Uma coisa que leva a outra que leva a outra. A melhor das intenções pode criar monstros, talvez por isso digam que é disso que as estradas que levam para o inferno estão pavimentadas, outras diriam que essa é a base da teoria do caos de Lorenz.
Uma noite você recebe um convite para ir a um bar e lá conhece pessoas novas, que embaladas pela animação e pelo álcool discorrem pelas mais vastas áreas filosóficas até o inevitável “em um mundo de bósons de Higgs, de busca de vida em outras luas e planetas, de matemática tão avançada ainda existem pessoas que acreditam em Deus?”.
Claro que cientificamente você não pode provar a inexistência de algo, quando muito pode ter evidência de sua ausência e ausência de evidência não é evidência de ausência – tente formular esse pensamento depois de algumas garrafas de cerveja.
Meses depois, o fã da ciência me convidou para seu aniversário – cara legal, bom de papo – e depois do inevitável “faça um desejo, sopre a velinha” as conversas ressurgiram. Lá pelas tantas, perguntaram qual havia sido o desejo e a resposta veio feliz, embalada pelo tilintar de pedras de gelo boiando e se chocando dentro de um copo cheio de Scotch “ahhhh que eu estivesse nadando em um lago de whisky”.
Saí de lá com dois pensamentos na cabeça. Não é realmente possível conversar sobre ateísmo com pessoas que fazem pedidos para uma vela num bolo de aniversário e um lago de whisky não é necessariamente uma coisa desejável ou sequer boa.
Voltemos no tempo.
Uma breve história do Whisky
Início do século XIX, na década de 1820 havia mais alambiques ilícitos do que Igrejas na Escócia – chegaram a confiscar 14.000 alambiques por ano durante essa época.
Então chega o glorioso ano de 1823 quando o Excise Act – uma lei especial sobre impostos de produtos – foi estabelecido: você poderia destilar whisky legalmente se pagasse uma taxa de £10 – aproximadamente £1.500,00 hoje – além de um pagamento fixo por galão de espírito destilado. O número de destilarias ilícitas despencou e teve início o mundo oficial e legalizado do whisky. Surgiam na Escócia várias nascentes de onde corria whisky para o país.
Em 1831 o Patent Still de Aeneas Coffey – também conhecido como Coffey Still ou Destilador de Coluna – chega ao mercado dando início à criação da indústria de blended whiskies. Aquelas nascentes se tornavam um rio de whisky que atravessava o Reino Unido.
Chegou a vez da natureza sorrir para o espírito destilado escocês e, em 1863, uma praga digna da Bíblia acabou com grande parte da produção de vinho na França, a epidemia da Phylloxera devastou mais de 40% de suas videiras. O grande problema não foi exatamente a falta de vinho para se beber, mas a falta de vinho para se fazer Brandy e sem Brandy as pessoas tiveram que recorrer a outro destilado. Parecia que o mundo estava pronto para abraçar e celebrar o whisky.
E estava mesmo.
Titãs do mundo do Scotch – como James Buchanan, Tommy Dewar, Johnnie Walker e James Chivas – começaram a exportar o whisky escocês em grandes quantidades para todos os cantos do mundo – de Hong Kong a Hanói, de Sydney a São Francisco, de Montreal a Mumbai, de Bogotá a Berlim, da Cidade do Cabo às ilhas de Cabo Verde.
Aquele rio de whisky havia se tornado um rio de ouro líquido. Tanto que na década de 1890, o investimento em whisky havia se tornado muito popular, e muitos investidores pediam – e recebiam – enormes empréstimos para comprar estoques de whisky escocês como investimento comercial. Todos esses empréstimos, claro, eram garantidos por ações de whisky – mas a maioria das pessoas e investidores tinha certeza de que o whisky continuaria aumentando de valor. O que poderia dar errado?
Tem um cego na rua procurando por algo de graça, enquanto um homem gentil pergunta para os amigos: o que que eu ganho com isso? Mas que alegria, todo cão tem seu dia.
E esse dia pareceu chegar para os irmãos Pattison.
Big bang baby, it’s a crash, crash, crash
Eles eram aquele tipo de empreendedores que deram tão certo que acabaram dando muito errado. Começaram a carreira como produtores de leite e então começaram a trocar vacas por whisky. Em 1887 Robert Pattinson deu início a sua empresa de blended whisky que, dois anos depois, estreou na bolsa de valores.
Da noite para o dia a família ficou £100.000 mais rica – o equivalente a £16,440,358.22 hoje. Os negócios cresceram e em 1896 os irmãos resolveram parar de criar e vender blends e passar a destilar e criar seu próprio whisky – e quem não gostaria? Eles compraram 50% da destilaria Glenfarclas e porções substanciais da Oban e Aultmore. Aproveitando a onda de sorte compraram a destilaria de grãos Ardgowan e a cervejaria Duddingston.
Agora só faltava contar para o mundo o que estavam fazendo e fizeram isso investindo em propagandas de uma forma que deixaria o Mac Donalds constrangido: £20.000 em 1897 e £60.000 em 1898 – aproximadamente £3.300.000 e £10.000.000 hoje em dia. Como resultado o Whisky Pattinson era conhecido pelo mundo e sua marca atraía investidores e mais investidores, sem contar que os bancos estavam felizes em deixar seu dinheiro à disposição dos irmãos.

Mas se tinha algo que faziam além de ganhar muito dinheiro era gastar muito, mas muito mais dinheiro. Como acontece com muitas empresas de capital aberto, sua prosperidade era totalmente apoiada em crédito. Mas enquanto o mundo do whisky estivesse crescendo, ninguém parecia se importar – nem ligar para outras atividades dos irmãos como vender ações de suas empresas para comprá-las de volta por valores inflados, pagar dividendos de seus “lucros” e brincar de supervalorização de imóveis.
O rio de whisky parecia prestes a se tornar um oceano, as ações para a fabricação anual de 2 milhões de galões saltaram para 13 milhões – os Pattinson responsáveis por 40% desse volume – e então, em 1899… POP!
A bolha estourou.
Uma grande empresa do ramo dos destilados conseguiu congelar a conta dos Pattison devido a um saldo pendente de £ 30.000 – £5.000.000 hoje em dia. Logo depois outros fornecedores e destilarias começaram a perceber discrepâncias, paralisaram os pagamentos e todo o esquema começou a desmoronar. Os irmãos obtiveram grande parte de seu capital de bancos e credores que foram atraídos por seus números de vendas inflados e todo o castelo de cartas caiu.
Aparentemente a fortuna dos Pattison havia se tornado uma dívida de £743.000 – £123.000.000 modernos.
Dois anos depois eles foram parar no tribunal acusados de fraude e desfalque. Também foram acusados de misturar whisky vagabundo com um pouco de whisky bom e vendê-lo como “Fine Old Glenlivet”. Saíram da corte direto para a cadeia.
Acaba que um dos principais vitoriosos nas acusações contra os Pattinson era a Distiller Company Ltd, uma coalisão formada pelos titãs do whisky citados lá em cima, que acabou conseguindo comprar todos os armazéns cheios de whisky dos irmãos por um terço do preço. A marca Pattinson morreu e a DCL acabou se tornando a Diageo.
1899 pode ser considerado o fim da primeira Era de Ouro do whisky, inúmeros credores, engarrafadores, destilarias e fornecedores foram à falência por terem depositado grande parte de sua fé nos irmãos.
Se seguiram a I Guerra Mundial, a Lei Seca e a Grande Depressão nos Estados Unidos, e em 1933 restavam apenas 15 destilarias na Escócia, em parte devido às consequências prolongadas da crise. E então veio a II Guerra Mundial.
I get knocked down, but I get up again
Uma das consequências da II Guerra e das restrições impostas às destilarias é que a quantidade de whisky destilado caiu de 10.700.000 de litros em 1939 para praticamente 0 em 1943.
Outra das consequências é que a Grã Bretanha precisava muito de dinheiro para pagar as contas que havia acumulado durante a guerra e por isso decidiram aumentar os impostos nacionais – para reduzir o consumo dentro do país – e dar um empurrãozinho na indústria para que começasse a exportar. E quem se tornou um dos maiores alvos dessas exportações?
Os soldados americanos haviam entrado em contato com o whisky durante o período da guerra e gostaram dele.
O Scotch já era conhecido e apreciado nos EUA, foi lá que a Chivas lançou seu whisky 25 anos em 1909, mas agora uma nova classe tinha desenvolvido o gosto pela bebida e não apenas a alta sociedade. Logo que o whisky voltou a ser produzido, 50% de seu consumo era doméstico, em 1947 esse número havia caído para 45.3%, em 1948 caiu ainda mais para 30% e permanceu próximo dos 25% até 1954 – indo para 20% na década de 1970. De 1947 a 1954 a exportação de whisky para os EUA mais do que dobraram. Em 1970 eles representavam 42% do mercado global de Scotch.
O mundo voltava a consumir whisky escocês novamente, em quantidade. Essa “revolução” do whisky teve como motor o fim das restrições de uso de cereais para destilação em 1954. Se em 1949 a produção de whisky era de 21.000.000 de galões, em 1974 ela atingia a marca de 184.000.000. Neste mesmo período as exportações de álcool passavam de 22 milhões de litros de álcool puro para 103 milhões e chegando a mais de 200 milhões em 1974.
Durante esse período a produção das destilarias disparou, mas havia um problema. Os estoques de whisky maturado estavam muito baixos e isso preocupava a indústria de blends – no início da guerra os whiskies estocados mal ultrapassavam os 5 anos de maturação por causa da queda de produção nos anos 1930.
Entre as décadas de 1950 e 1970 as destilarias começaram a investir em sua produção – a malteação se tornou mecanizada, o carvão foi substituído por óleo como combustível. Em 1945 o uso de turfa entrou em queda também, na década de 50 grande parte do malte produzido era “levemente turfado”. A DLC começou a desenvolver leveduras mais eficientes para conseguir destilados com maior teor alcoólico e um novo tipo de alambique – o Lomond – começou a aparecer em algumas destilarias.
Mesmo com as vendas disparando poucas destilarias novas foram construídas, ao invés disso as existentes começaram a investir em novos armazéns para guardar cada vez mais barris – também houve investimento em engarrafadoras e expansão em empresas de “blendagem”.
Um reflexo interessante disso é que, antes da guerra, grande parte das destilarias eram de fato britânicas, mas então começaram a ser compradas por empresas estrangeiras – a canadense Hiram Walker comprou a Glenburgie em 1930 e a George Ballantine’s & Sons em 1937, a Seagram and Sons comprou a Robert Brown & Co em 1935 e a Chivas Brother’s em 1949. Em 1960 mais de 60% das destilarias escocesas eram controladas por empresas internacionais.
O mundo nadava em whisky, os entusiastas começaram a reclamar da proporção de malte cada vez menor em seus blends e foram além, buscando as cada vez mais escassas garrafas de single malt. A Glenfiddich, aproveitando esse novo gosto do público, começou a anunciar seu single malt, que se tornou o único reconhecido internacionalmente até a década de 1980.

A década de 1970 se tornou a década do troca troca. Vinte destilarias mudaram de donos. A expectativa de crescimento para setor era estimada em 4.4% ao ano. O que poderia dar errado?
Um lago de whiky
Aparentemente pequenas coisas sutis começaram a acontecer nos anos 70. Uma coisa que leva a outra que leva a outra.
O marketing do whisky não evoluiu, suas mensagens retratavam e eram voltadas para ex-militares de meia-idade vestidos com tweed. O whisky começou a ser visto como uma bebida de velhos nos EUA.

A nova geração começou a voltar sua atenção para outras bebidas mais “jovens” como vodka e rum branco – Bacardí – e coquetéis feitos com eles. Falhas de comunicação entre produtores e distribuidores também serviu para que os primeiros continuassem produzindo seus destilados.
O aumento do preço do petróleo nos anos 70 serviu como catalizador para a crise econômica que iria assolar o globo nos anos 80 – foi o responsável direto pelo aumento do custo de produção de whisky. A inflação do Reino Unido batia 25% anuais. Greves varriam o país – sem contar a possibilidade constante de sofrerem atentados terroristas do IRA.
Aquele rio de whisky de proporções gigantescas que rugia pelo mundo foi represada, se transformando em um lago estagnado.
Como resultado em 1982 as vendas de whisky estavam em declínio. Destilarias se tornaram sinônimo de prejuízo, havia mais whisky estocado do que o mundo estava consumindo e na metade dos anos 80 muitas delas começaram a ser fechadas.
Algumas apenas suspenderam sua produção, imaginando que no futuro voltariam a produzir, outras foram fechadas e demolidas.
Banff, Brora, Coleburn, Convalmore, Dallas Dhu, Glen Albyn, Glen Esk, Glenlochy, Glen Mhor, Glenugie, Glenury Royal, Hillside, Linlithgow, Millburn, Moffat, North Port, Glen Flagler, Garnheath, e, claro, Port Ellen.
Chega a ser engraçado hoje nos perguntarmos “mas porque justo essas?”, a Port Ellen assumiu status cult no meio, com seu whisky sendo comprado hoje a preços exorbitantes.
Nicholas Morgan, diretor de divulgação de whisky da Diageo disse que “após um período de superprodução na década de 1970, a DCL empreendeu um programa de fechamento de destilarias por volta de 1983. As razões para a seleção de destilarias específicas para fechamento foram muitas e variadas, mas geralmente devem ser entendidas como um amplo excesso de estoque. A Port Ellen, por exemplo, foi fechada por não atender aos requisitos de qualidade dos blenders da DCL, cuja opinião tinha grande influência.”
Esta época, foi conhecida como o whisky loch – ou o lago de whisky – por causa de todo o whisky produzido e estocado que, de uma hora para outra, parou de ser consumido e comercializado. Seria necessária mais uma década para que todo esse destilado voltasse a ser consumido.
Por mais assustador que isso possa parecer, o whisky loch teve alguns efeitos colaterais interessantes. No fim dos anos 80 e começo dos anos 90 alguns blends começaram a surgir com idade declarada, o excesso de inventário permitiu que um Bell’s 8 anos surgisse no mercado. Em 1987 chegava ao mercado o Johnnie Walker Oldest, com whiskies entre 15 e 60 anos em sua composição – rebatizado como Blue Label em 1992.

Isso sim é história!!!
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Texto muito bem escrito com informações históricas interessantes. Absolutamente incrível.
Curioso pelos próximos…
Parabéns!!!
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