito. (Tente reler esse parágrafo sem fazer cara feia ou engasgar.)

É por isso que o preço faz parte do charme dele. Um Macallan 18 Sherry Cask custando R$800 ainda apanharia feio de vários outros single malts da mesma idade e com a mesma maturação, mas ninguém fala mal de uma garrafa com esse valor agregado.

Isso me dá uma ideia de alguns artigos para fãs da marca e aqueles que querem provar o whisky e descobrir o que esse tal de Macallan tem.

4 comentários sobre “O que a Macallan tem?

  1. Belíssimo artigo!

    Macallan sempre tem um ar de “item de desejo”, vários amigos e conhecidos que nem bebem whisky têm a marca como referência.

    Mas fiquei curioso de tomar um Macallan dos anos 60!

    Curtir

    1. Muito obrigado. Pois é, acabou se tornando uma decoração de bar. Ano passado rolaram umas três ou quatro degustações às cegas com um Macallan no meio e ele, invariavelmente, terminava em último ou penúltimo lugar.

      Surge a questão: tirando o Marketing (afinal se o whisky é meia boca a propaganda te faz comprar uma vez só) porque ele continua tão relevante no mercado hoje?

      fazendo as contas, o que sobra é o preço. Custar caro é o charme dele.

      Mas ele é bom, mas ele é fácil de beber, mas ele envelhece bem! Sim, assim como dezenas de outros rótulos equivalentes de outras destilarias que, quase via de regra, passam por cima do Big Mac.

      Claro que, no caso da Macallan, o fator marketing não funciona pelas regras normais da realidade, já que dificilmente as garrafas mais parrudas são abertas e bebidas. Estão por ai, acumulando poeira na mesma proporção do orgulho que causam para os donos. Então muita gente acaba comprando vários para namorar e não beber, vai entender.

      “Mas fiquei curioso de tomar um Macallan dos anos 60!”

      Todo nós!!!

      Curtir

    2. Ótimo artigo. No fim do dia isso é resultado de anos de trabalho (bem feito) no posicionamento da marca como item de luxo. Assim como a La Mer x Nivea (os produtos principais tem formulações e funções muito parecidas, com uma diferença de preço abissal), Lexus x marcas alemãs (conforto/ confiabilidade x prestígio/ esportividade), e tantos outros segmentos.As marcas detectam que há público consumidor desse status, trabalham nisso e tudo bem.
      E sim, curiosa para provar um dos anos 60.

      Curtido por 1 pessoa

      1. É exatamente isso! Mas a pergunta que não cala é: como manter esse posicionamento no longo prazo? É possível manter um posicionamento de luxo com um produto medíocre?

        Da década de 1960 eu ainda não provei nada…mas tive a oportunidade de provar um da década de 1930. Te falo que são coisas completamente diferentes…

        Curtir

Deixar mensagem para Stevaux Cancelar resposta