Não sou exatamente um apreciador de bebidas delicadas. Meu estilo de rum preferido é o jamaicano, com sua fermentação selvagem de várias semanas e destilação em Pot Stills que parecem saídos de um filme de terror. O resultado que lembra frutas podres, cadáveres em decomposição e resistência de chuveiro elétrico queimada é algo que me fascina.
Quando o assunto é whisky, os mais oleosos, encorpados, em algumas ocasiões com uma boa quantidade de turfa, costumam ser os que mais me chamam a atenção. Mas existem excessões.
A Glencadam é uma pequena destilaria na parte leste das Highlands. Produz pouco mais de um milhão de litros por ano e até recentemente era praticamente desconhecida pelos entusiastas de whisky. Quase fechou definitivamente no início dos anos 2000, mas foi salva pela atual proprietária, a Angus Dundee (quem também dona da Tomintoul e algumas marcas obscuras de Blended Whisky) e vem de maneira quase silenciosa ganhando notoriedade.
A destilaria inicia o processo produtivo dos seus whiskies com uma fermentação bastante rápida, de apenas 52 horas. A destilação ocorre em alambiques relativamente altos, com um Lyne Arm ascendente em um ângulo de 15 graus, que faz com que somente os mais leves vapores alcoólicos cheguem no condensador. Além disso, o corte do destilado (75-65%) também prioriza a coleta de congêneres de menor peso molecular, fazendo com que o destilado tenha características florais e delicadas.
A destilaria tem 3 armazéns de maturação, dois no estilo Dunnage da época da fundação da destilaria, em 1825, e um armazém mais moderno no estilo Racked, construído na década de 1950. Ao todo, a Glencadam tem capacidade de armazenar 24.000 barris (um número modesto na indústria do whisky escocês), sendo a maioria deles de Carvalho Americano.
Glencadam 10

O Glencadam 10, lançado em 2008, segue todas regras da cartilha das boas práticas de engarrafamento de um whisky: tem idade declarada, cor natural e não é filtrado à frio. Infelizmente a destilaria não declara exatamente os tipos de barris utilizados na maturação do Glencadam 10 anos, mas julgando pela cor, provavelmente sejam utilizados barris de Carvalho Americano de reuso.
Categoria: single malt
País: Escócia
Região: Highlands
Idade: 10 anos
Barris: Carvalho Americano
ABV: 46%
Filtragem à frio: não
Corante: não
Aromas:
Extremamente floral, perfumado. Delicado. Notas frutadas de pêra e cítricas de limão siciliano também se fazem presentes. Baunilha, côco, mentolado, levemente amanteigado. Maltoso, biscoito.
Sabor:
Tem uma textura bem mais interessante do que a delicadeza do aroma sugere. Mais frutado em boca do que no paladar, maçãs, pêras, maracujá. Um apimentado interessante que lembra pimenta do reino. Um início doce, que lembra biscoito. Termina secando a boca e com um agradável amargo.
Finalização:
Média para longa, lembra um cheesecake, cítrico e seco.

Nota: 84
Um rapazinho surpreendente.
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Resumo da ópera:
O Glencadam 10 teria tudo pra ser somente mais um whisky levinho e sem graça – o famoso “ótimo whisky de entrada” – mas graças à escolha da destilaria em engarrafar a 46%, acaba sendo um whisky extremamente elegante. Nada está fora do lugar, mas nada está faltando. Ele tem uma leveza ideal pra se beber despretensiosamente nos dias mais quentes, mas tem informações suficientes pra ser apreciado com atenção por um longo tempo.


Ótimo artigo. Parabéns
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