Se foi o Comodoro Perry que levou o whisky ao Japão pela primeira vez em 1853, não seria interessante saber que whisky foi o responsável pelo nascimento da indústria japonesa? Eu acho que sim!
No dia 12 de julho, Perry serviu whisky a bordo de seu navio, o Susquehanna. Do lado japonês estavam Eizaemon Kayama, o intérprete Tatsunosuke Hori e Tokujuro Tateishi, enquanto do lado americano estavam o Comandante Franklin Buchanan, capitão do Susquehanna, o Comandante Henry A. Adams, chefe da equipe da frota e o Capitão Conti, oficial de bandeira, com os intérpretes Williams e Portman.
A cena que se seguiu foi registrada:
“Eizaemon Kayama e sua equipe estavam de muito bom humor e aceitaram de bom grado a hospitalidade oferecida pelos oficiais do Susquehanna. Beberam e comeram livremente ao receberem a hospitalidade de seus mestres, e especialmente apreciaram o whisky e o brandy que faziam parte do banquete. Entre eles, os favoritos do magistrado pareciam ser os licores estrangeiros, especialmente aqueles misturados com açúcar, que ele bebeu até a última gota, estalando os lábios ruidosamente.
Os intérpretes aos poucos ficaram mais à vontade no agradável banquete, provocando o magistrado embriagado, rindo e dizendo: ‘Seu rosto já está bem vermelho’, e alertando Eizaemon para não beber demais. Esses dignitários japoneses nunca perderam sua postura de cavalheiros e aparência refinada, o que falava de sua alta cultura, mas eles se mantiveram sociáveis e conversavam abertamente entre si.
Seus conhecimentos e informações gerais eram tão bons quanto seus modos elegantes e amigáveis. Eles não eram apenas bem-apresentados, mas também bem-educados, fluentes em holandês, chinês e japonês e não ignoravam os princípios gerais da ciência e os fatos da geografia mundial. Ele segurou um globo à sua frente, chamou sua atenção para um mapa dos Estados Unidos e apontou imediatamente para Washington e Nova York. Como se soubessem tudo sobre o fato de que um era a capital de nosso país e o outro o centro comercial. Eles foram igualmente rápidos em apontar para a Inglaterra, França, Dinamarca e outros reinos europeus.”
(Expedição da Frota de Perry ao Japão, p. 545-546)
Acredita-se que Perry levou consigo whisky escocês e whiskey de centeio americano. No entanto, as marcas não foram claramente ou historicamente registradas, mas há um livro escrito por Mamoru Tsuchiya, presidente do Instituto de Pesquisa da Cultura de Whisky intitulado Japanese Whisky as a Cultivation Effective for Business – Whisky Japonês Como um Cultivo Efetivo para os Negócios – que apresenta algumas hipóteses interessantes.
Tsuchiya afirma que o whisky escocês trazido por Perry era o “Glenlivet” de George Smith. A ideia apresentada é que, em 1852, quando Perry navegou do Porto Militar de Norfolk, não havia ainda o mercado dos blended whiskies – eles apenas começariam a ser produzido industrialmente a partir de 1860.
Outro ponto levantado é “como Perry, dos Estados Unidos, poderia trazer para o Japão a bebida local da Escócia?”
Entra em cena a Jardine Matheson Trading Company.
Fundada em 1832 pelos escoceses Williams Jardine e James Matheson, a empresa de comércio obteve grandes lucros com a compra de chá e seda – além do comércio ilegal de ópio – e tinha filiais em Hong Kong, em Xangai e outros países asiáticos.
Existe uma probabilidade enorme de que a companhia enviasse whisky escocês para ser vendido em suas filiais e é provável também que Perry tenha comprado o Glenlivet, muito popular na Escócia na época, durante sua estadia em Hong Kong enquanto estava a caminho do Japão.
Tsuchiya então vai atrás do whiskey americano que Perry levou.
Os Estados Unidos são conhecidos pelo bourbon, mas as principais áreas de produção, Kentucky e Tennessee, ainda não produziam o suficiente na época, então é improvável que tenha sido carregado no navio de Perry.
O porto militar de Norfolk de onde partiu o navio de Perry, o Mississippi, ficava na Virgínia, e o whiskey produzido na Virgínia era semelhante ao whiskey de centeio de hoje.
Talvez Perry tenha carregado esse whiskey de centeio a bordo.
Ainda existe a última entrada de seu diário, onde escreveu que os “oficiais japoneses gostavam muito de John Barleycorn”.
John Barleycorn é um personagem de uma canção folclórica inglesa que tem seu nome como título. Essa música é sensacional porque ensina as pessoas a transformarem Barley e Corn (cevada e milho) em whisky.
A letra descreve como a cevada é plantada, colhida e transformada em uma bebida alcoólica – existem muitas versões diferentes dela, incluindo versões de cerveja, whisky e, por algum motivo, conhaque, que ainda são cantadas até hoje.
There were three men come out of the west
Their fortunes for to try,
And these three men made a solemn vow:
John Barleycorn should die.
They ploughed, they sowed, they harrowed him in,
Throwned clods upon his head.
And these three men made a solemn vow:
John Barleycorn was dead.
They let him lie for a very long time
Till the rain from heaven did fall,
And little Sir John sprung up his head
And so amazed them all.
They let him stand till midsummer’s Day
And he grew both pale and wan.
Then little Sir John, he grewed a long beard
And so become a man.
They hired men with the scythes so sharp
To cut him off at the knee
And poor little Johnny Barleycorn
They served most barbarously.
They hired men with the sharp pitchforks
To pierce him to the heart
And the loader, he served him worse than that
For he bound him to the cart.
They wheeled him all around the field
A prisoner to endure,
And in the barn poor Barleycorn
They laid him upon the floor.
They hired men with the crab tree sticks
To cut his skin from bone
And the miller, he served him worse than that
For he ground him between two stones.
Here’s little Sir John in the nut-brown bowl
And here’s whisky in the glass
And little Sir John in the nut-brown bowl
Proved the strongest man at last
For the huntsman, he can’t hunt the fox
Nor so loudly to blow his horn
And the tinker, he can’t mend kettles nor pots
Without a little barley corn.
Tradução livre:
Havia três homens que vieram do oeste
Para tentarem a sua sorte,
E esses três homens fizeram um voto solene:
John Barleycorn deveria morrer.
Eles araram, semearam, o plantaram,
Jogaram torrões sobre sua cabeça.
E esses três homens fizeram um voto solene:
John Barleycorn estava morto.
Deixaram-no lá por muito tempo
Até que a chuva do céu caísse,
E o pequeno Sir John ergueu a cabeça
E surpreendeu a todos.
Deixaram-no lá até o Dia de São João
E ele ficou pálido e fraco.
Então o pequeno Sir John deixou crescer uma longa barba
E se tornou um homem.
Contrataram homens com foices afiadas
Para cortá-lo abaixo dos joelhos,
E pobre Johnny Barleycorn
Foi tratado de forma extremamente bárbara.
Contrataram homens com forquilhas afiadas
Para perfurá-lo até o coração,
E o carregador, ele o tratou pior do que isso,
Pois o amarrou à carroça.
Deram voltas com ele pelo campo
Como um prisioneiro a sofrer,
E no celeiro, pobre Barleycorn
Eles o colocaram no chão.
Contrataram homens com pedaços de madeira
Para cortar sua pele até o osso,
E o moleiro, ele o tratou pior do que isso,
Pois o moeu entre duas pedras.
Aqui está o pequeno Sir John na tigela marrom
E aqui está o whisky no copo
E o pequeno Sir John na tigela marrom
Mostrou ser o homem mais forte no final
Pois o caçador não pode caçar a raposa
Nem soprar seu chifre tão alto
E o consertador não pode consertar chaleiras ou panelas
Sem um pouco de cevada e milho.
O que levanta uma possibilidade de ter sido o Michter’s, uma destilaria fundada em 1753 e muito apreciada pelo primeiro presidente dos Estados Unidos, George Washington, que bebia seu whiskey para se aquecer com seus soldados na base de Valley Forge, quando era general na Guerra Revolucionária.
