Destilaria Deanston

A Deanston é uma destilaria peculiar.

“Lá pelos idos de 1700 e tanto, os irmãos começaram a destilar ilegalmente, até que em 1823 receberam a licença real para abrir sua destilaria. A abundância de água cristalina e grãos na região tornou sua empreitada um sucesso e, por séculos, a destilaria se tornou um ícone na produção da bebida mais clássica da Escócia.”

Esse parece o resumo do nascimento de praticamente todas as destilarias, mas não a Deanston. Para começo de conversa, a Deanston nem se parece com uma destilaria e não precisamos olhar para o passado na busca de sua origem.

Ela foi fundada na década de 1960 juntamente com uma dezena de outras destilarias, todas motivadas por um grande otimismo acerca do mercado de whiskies no período pós-guerra que crescia cada vez mais e parecia ser o investimento do futuro. Todas tinham um aspecto moderno, se esqueça da imagem de fazendas e campos que acompanham as tradicionais destilarias do século 19 e tente imaginar algo mais industrial, projetadas especificamente para a produção de whisky.

Mas, novamente, não a Deanston. E para explicar o porquê disso vou me contradizer e vamos voltar no tempo. Não a 1960, nem ao século 18, mas ao início do século XVI – de fato é uma destilaria peculiar.

A Deanston ganhou seu nome pela primeira vez em 1500 – 460 anos antes de ser criada – quando Walter Drummond, Reitor de Dunblane, herdou as terras dos Haldanes de Gleneagles.

Foi nesta época que a palavra escocesa ‘dean’ foi combinada com o termo gaélico escocês ‘toun’, que significa fazenda/assentamento, e assim nasceu o nome Deanston.

Deanston era, em grande parte, uma área agrícola até que John Buchanan e seus irmãos de Carston tiveram a visão que os imortalizariam. Eles converteram uma fabrica de linho existente na propriedade em uma tecelagem movida a água com o maquinário mais moderno que existia na época. Veja que só de whisky vive a indústria escocesa.

A tecelagem foi inaugurada em 1785 com o nome Adelphi Mill, às margens do Rio Teith (bem perto de Stirling e não muito longe de Edimburgo e Glasgow) e esteve na vanguarda da revolução industrial da Escócia. Ela possuía a maior roda d’água da Europa, capaz de gerar toda a energia necessária para a operação da fábrica e foi também um dos precursores dos lampiões à gás (mais modernos do que os à óleo), instalados em Deanston antes mesmo do que na Westminster Bridge, em Londres.

Tamanho o sucesso da operação que na metade do século 19 a tecelagem empregava mais de mil pessoas, seus donos começaram a considerar a possibilidade de se construir casas para eles. As primeiras moradias foram construídas em 1811 e logo a “Deanston Village”, contava com uma escola, correio, banco e mercado para atender à necessidade de todos.

O vilarejo chegou a ter, inclusive, a sua própria moeda. Graças à Revolução Francesa e à Guerra Napoleônica, toda a prata e o ouro foram usados para arcar com despesas de guerra, as moedas desapareceram de circulação. O Deanston Mill então pegou uma série de moedas francesas e espanholas e as “re-cunharam” para emitir aos trabalhadores e fornecedores como pagamento. Muito poucas dessas moedas ainda existem, mas podemos ver seu desenho incrustado nas tampas dos whiskies da Deanston.

A tecelagem encerrou suas atividades em 1965 e, apenas 9 meses depois, em 1966 a destilaria iniciou suas atividades. Inicialmente o objetivo era usar utilizar o whisky produzido na Deanston para a composição de blends, já que o empresário responsável pela conversão também era dono das destilarias Tullibardine e Macduff. Porém, ele teve seus planos frustrados quando, em 1972, a Invergordon Distillers (que posteriormente foi adquirida pela Whyte and Mackay) compra a sua marca. O primeiro single malt com a marca Deanston foi lançado em 1974.

Porém a boa fase da destilaria não durou muito.

Lembra do “grande otimismo acerca do mercado de whiskies no período pós-guerra que crescia cada vez mais e parecia ser o investimento do futuro”? Ele era, de fato, apenas otimismo. Os anos 1970 foram cruéis com a indústria de whisky e pouco mais de 15 anos após a sua inauguração, em 1982, a destilaria encerra a sua produção. E assim permanece por quase 10 anos, voltando a funcionar somente em 1990, após ser adquirida pela Burn Stewart (atual Distell).

Vale fazer um adendo: a Distell foi extremamente competente em levar as suas três marcas de whisky – Deanston, Bunnahabhain e Tobermory – a um patamar muito elevado. Eles subiram a régua de tal forma que suas marcas, desprezadas até muito recentemente e relegadas às prateleiras de baixo nos supermercados do Reino Unido – hoje são favoritas entre os entusiastas. Se pegarmos algum livro ou reportagem de 10 anos atrás, tudo que se fala da Deanston é sobre o quão sustentável a destilaria é e praticamente nada sobre seus whiskies.

Atualmente ela produz cerca de 2,4 milhões de litros por ano. Uma turbina hidrelétrica fornece toda a energia necessária para a operação e ainda vende o excedente para a rede nacional. A Deanston produz anualmente, desde 2000, cerca de 10.000 litros de whisky orgânico, um dos primeiros rótulos escoceses totalmente certificado como orgânico.

Graças aos diferentes aspectos do processo de produção – fermentação que chega a 100 horas, destilação lenta e ainda a forma dos lyne arms ascendentes dos alambiques – o estilo do whisky Deanston tende a ser leve e frutado. O DNA da destilaria também costuma ser descrito como waxy – ceroso.

Seus destilados não são turfados e se desenvolvem de maneira incrível com a maturação em barris de carvalho americano. Nos últimos anos a destilaria também entrou na dança das finalizações em barris ex-vínicos com resultados muito interessantes.

Região: Highlands (Ilhas)

Fundada: 1965

Proprietária: Distell

Capacidade: 3 milhões de litros por ano

Fonte de água: Rio Teith

Fermentação: mínimo 85 horas

Malte: 100% escocês, sem turfa

Tipo de alambique: Spirit still com capacidade de 17.000 litros. São alambiques altos, com uma constrição e tigela de refluxo na base do pescoço e Lyne Arms ligeiramente ascendentes

Graduação alcoólica do new Make: 69%

Capacidade de armazenamento na destilaria: 50.000 barris divididos em armazéns no estilo Dunnage e Racked. A maior parte dos barris é de Carvalho Americano, ex-Bourbon

Site oficial: deanstonmalt.com/

5 comentários sobre “Destilaria Deanston

    1. Essa também é uma das nossas preferidas por aqui na Academia…

      O core range é fantástico, mas as edições limitadas também são legais e vale muito ficar atento pra quando elas pintam por aqui….

      Curtido por 1 pessoa

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